Em meio à altercação política na Itália, abundam especulações sobre um “golpe branco” papal

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21 Agosto 2019

Para os italianos, herdeiros de um legado de séculos de teocracia e para quem o envolvimento clerical na política é tão natural que até possuem uma palavra específica para isso (“ingerenza”, ou seja, ingerência, interferência), é axiomático que, se algo acontece no cenário político local, o Vaticano deve estar envolvido.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 20-08-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

É assim que, em meio à crise desencadeada em agosto com o anúncio do vice-primeiro-ministro Matteo Salvini de que o seu partido, a Liga, abandonaria o governo de coalizão populista tendo em vista novas eleições, a imprensa italiana se viu invadida por especulações sobre o papel que o Vaticano estaria desempenhando supostamente nos bastidores.

Entre os analistas políticos, é dado que o Papa Francisco e sua equipe são hostis a Salvini, líder populista da direita cujo principal legado é o de ter imposto uma postura anti-imigratória severa no desempenho de suas funções como ministro do Interior. Francisco é conhecido por sua postura pró-imigrantes, tanto que os manifestantes anti-Salvini, na Itália, protestam segurando uma foto do papa para manifestar o seu ponto de vista.

Nesta segunda-feira (19), vários meios de comunicação italianos publicaram versões ligeiramente variantes da mesma teoria básica sobre o papel do Vaticano na atual política nacional italiana.

Em resumo, a teoria sustenta que o Vaticano quer a todo custo impedir Salvini de assumir o poder. No momento, as pesquisas indicam que a Liga é o partido mais popular no país com uma ampla margem. A mais recente pesquisa de opinião publicada segunda-feira diz que Salvini e a Liga têm 38%, com o concorrente mais próximo, o Partido Democrata, de esquerda, na casa dos 23%.

Embora isto dê a Salvini um seguimento impressionante, não é suficiente para governar. A teoria, portanto, diz que Francisco encarregou o seu principal assessor italiano, o Cardeal Pietro Parolin, de promover o que se conhece no país como uma “Maioria Ursula”, em referência à nova presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Quando von der Leyen se apresentou para a votação no Parlamento Europeu em julho, três importantes partidos italianos – os democratas, de esquerda, o partido conservador Forza Italia, do ex-primeiro ministro Silvio Berlusconi, e o Movimento 5 Estrelas, também de esquerda – votaram a seu favor. Os membros da Liga, de Salvini, por outro lado, votaram contra.

A ideia é que ou aqueles três partidos se unem neste momento e formam um governo, ao convite do presidente italiano Sergio Mattarella, ou, se não, apoiem um único entre eles caso os números atuais de voto se mantenham. As mesmas reportagens da imprensa italiana sugerem ainda que Parolin, atuando através dos bispos e dos embaixadores papais, prepara também um acordo com a França e a Alemanha para providenciar um financiamento adicional aos esforços da Itália em seu trabalho referente à crise de refugiados, sob a condição, evidentemente, de que Salvini não assuma o poder.

Parte do acordo seria que os esforços italianos para aumentar um imposto chamado IVA (sigla para imposto de valor agregado), basicamente um imposto sobre importações, não encontrem resistência em Bruxelas ou do restante da Europa, e que as pressões europeias contra a Itália para lidar com a sua crescente dívida pública também cessem.

Isso tudo, de acordo com as reconstruções da imprensa, faz parte de um esforço compartilhado pelo Vaticano, além de opositores italianos e europeus, para “neutralizarSalvini. Um meio de comunicação referiu-se provocativamente a este suposto dinamismo vaticano a um “golpe branco”, em referência à cor das vestes papais.

Um outro jornal local citou uma autoridade vaticana que falou, sem querer se identificar, bastante negativamente sobre as perspectivas de um governo liderado por Salvini.

“Ele é o primeiro em número de votos, com certeza, mas é desolador em sua capacidade de governar e melhorar o país”, teria dito ao jornal a fonte citada. “Não se pode governar um país apenas coçando a barriga (...) é preciso apresentar um horizonte e dar uma perspectiva para superar os medos das pessoas”.

Naturalmente, a questão óbvia é: Há alguma verdade nisso? O Vaticano está realmente em campanha contra Salvini?

Se perguntássemos a um porta-voz oficial do Vaticano, a resposta quase certamente seria: “Definitivamente, não”. O papa presenteia-nos com uma orientação moral ampla para a vida política, diriam, mas se põe acima das disputas quando se trata de partidos e candidatos específicos.

Em off, o que se diz no Vaticano geralmente é que, embora esteja claro que existem diferenças entre as visões de Francisco e Salvini – sem mencionar as tentativas artificiais com que Salvini se expõe com bíblias e rosários em aparições públicas, ao buscar se colocar como um defensor da identidade e dos valores católicos tradicionais –, não há campanha organizada de parte do Vaticano.

Além disso, diriam estas mesmas pessoas, o Vaticano tem uma ampla experiência em lidar com governos que lhe parecem hostis por um ou outro motivo, e Salvini dificilmente é a figura mais alarmante nesta longa história.

No entanto, no universo da realidade virtual do século XXI, quase não importa se a especulação está, de fato, correta. O que importa é que as pessoas acreditem nela, o que significa que muitos italianos irão supor que um voto para Salvini é um voto contra o papa, ou que ficar com o papa significa ficar contra Salvini.

O resultado final provável é que se Salvini e a Liga conseguirem chegar ao poder, tal vitória será interpretada como uma perda para Francisco. Se Salvini não tiver sucesso, Francisco provavelmente é quem receberá os créditos – sem, talvez, sequer na verdade tentar.

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