Rifkin: “A globalização está morta e enterrada: a distância social será a regra”

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30 Março 2020

“Bom, chegamos à redução de energias fósseis e CO2 na atmosfera que venho pregando há anos. Garanto-lhe que teria preferido muito chegar lá por outras vias”. Jeremy Rifkin encontra um momento de amarga autoironia, o guru mundial da economia aplicada à ecologia. Ele imediatamente explica seu pensamento: “Espero que você e sua família estejam bem. Esta é uma enorme tragédia que nos deixa consternados. Quando a carnificina terminar, enfrentaremos uma crise econômica sem precedentes”. Enquanto conversamos com o professor, trancado em sua casa hiperconectada em Washington, as agências superaram a previsão da Morgan Stanley para o PIB dos EUA: -30% no segundo trimestre.

A entrevista é de Eugenio Occorso, publicada por La Repubblica, 29-03-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Não apenas nada será como antes, mas nunca voltaremos à normalidade, escreveu o diretor do Mit Technology Review, Gideon Lichfield. Você concorda?

Definitivamente, sim. Teremos que estudar novas modalidades de comportamento, estudo, trabalho, vida social, para manter sempre uma distância segura uns dos outros. Teatros, estádios, cinemas, aviões terão que ser repensados novamente, para que abriguem menos pessoas e menos aglomeradas. Eu vou além. Enquanto a pesquisa de vacinas continua, é necessária uma triagem global. Os dados deverão ser armazenados com alguma forma de proteção de privacidade em uma plataforma blockchain à disposição das autoridades internacionais.

No momento, devemos nos resignar: o vírus permanecerá entre nós e, como o bloqueio não pode ser mantido para sempre para não dobrar definitivamente a economia mundial, teremos que esperar por alguma remissão para reabrir (parcialmente) as portas, resignando-nos a fechá-las rapidamente assim que as terapias intensivas do hospital sinalizarem um anômalo aumento de acessos. Mas a revolução terá que ir além, redesenhando a governança mundial.

É o Waterloo da globalização?

Assim como a conhecemos, está morta e enterrada. Devemos nos familiarizar com o termo glocal. Estou envolvido em um projeto da UE propedêutico do Green Deal da Presidente Ursula von der Leyen: as Bio-regiões, também áreas supranacionais com particular homogeneidade e vocação industrial, agrícola, cultural. Estamos delineando as fronteiras para aprimorar as atividades, as produções e as trocas internas. É claro que, visto que as tecnologias o permitem, com o máximo de conexões com o resto do mundo.

A área teste é Hauts-de-France, a espinha dorsal de Lyon até Dunquerque, um histórico rust belt (cinturão industrial) a ser destinado a um desenvolvimento industrial mais moderno. Já temos resultados favoráveis em termos de investimentos. Outras áreas estão na Holanda e em Luxemburgo. Nos últimos dias estávamos focando na Itália. A propósito: estou pensando nas afinidades entre a Lombardia e a Suíça, quais bio-regiões você identificaria, que diferença existe além do clima entre norte e sul?

Nasce o nacionalismo ecológico?

As instituições políticas permanecem na plenitude de seus poderes. Exceto pelo fato de que são acompanhadas por um comitê de especialistas que vive na área, 300 pessoas, incluindo acadêmicos, sindicalistas, pessoas da cultura e estudantes. Eles têm dez meses para fazer as propostas. A presidente von der Leyen estava prestes a tornar público o projeto quando fomos atingidos pelos eventos. Também há um plano semelhante nos Estados Unidos: há cinco bio-regiões aqui, dos grandes lagos do norte ao deserto da Califórnia. Temos dificuldades óbvias com a Casa Branca, mas o divisor de águas foi cruzado com a eleição em novembro de 2018 de Alexandria Ocasio-Cortez, determinada como apenas os jovens sabem ser, com um grupo de seguidores muito forte em sua faixa etária.

Aproveitar a oportunidade dessa trágica pausa para repensar nosso modelo de desenvolvimento?

Na história, as transformações de época sempre foram precedidas por epidemias desastrosas, incluindo a revolução industrial do início do século XIX e para trás ao longo dos séculos. Toda vez se pensa nos erros cometidos. Aqui, para não me repetir, o erro, vamos chamá-lo assim para não usar termos mais apocalípticos, se chama mudança climática. Os eventos extremos - incêndios, inundações, maremotos, secas, carestias - ocorrem com periodicidade plurianual e não a cada cinquenta anos, como no passado. E sempre envolvem uma fuga e uma migração desorganizada de homens, animais e vírus: estes últimos, para sobreviver, se prendem desesperadamente nos outros seres vivos e, assim, se disseminam pelo mundo.

Não devemos mais viajar?

Estou falando de fugas em massa. Mas, pensando sobre isso: você sabe com as teleconferências quanto se economiza em viagens de negócios, poluição, estresse e tempo tirado da família? Voltamos sempre ao ponto básico: o homem deve diminuir o desperdício e o consumo de combustíveis fósseis. Não sou tão ingênuo a ponto de pensar que a mudança ocorrerá em tempos imediatos, mas os horizontes temporais começam a se estreitar, digamos que ainda temos vinte anos.

Não se corre o risco de decrescimento?

Não pensem no empobrecimento generalizado, mas no contrário. A virada dos fundos de pensão de retirar centenas de bilhões de dólares dos investimentos do setor de combustíveis fósseis e indústrias relacionadas para reinvesti-los na economia verde, marca o advento da era do capitalismo social.

Agora temos essa amarga oportunidade: era melhor não a ter, mas vamos tentar aproveitá-la. Todas as revoluções industriais foram caracterizadas pela disponibilidade de meios de comunicação, tecnologias e fontes de energia. Se em 1800 havia a prensa de tipos móveis, hoje temos a web, e a mesma tecnologia nos fornece mil recursos, da Internet das coisas à digitalização de fontes renováveis. Nada será mais como antes, tentemos fazer com que seja melhor.

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