''O clericalismo é um componente da crise dos abusos sexuais na Igreja.'' Entrevista com Stéphane Joulain

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20 Agosto 2018

Stéphane Joulain, psicoterapeuta, decifra o clericalismo, regularmente denunciado pelo Papa Francisco, e que levou a Diocese da Pensilvânia a negar e a encobrir, durante anos, os crimes cometidos por padres.

A reportagem é de Anne-Bénédicte Hoffner, publicada por La Croix, 17-08-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Especializado no tratamento dos abusos sexuais, esse padre, da Sociedade dos Missionários da África (Padres Brancos), já acompanhou em terapia cerca de 200 pedófilos e realiza inúmeros cursos de formação em matéria de instrução e de prevenção em diversos países.

Eis a entrevista.

O clericalismo, que o Papa Francisco pôs na mira desde o início do seu pontificado, tem algo a ver com o fracasso da Igreja Católica na Pensilvânia?

Sim, é um dos seus componentes. Como todos os grupos sociais, os padres têm uma cultura, com os seus códigos, os seus valores. O clericalismo começa quando essa cultura clerical decai em corporativismo: isto é, quando os padres se concedem privilégios, e quando a proteção dos interesses do seu grupo prevalece sobre a da integridade física e psicológica das crianças.

O que o papa denuncia são aqueles padres que colocam o seu poder e a sua autoridade em proveito próprio, que, como pastores, reconhecem a si mesmos uma espécie de superioridade que os coloca em um pedestal. Quando uma pessoa começa a se sentir especial, é facilmente tentada a se conceder privilégios especiais... O papa pensa diferente: a autoridade e o poder são confiados pela Igreja aos seus pastores só para que eles se ponham a serviço da comunidade, até “conhecer o cheiro das ovelhas”.

O problema não vem também dos leigos e da autoridade que eles reconhecem aos padres?

Com efeito, o clericalismo só pode se estabelecer se for imposto pelos padres e aceito pelos leigos. Tradicionalmente, os padres gozam de uma forma de respeitabilidade ligada à convicção, mantida pelos fiéis, que trabalham na sua santidade. Mas esse respeito vale apenas para os padres no seu conjunto, não individualmente. Considerar que, pelo fato de termos sido ordenados, temos direito a uma forma de reverência é um erro, do qual alguns não hesitam em abusar...

A cultura e a história de um país têm um papel nisso: nos Estados Unidos, mas também na África, onde eu trabalho neste momento, os leigos vivem uma forte submissão em relação aos padres. Alguns fiéis, citados no relatório, contam que, quando um padre ia à casa deles, era como se o próprio Deus entrasse...

Como entender o sacramento da ordem, do qual se diz que “configura” o padre a Cristo?

A transformação “ontológica” da pessoa pelo sacramento da ordem é uma fórmula a ser tratada com prudência. Em primeiro lugar, porque essa transformação não é biológica: os desejos que estavam presentes antes permanecem presentes depois: os padres não são chamados a negar a sua humanidade. Pelo sacramento da ordem, o padre se abre à presença de Cristo para se tornar, por sua vez, um sinal da sua presença; não outro Cristo. E, para compreender essa “especificidade” do padre, basta voltar ao Evangelho: “Eu não vim para ser servido, mas para servir”, diz Jesus (Mateus 20, 28).

Como fazer para lutar contra o clericalismo?

Como sempre, é preciso unir prevenção, sanção e educação. Para prevenir, a primeira coisa a fazer é “enquadrar” o poder dos clérigos, obrigá-los a prestar contas do modo como usam sua autoridade. Um poder não “enquadrado” torna-se ditatorial, e o risco aumenta ainda mais quando ele é considerado de origem divina. A convocação dos bispos chilenos a Roma, a aceitação por parte do papa das renúncias de alguns deles, mas também do cardeal McCarrick, arcebispo emérito de Washington, são sinais fortes que mostram que a autoridade que a Igreja lhes confia não os torna intocáveis.

Quanto às sanções, é evidente que um bispo deve reagir adequadamente quando é informado e não se contentar em transferir o padre. Na minha opinião, é um erro criar centros de tratamento especiais para os padres autores de abusos sexuais, porque se mantém o sintoma. Ao contrário, eles devem ser tratados como os outros delinquentes sexuais. Por fim, os futuros padres devem ser educados a uma boa gestão da sua sexualidade e da sua autoridade. O ideal seria que houvesse um trabalho teológico na base, em eclesiologia – como se percebe a Igreja? Como um corpo perfeito ou como uma comunidade humana que tenta ser fiel ao chamado do Senhor? –, em teologia moral etc.

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