Novo livro 'In the Closet of the Vatican' gera nuvem tóxica de suspeitas

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22 Fevereiro 2019

Frederic Martel, sociólogo francês e autor do livro In the Closet of the Vatican: Power, Homosexuality, Hypocrisy (No armário do Vaticano: poder, homossexualidade e hipocrisia, em tradução livre), teve coragem suficiente para dizer a repórteres, em uma conferência de imprensa da Associação de Imprensa Estrangeira, em Roma, no dia 20 de fevereiro, que "a grande maioria" dos mais de 200 membros do Colégio dos Cardeais é homossexual e sugerir que muitos têm uma vida dupla.

O comentário é de Gerard O’Connell, publicado por America, 20-02-2019. A tradução é de Luísa Flores Somavilla

Apesar de o livro relatar que 80% dos sacerdotes que trabalham no Vaticano são homossexuais, Frederic Martel tentou se distanciar dessa alegação contundente na conferência de imprensa. Ele disse que os dados foram passados a ele por um padre que foi entrevistado para o livro. "Eu não valido nem rejeito. Como se pode saber?", disse a repórteres.

Perguntado pela America sobre como provar que sua afirmação de que "a maioria" dos cardeais da Igreja hoje é homossexual, ele não deu nenhuma resposta adequada.

Uma tese central do livro é que os cardeais e bispos que mais condenam a homossexualidade têm maior propensão a serem homossexuais. Para o autor, isso faz parte de sua tentativa de acobertar quem realmente são.

Em forma de tabloide, Martel apresenta o relato de várias fontes sobre alguns religiosos ou cardeais do Vaticano. Contando essas histórias ao longo de muitas páginas, ele acrescenta: "É claro que não se pode ter certeza disso”. Qualificações estranhas como essas levantam uma questão de ética jornalística básica: por que escrever algo que levanta suspeita ou põe em causa a integridade de tantas pessoas sem apresentar provas?

Ninguém duvida que haja padres homossexuais no Vaticano, assim como existem pessoas gays em praticamente qualquer organização internacional dessa dimensão. Mas relatar — como faz o autor, com base no que outras pessoas disseram, no que ele acredita e/ou no que ele observou durante sua investigação — que aproximadamente 80% dos funcionários do Vaticano são gays e sugerir que muitos têm uma vida dupla certamente levanta questões de credibilidade.

Frederic Martel disse que seria disponibilizado um documento de 300 páginas com fontes, notas e capítulos inéditos on-line no dia da publicação do livro.

A graça que ele faz com os dados dos 80% revela uma das fraquezas fundamentais do livro, que será lançado em oito idiomas (incluindo inglês) em 20 países no dia 21 de fevereiro, o dia em que o Papa Francisco faz a abertura da cúpula do Vaticano sobre a proteção de menores na Igreja.

Em relação ao momento do lançamento, Frederic tentou minimizar os benefícios financeiros em um dia em que o Vaticano será foco da mídia internacional. Ele argumentou que existe uma conexão entre o livro e a reunião, que pode ser encontrado na cultura do sigilo do Vaticano. Ele alega que, principalmente desde o papado de Paulo VI, a cultura do Vaticano não apenas encobriu a homossexualidade dos cardeais e dos bispos como também levou muitos a protegerem abusadores de menores para que suas próprias histórias sexuais não fossem reveladas.

Frederic apresentou a edição italiana do livro, que se chama Sodoma, na conferência de imprensa de hoje. Segundo o autor, foram realizadas cerca de 1.500 entrevistas durante os quatro anos de pesquisa para o livro, com diversas pessoas ligadas ao Vaticano em 30 países, como os Estados Unidos, a Argentina, o México, o Peru e o Estado do Vaticano. Ele disse que foram entrevistados 42 cardeais, 52 bispos ou prelados, 27 padres gays, nada menos que 45 diplomatas e embaixadores estrangeiros da Santa Sé e 11 guardas suíços, bem como homens que trabalham com sexo e ex-funcionários do Vaticano que não participam mais do ministério e vivem sua homossexualidade abertamente. Ele gravou as entrevistas e contou com a colaboração de cerca de 80 pesquisadores, tradutores, jornalistas ou "facilitadores” e — talvez mais significativamente, dado que muitas vezes ele transita na fronteira da difamação - cerca de 15 advogados de diferentes países.

Segundo seu relato à imprensa, "somente uma pessoa homossexual” poderia ter escrito este livro, para poder "compreender os códigos e o sistema" da vida homossexual em Roma, algo que um heterossexual "não conseguiria". Ele nega que haja um "lobby gay" no Vaticano, mas afirmou que há "uma grande maioria silenciosa de homossexuais" vivendo em isolamento como "mônadas". Ele afirma que há "uma mentira" no coração do sistema do Vaticano, onde a grande maioria dos sacerdotes é homossexual, e que "pela imposição do celibato e da castidade [sobre os sacerdotes], a Igreja tornou-se sociologicamente homossexualizada". O autor diz que sua investigação “revelou” uma subcultura homossexual no Vaticano e nos episcopados do mundo.

O livro levanta muitas questões, mas também gera uma nuvem tóxica de suspeita sobre muitos cardeais, bispos e sacerdotes que será difícil dissipar ou neutralizar. Ele diz à imprensa que seu alvo não são os indivíduos, mas apenas um sistema fraudulento, e admite a rejeição ao falecido cardeal colombiano Lopez Trujillo, citando evidências de que ele era homossexual praticante, bem como o núncio apostólico em Paris, o arcebispo Luigi Ventura, e alguns outros.

Para Frederic Martel, o verdadeiro "vilão" do livro é o decano do Colégio dos Cardeais, Angelo Sodano, que foi núncio apostólico no Chile por 10 anos durante a ditadura de Pinochet e depois foi Secretário de Estado no papado de João Paulo II. Ele acusa o cardeal de saber "tudo sobre os casos de abuso" no Chile, sobre Fernando Karadima; no México, sobre Marcial Maciel; no Peru, sobre o Sodalicio; e nos Estados Unidos, sobre o ex-cardeal Theodore McCarrick. E afirma que o cardeal Sodano "deve ser investigado pelas autoridades judiciais do Vaticano".

Martel também fala sobre o cardeal polonês Stanislaw Dziwisz, secretário particular do Papa João Paulo II, dizendo que ele estava profundamente envolvido nesses casos. Ele alega que o Papa João Paulo II era homofóbico e estava cercado por homossexuais enrustidos que fizeram muitas declarações homofóbicas. Ele descreve o Papa Bento XVI como "um homófilo reprimido”. Mas defende o Papa Francisco, que segundo ele está rodeado de "rainhas" e preso numa armadilha, atacado pelas forças de direita que buscam relacionar a homossexualidade à pedofilia. Frederic nega essa associação com veemência, apontando para o fato de que muitas meninas também foram abusadas.

O Papa Francisco recentemente foi acusado de encobrir casos de abusos cometidos por McCarrick. Mas as acusações de Martel de que, assim como o cardeal Sodano, o cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado no papado de Bento XVI, também sabia dos abusos de McCarrick. O autor ainda observou que o Papa João Paulo II promoveu McCarrick e deu-lhe o chapéu vermelho. Ele acusa o Papa João Paulo II, juntamente com o Papa Bento XVI, de saber sobre o comportamento de McCarrick, assim como o arcebispo Carlo Maria Viganò, que tem "uma psicologia homossexual e pertence a essa corrente pró-homossexual que ele nega".

Neste livro, o autor, afirma ter sido católico até os 12 anos, quando se aproximou do catolicismo de esquerda na França, põe em causa a integridade não só de muitas pessoas, bem como cardeais, bispos, outros prelados e papas, mas também da Igreja.

Se você gosta de fofoca, anedotas, histórias picantes e insinuações sobre autoridades da Igreja, vai adorar esse livro. Mas se estiver procurando provas concretas, documentação, distinção entre fato e suposição ou outras formas de provas para sustentar as acusações ou alegações, ficará decepcionado.

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