Sem tato. Artigo de Lucetta Scaraffia

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19 Fevereiro 2019

"A perspectiva em que o Papa Francisco enquadrou o problema dos abusos é o caminho certo, e se cruza com outra de suas solicitações para a Igreja: que às mulheres seja reconhecido o papel que lhes cabe. De fato, é sobre essa aparente falta de reconhecimento das mulheres que se articula a cultura dos abusos, que se torna possível a massiva prática de prepotência indigna de qualquer cristão", escreve Lucetta Scaraffia, em artigo publicado por “Donne Chiesa Mondo”, revista mensal do jornal L'Osservatore Romano, edição de fevereiro/2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo

Como nos ensinam os comentários aos Evangelhos, por um lado, e a psicanálise, pelo outro, o tato, que ocupa um posto de destaque dentro do ensinamento do Evangelho, é um fator essencial na nossa maneira de conhecer a verdade e de comunicar com os outros. É um sentido escondido, mas muito poderoso, que envolve os aspectos mais profundos da psique humana. O fato de que há alguns anos, por efeito do escândalo dos abusos, o tato tornou-se um tipo de contato impraticável para sacerdotes e religiosos em relação a crianças e mulheres, não representa apenas uma nova forma de etiqueta e uma forma de prudência elementar para evitar suspeitas (inclusive infundadas), mas uma verdadeira mutilação da vida de relações, da comunicação humana, do apostolado na comunidade cristã.

Em um momento histórico em que a Igreja já está enfrentando uma grave crise em sua capacidade de transmitir a mensagem do Evangelho, coração da mensagem cristã, a impossibilidades de fazer uma carícia em uma criança, de segurar as mãos de uma mulher entristecida ou abalada, constitui uma grave violação. Negando a possibilidade de utilizar o tato como forma de comunicação, torna-se quase impossível compreender a capacidade da pessoa envolvida de enfrentar a reciprocidade da relação, a intimidade, a identidade da outra pessoa. Basicamente, a realidade profunda de uma relação humana.

Certamente não se pode negar que é uma mutilação merecida, mas ainda assim uma mutilação. Para retornar à liberdade de fazer uma carícia, segurar pela mão, colocar um braço ao redor dos ombros - a caridade também é feita disso – é preciso encontrar uma saída para o escândalo dos abusos. Cada gesto se tornou suspeito porque o significado simples, gentil, afetuoso, de tantos gestos foi usado para não tranquilizar e confirmar um outro, mas para violar a privacidade de uma criança, de uma mulher, ou seja, de alguém frágil. O Papa Francisco deu uma interpretação mais forte e mais radical para essa crise: não se trata de caídas em tentação da carne, de pecados sexuais, mas de abuso de poder, abuso que nasce de uma interpretação perversa da função sacerdotal, de um mal que ele chamou de clericalização.

Se ao pecado da carne se pode de fato remediar com a conversão individual, o abuso de poder, o clericalismo, ao contrário exige uma mudança mais profunda, uma revisão completa da cultura católica e da preparação dos futuros sacerdotes, exige um retorno às origens da mensagem evangélica, que sempre fala de serviço e não de poder.

Entende-se perfeitamente, portanto, como o discurso de Francisco gere tantas oposições, e como a complexa estrutura eclesiástica ainda oponha muitas resistências ao seu discurso, ao seu apelo de purificação radical. Podemos ver isso especialmente quando olharmos para um dos dois componentes do grupo das vítimas dos abusos, as mulheres. Enquanto para os menores a admissão e a condenação resultante são obrigatórias, uma vez que partem de uma transgressão reconhecida pelo Código Penal, para as mulheres o discurso é mais complexo e toca justamente o coração da análise do Papa, o poder. Nas transformações das leis estabelecidas nos países ocidentais a violência sexual contra as mulheres e contra os menores estão sempre intimamente ligadas.

Tomemos o exemplo italiano: o código Rocco, em vigor até 1996, punia qualquer tipo de violência sexual - contra mulheres e menores - como "crime contra a moral pública e bons costumes". Isto é, protegia um bem coletivo e não a vítima, que desaparecia, quase ela mesma culpada por ter infringido uma lei moral.

Em 1996, graças às pressões do movimento feminista, finalmente foi promulgada uma nova lei: o estupro torna-se um crime contra a pessoa, que tem o direito à inviolabilidade sexual, e, portanto, a legislação renovada estabelece que a atividade sexual deve ser fruto de uma livre escolha individual, porque se enquadra no direito próprio do indivíduo. A liberdade sexual, enquanto liberdade pessoal, eleva-se assim ao grau de bem primário, e o estupro torna-se assim um crime contra a pessoa.

A proteção individual também se estende aos menores, isto é, aos que têm menos de catorze anos. Antes, no entanto - e isso acontecia, em parte, também com as mulheres - tornava-se crucial para estabelecer a gravidade da infração avaliar a conduta da vida do menor, e só eram protegidos aqueles que eram considerados "menores não corruptos". Com a nova lei agora todos os menores são protegidos, porque se protege o valor da pessoa, tanto assim que o menor é protegido, inclusive contra a sua vontade. Mas a situação das mulheres permanece muito ambígua, e especialmente dentro da instituição eclesiástica séculos de cultura centrada na mulher perigosa e tentadora levam a classificar essas violências, mesmo que denunciadas, como transgressões sexuais livremente cometidas por ambas as partes.

Aqui, então, é que a análise sobre os abusos feita pelo Papa Francisco vem novamente em auxílio: quando se aponta o dedo sobre o poder, sobre o clericalismo, os abusos contra as religiosas assumem um outro aspecto e podem ser finalmente reconhecidos por aquilo que são, isto é, um ato de prepotência, no qual o tato se torna uma violação da intimidade pessoal. A diferença de poder, a dificuldade de denunciar por medo - seriamente motivada - de retaliação não apenas contra si, mas também contra a ordem de pertencimento, explicam o silêncio que por anos envolveu essa prepotência.

Isso também é revelado pela história recente: perto do final dos anos 1990 duas freiras, Irmã Maura O'Donohue e Irmã Marie McDonald, tiveram a coragem de apresentar denúncias precisas e circunstanciadas, investigações detalhadas e análise de situações mais expostas a esse tipo de prepotência. O silêncio caiu sobre suas denúncias, e todo mundo sabe como o silêncio efetivamente ajude a garantir segurança aos violadores, cada vez mais confiantes de sua impunidade. Neste último ano muitos jornais levantaram novamente o véu que obscurecia essa tragédia, e muitas religiosas, do terceiro mundo, mas também de países avançados, começaram a falar, a denunciar: elas sabem que têm o direito de ser respeitadas, sabem que a condição das mulheres, mesmo na Igreja, deve mudar. E sabem que, para conseguir essa mudança não é suficiente nomear algumas mulheres nas comissões. Caso se continue a fechar os olhos a esse escândalo - ainda mais grave pelo fato de que o abuso contra as mulheres comporta a procriação, e, portanto, está na origem do escândalo dos abortos forçados e dos filhos não reconhecidas pelos sacerdotes - a condição de opressão das mulheres na Igreja nunca irá mudará.

A perspectiva em que o Papa Francisco enquadrou o problema dos abusos é, portanto, o caminho certo, e se cruza com outra de suas solicitações para a Igreja: que às mulheres seja reconhecido o papel que lhes cabe. De fato, é sobre essa aparente falta de reconhecimento das mulheres que se articula a cultura dos abusos, que se torna possível a massiva prática de prepotência indigna de qualquer cristão. A denúncia dessa situação chegou recentemente do cardeal Marx, com um discurso publicado em nossa edição de janeiro, e foi confirmada em uma entrevista ao L'Osservatore Romano, pelo Cardeal Ouellet: no que se refere à questão feminina "não reconhecer a ‘transformação que ocorreu na sociedade’ e os ‘progressos’ dos últimos cinquenta anos representaria um ‘fracasso’ para a Igreja, que já está ‘atrasada’ neste horizonte". Uma questão de tato, portanto. A ser enfrentada com o tato necessário, mas também com a coragem que nos pede o Papa Francisco.

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