Apesar da pressão externa, pouco se falou sobre homossexualidade na cúpula sobre abusos no Vaticano

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25 Fevereiro 2019

Nos meses que antecederam a cúpula de quatro dias no Vaticano sobre o abuso sexual de menores por padres católicos, alguns prelados norte-americanos, ativistas e até mesmo alguns jornalistas tentaram vincular a homossexualidade à crise dos abusos, na tentativa de instar as autoridades da Igreja a assumirem uma linha dura contra os padres gays.

A reportagem é de Michael J. O’Loughlin, publicada em America, 24-02-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas o tema mal foi abordado durante a cúpula, e, quando o foi, os principais prelados rejeitaram qualquer conexão.

“Generalizar, olhar para toda uma categoria de pessoas nunca é legítimo. Nós temos casos individuais. Não temos categorias de pessoas”, disse o arcebispo maltês Charles Scicluna, que se tornou uma das principais referências do Vaticano no combate aos abusos sexuais.

Respondendo à pergunta de um repórter durante uma coletiva de imprensa no dia 21 de fevereiro sobre por que o Vaticano não estava discutindo a homossexualidade, ele disse que a homossexualidade e a heterossexualidade são “condições humanas”, acrescentando que “não são algo que predispõe ao pecado”.

“Eu nunca ousaria indicar que uma categoria inteira tem tendência a pecar”, disse o arcebispo Scicluna.

Dom Scicluna disse que, quando se trata de abuso sexual, é mais útil evitar “categorias” e, em vez disso, olhar para “casos individuais”.

O Papa Francisco também pareceu desconsiderar a ligação entre a homossexualidade e a crise dos abusos. Durante um discurso no dia 24 de fevereiro, último dia da cúpula, ele disse que os abusos de menores “são sempre a consequência do abuso de poder”. Ele também pediu aos bispos que se coloquem “acima de todas as polêmicas ideológicas e as políticas jornalísticas que muitas vezes instrumentalizam, por vários interesses, os próprios dramas vividos pelos pequenos”.

Juan Carlos Cruz, um sobrevivente de abuso sexual do Chile, que hoje vive nos Estados Unidos, disse à America que ele rejeita as tentativas de alguns católicos de vincular a crise dos abusos aos padres gays.

“Isso é apenas uma falácia, é cruel e está muito longe da realidade”, disse Cruz em uma entrevista no dia 22 de fevereiro no Vaticano. “Como homem gay e como católico gay, posso dizer que há pessoas gays que são muito más e que há pessoas gays que são incrivelmente maravilhosas. Há pessoas heterossexuais que são muito más e há pessoas heterossexuais que são maravilhosas.”

“Mas – continuou – a heterossexualidade ou a homossexualidade não são a causa da pedofilia.”

O momento do lançamento de um novo livro polêmico que afirma detalhar uma rede de clérigos gays que residem e trabalham no Vaticano causou surpresa, já que foi divulgado no primeiro dia da cúpula.

Frederic Martel disse que o livro Inside the Closet of the Vatican não implica que os padres gays sejam mais propensos a serem abusadores. Falando à America de Paris, Martel disse, no entanto, que acredita haver uma ligação entre o número supostamente alto de homens gays que trabalham para a Igreja e a cultura do sigilo que permitiu que o escândalo continuasse.

“Não há absolutamente nenhum vínculo entre abuso e homossexualidade”, disse Martel.

Mas ele disse que “uma cultura de sigilo que é extremamente forte” quando se trata de padres gays – em relação à qual a Igreja tem uma regra que oficialmente a proíbe, mas que raramente é aplicada – “foi usada para proteger abusadores, mesmo que essa cultura não tenha sido criada para protegê-los”.

“Muitos bispos que protegeram abusadores o fizeram porque eles mesmos têm problemas ou estão escondendo algo, muitas vezes relacionado à própria homossexualidade”, disse. “Muitas vezes, eles temem que a sua própria sexualidade seja revelada.”

Vítimas de ambos os sexos

Embora a análise de casos relatados de abuso sexual por clérigos nos Estados Unidos mostre que a maioria das ofensas é contra meninos e homens jovens, os participantes da cúpula pareceram ter a intenção de destacar que muitas meninas e mulheres jovens também foram vitimadas por clérigos.

“Para mim, o abuso sexual de menores não é apenas contra meninos, mas também contra meninas”, disse a Ir. Veronica Openibo, em um discurso no dia 23 de fevereiro aos quase 200 bispos e lideranças da Igreja reunidos para a cúpula.

Uma mulher adulta sobrevivente de abuso sexual por um padre falou aos bispos no início do dia, dizendo aos prelados: “Quando eu tinha 11 anos, um padre da minha paróquia destruiu a minha vida”.

A sobrevivente, cuja identidade não foi revelada, disse em seu depoimento que o trauma recorrente do abuso, que ela disse que durou cinco anos, resultou em complicações com a sua gravidez anos depois.

“Flashbacks e imagens traziam tudo de volta para mim. Meu trabalho de parto foi interrompido, meu filho estava em perigo. A amamentação era impossível por causa das terríveis lembranças que emergiam”, disse ela. “Eu pensei que tinha enlouquecido.”

O chefe do grupo pró-LGBT New Ways Ministry, Francis DeBernardo, disse à America no dia 22 de fevereiro que antecipou que a questão dos padres gays ficaria “mais proeminente” durante a cúpula por causa da atividade que antecedeu o encontro. Mas depois de ler os materiais preparatórios da cúpula, de ouvir as palestras e de assistir às coletivas de imprensa, DeBernardo disse: “No Vaticano, eles não ‘compram’ a teoria de que os padres gays são a causa” da crise dos abusos.

Não parece haver muita concordância sobre as causas da crise dos abusos, que eclodiu novamente no ano passado nos Estados Unidos, após a publicação de um relatório do Grande Júri na Pensilvânia, detalhando acusações de abusos ocorridos lá. O Papa Francisco e seus aliados culparam repetidamente uma cultura clerical que coloca os padres e seu bem-estar acima dos leigos.

Falando aos repórteres em Roma no dia 18 de fevereiro, o cardeal Blase Cupich, de Chicago, um dos organizadores da cúpula, citando estudos acadêmicos sobre a crise dos abusos nos Estados Unidos e na Austrália, disse que a pesquisa “indicou que a homossexualidade, em si mesma, não é uma causa”.

O cardeal, que já havia defendido os padres gays anteriormente, acrescentou: “O resultado de ser homossexual não é que você abusará, mas sim que as pessoas homossexuais são mais propensas a abusar de crianças do que as pessoas heterossexuais”.

Padres gays na mira

Mas, encorajados por novas ondas de revelações de um histórico de abusos, incluindo a recente laicização do ex-cardeal Theodore McCarrick, alguns católicos puseram os padres gays na mira, aos quais, contrariando as descobertas de especialistas e de um estudo acadêmico encomendado pela Igreja, eles culpam pela crise dos abusos.

Artigos recentes sobre padres gays apareceram no The New York Times e na New York Magazine, reacendendo um debate sobre a posição da Igreja. Embora o Papa Francisco tenha parecido mais aberto a acolher os católicos LGBT na Igreja do que seus antecessores, ele também confirmou a proibição oficial da Igreja aos padres gays no ano passado. Em uma entrevista recente, o papa disse que ter homens gays como padres “é algo que me preocupa” e disse que a homossexualidade está ficando “na moda” tanto na sociedade quanto na Igreja. Uma análise mais profunda das palavras do papa sugere que ele estava falando de padres gays sexualmente ativos, e não de clérigos que cumprem suas promessas de celibato.

Isso não impediu que algumas organizações e ativistas católicos nivelassem uma campanha contra os padres gays, usando a crise dos abusos como plataforma.

Em um comunicado divulgado no dia 20 de fevereiro, a Catholic League, dos EUA, rejeitou a ideia de que uma cultura do clericalismo criou as condições propícias para a crise dos abusos, e, como a organização fez muitas vezes no passado, jogou a culpa sobre os padres gays.

“A preocupação com o clericalismo por parte dos chamados católicos progressistas tem mais a ver com a miopia e o desejo deles de desviar a atenção da homossexualidade do que com a busca da verdade”, disse o líder do grupo, Bill Donohue.

Opiniões episcopais

Vários bispos que não fizeram parte do encontro, que se limitava principalmente aos chefes das Conferências Episcopais, também procuraram vincular a homossexualidade com a crise dos abusos, antes da cúpula.

O arcebispo da Filadélfia, Charles Chaput, escreveu em uma breve postagem publicada no dia 19 de fevereiro no National Catholic Register que, embora os bispos e os leigos devam trabalhar juntos para garantir que o abuso seja tratado corretamente, a “homossexualidade predatória desempenhou um papel importante na maioria dos casos de abusos que conhecemos”.

Os comentários do arcebispo Chaput coincidem com os do cardeal Raymond Burke e do cardeal Walter Brandmuller, que, em uma carta publicada no dia 19 de fevereiro, disseram que a “praga da agenda homossexual se espalhou dentro da Igreja”, praga, segundo eles, que é “protegida por um clima de cumplicidade e de espiral do silêncio”.

E o bispo de Rhode Island, Thomas Tobin, tuitou no dia 21 de fevereiro que a crise dos abusos foi causada por vários fatores, incluindo “correntes gays na Igreja”.

Mas os sobreviventes do abuso em grande parte rejeitaram a conexão entre a homossexualidade e a crise dos abusos.

Quanto a Cruz, ele disse que o cerne da crise está em permitir que os padres que abusaram de crianças permaneçam no ministério. Esses padres, disse ele, deveriam ser demitidos do estado clerical, e, se os bispos deixarem de agir ou encobrirem o abuso, eles também deveriam ser punidos. Ele disse que acompanharia de perto a reunião para ver os próximos passos concretos.

“Todo mundo tem o direito de estar com muita raiva. Eu também”, disse ele. “Mas eu sinto que, quando há uma oportunidade, onde uma porta se abre, você tem que aproveitá-la.”

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