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20 Março 2020

"Estamos todos acostumados ao pensamento racional e vivemos na consciência de que o progresso tecnológico e científico nunca como nesta época tenha dado à humanidade ferramentas excepcionais para controlar a realidade. Tudo isso consolida uma percepção da vida em que tudo é controlado e não há possibilidade de entender fenômenos fora da dimensão da realidade. A epidemia de Covid-19 está detonando com essas certezas", escreve Riccardo Di Segni, Rabino Chefe da Comunidade Judaica de Roma, em artigo publicado por Il Messaggero, 19-03-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A famosa peste de Manzoni de 1630 poupou Roma, graças à atenção que os governantes da época dedicaram para impedir a chegada de pessoas infectadas do Norte. Não foi esse o caso durante a onda subsequente de 1656, na qual a peste veio do sul, de Nápoles, passando por Netuno. Em vez disso, Roma, graças às duras medidas adotadas pelas autoridades, foi afetada relativamente e registrou uma mortalidade de 14% da população (muito inferior do que o que ocorreu em outros lugares).

A única exceção negativa em Roma foi o gueto, cuja população foi imediatamente trancada dentro de seus portões e no qual a peste teve maior disseminação devido à promiscuidade, e a mortalidade atingiu pelo menos 20%.

Quando a peste ou outras epidemias chegam, bactérias e vírus geralmente não fazem distinção entre etnias e religiões. A experiência histórica judaica é, portanto, rica em histórias de epidemias, começando pela Bíblia e, junto com as histórias, abundam prescrições e interpretações. Atualmente, todo mundo pensa, todos se questionam, muitos, sejam laicos ou religiosos, se apresentam como conselheiros. E isso também acontece com os judeus. Não que não seja necessário um bom conselho sobre como se defender e fazer bom uso do tempo livre. Mas o risco é sempre aquele de dizer banalidades.

Há, no entanto, um argumento não tão banal sobre o qual o judaísmo se propõe a refletir. E é o tema do sentido, do significado do que está acontecendo. Estamos todos acostumados ao pensamento racional e vivemos na consciência de que o progresso tecnológico e científico nunca como nesta época tenha dado à humanidade ferramentas excepcionais para controlar a realidade. Tudo isso consolida uma percepção da vida em que tudo é controlado e não há possibilidade de entender fenômenos fora da dimensão da realidade. A epidemia de Covid-19 está detonando com essas certezas.

Atualmente, apesar das esperanças oferecidas por alguns medicamentos e de uma iminente (mas não muito) vacinação, estamos basicamente indefesos e a única defesa real, que agora é aplicada em larga escala, infelizmente é apenas aquela do isolamento, com um salto para trás da medicina de volta à Idade Média. E mesmo que possamos explicar a natureza do vírus, do contágio, da resistência de alguns e da sucumbência de outros em termos puramente científicos, nem tudo é explicado pela ciência. Como em qualquer outro evento, alguns são afetados e outros não, e não basta dizer que se trata do acaso.

Porque mesmo o acaso (ou o caos, e isso hoje o sabemos melhor) tem suas leis; e o acaso não significa negação ou falta de dimensão religiosa. Até o acaso tem sua explicação filosófica (da época de Aristóteles) ou teológica (com Maimônides e antes e depois). Se há algo de não banal a dizer hoje, é que o retorno tecnológico à Idade Média representa toda a nossa fragilidade e que a pretensão de excluir outras dimensões interpretativas está incorreta. Por esse motivo, a receita religiosa judaica tradicional (e não apenas) para essas circunstâncias, após a ordem de seguir as prescrições médicas, baseia-se em três pontos: a solidariedade social (porque outros seres humanos correm mais riscos do que nós), a oração (porque nem tudo se esgota na perspectiva humana) e a revisão do próprio comportamento. O que talvez seja a coisa mais difícil de fazer.

Em uma situação passada em que um rabino havia lembrado desses três deveres, um de seus fiéis lhe disse que não sabia exatamente do que deveria se arrepender. E o rabino respondeu que era exatamente disso que ele tinha que se arrepender: a incapacidade de compreender que nenhum de nós é perfeito.

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