Comissão de proteção à criança do Vaticano diz que previne abusos, mas não tem como investigá-los

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11 Setembro 2018

Membros da comissão do Vaticano para a proteção das crianças e jovens na Igreja têm ouvido vítimas e sobreviventes de abuso em Roma, ao mesmo tempo em que apontam que não têm como investigar acusações individuais de abuso.

A reportagem é de Charles Collins, publicada por Crux, 10-09-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A 9ª Assembleia Plenária Ordinária da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores, criada pelo Papa Francisco em 2014, foi realizada de 7 a 9 de setembro.

“Os membros começaram ouvindo dois testemunhos de pessoas que foram afetadas pelo abuso sexual infantil clerical, uma vítima/sobrevivente e a mãe de dois sobreviventes adultos que foram abusados quando crianças. A Comissão agradece-lhes por terem compartilhado suas histórias conosco, pela coragem do seu testemunho e por contribuir com o processo de aprendizagem”, disse um comunicado divulgado no domingo.

A declaração também afirmou que eles falaram sobre “os recentes desenvolvimentos na Igreja global que afetaram negativamente tantas pessoas incluindo vítimas/sobreviventes, famílias e a comunidade dos fiéis”, provavelmente se referindo à divulgação do Relatório do Grande Júri da Pensilvânia sobre o abuso clerical, que continha acusações de cerca de 1.000 casos individuais de abusos cometidos por mais de 300 padres nos últimos 75 anos, e o caso do ex-cardeal Theodore McCarrick, que detinha uma denúncia “credível e fundamentada” de abuso contra ele, o que levou à sua demissão do Colégio dos Cardeais.

O cardeal de Boston, Sean Patrick O’Malley, presidente da comissão, disse ao Vatican News que ele sempre levou consigo um sobrevivente de abusos ao se reunir com as lideranças da Igreja, para enfatizar a importância de ouvir as vítimas.

“Levar a voz dos sobreviventes à liderança da Igreja é crucial para que as pessoas tenham uma compreensão de como é importante que a Igreja responda rápida e corretamente a qualquer momento que uma situação de abuso surgir”, disse ele ao serviço de notícias, que faz parte do Dicastério para Comunicação do Vaticano.

“Particularmente à luz da presente situação, nós vemos que, se a Igreja for incapaz de responder de todo o coração e fazer disso uma prioridade, todas as nossas outras atividades de evangelização, obras de misericórdia, educação vão sofrer. Essa deve ser a prioridade em que devemos nos concentrar agora”, disse o cardeal.

O comunicado também falou de uma melhor cooperação com outros escritórios do Vaticano, uma questão citada por Marie Collins, uma sobrevivente irlandesa de abuso, quando ela se demitiu da comissão em 1º de março de 2017.

No entanto, o comunicado fez questão de afirmar que o “ponto de partida da comissão não é investigar os abusos; o nosso ponto de partida é prevenir os abusos”.

“Às vezes, as pessoas me apresentam como presidente da comissão de abusos sexuais. Eu sempre as corrijo e digo: ‘Não, a nossa competência é a proteção dos menores – na realidade, a prevenção. Nós não somos um órgão que lida com casos ou situações passados particulares de abuso”, disse O’Malley.

“Estamos tentando mudar o futuro para que ele não seja uma repetição dessa triste história, e fazemos isso apresentando recomendações ao Santo Padre e promovendo melhores práticas e diretrizes que levem em conta a salvaguarda, a prevenção, programas educacionais que abordem a formação de lideranças, de modo que os bispos, os padres e os religiosos estejam cientes da seriedade disso e estejam equipados para poder responder e colocar a salvaguarda das crianças e o cuidado pastoral das vítimas como sua prioridade. Então, isso é o que nos impulsiona”, afirmou.

O’Malley foi criticado no começo do ano quando veio à tona que sua secretaria não lhe entregou uma carta de um padre de Nova York que detalhava as acusações contra McCarrick em 2015.

O padre disse que havia sido informado que suas acusações não se enquadravam na alçada do escritório de O’Malley e, por isso, ele deveria encaminhá-las para o dicastério vaticano apropriado.

Desde então, O’Malley disse ter “modificado” os procedimentos de seu escritório para que tal supervisão não acontecesse novamente.

Durante o Encontro Mundial das Famílias no mês passado, o arcebispo de Dublin, Diarmuid Martin, disse que a comissão “não está lidando com aquilo que deveria estar”.

Martin disse que a comissão vaticana é “muito pequena” e “não suficientemente robusta” e que “põe toda a pressão” de volta sobre Francisco, o que o coloca “quase em uma situação impossível”.

O arcebispo irlandês disse que o pontífice “realmente precisa de uma equipe melhor, mais forte e mais robusta ao seu redor”.

No entanto, em sua entrevista ao Vatican News, O’Malley ressaltou que outros escritórios vaticanos lidam com casos individuais de abuso, incluindo a negligência de lideranças da Igreja em casos de abuso sexual.

Desde 2001, a Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano tem a responsabilidade de lidar com casos de abuso sexual de crianças e de adultos vulneráveis, enquanto vários escritórios diferentes poderiam ter competência em investigar acusações de negligência por parte de bispos, dependendo da situação particular.

“Nossa comissão não pode ser responsabilizada pelas suas atividades. Temos as nossas competências, que eu considero muito, muito importantes. Uma grama de prevenção vale um quilo de cura. Nosso trabalho tem a ver com prevenção e tentar fazer da Igreja o lugar mais seguro possível para as nossas crianças e adultos vulneráveis”, disse o cardeal.

O padre jesuíta Hans Zollner, chefe do Centro para a Proteção Infantil da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, é membro da comissão para a proteção dos menores.

Ele disse ao Katholisch.de, um serviço de notícias católico alemão, que as instituições de todos os tipos precisam de diretrizes claras e de definições claras de responsabilidades, junto com um treinamento contínuo em intervenção e prevenção para fomentar uma cultura da conscientização sobre a proteção infantil.

“Deve ser normal e natural pensar em todas as atividades – na paróquia, na escola, nos momentos de lazer – que as crianças e os adolescentes devem estar seguros”, disse Zollner. “Não se trata de um ‘adendo’, é o DNA da Igreja, que encarna o núcleo da mensagem da Igreja, e para fazer isso requer-se uma vontade sincera de abordar as questões abertamente e de abordá-las com vigor e determinação.”

O jesuíta afirmou que houve “incapacidade e falta de vontade” de seguir a lei – tanto por parte do Estado quanto da Igreja – que têm sido “alimentadas pelo medo do confronto e de tomar decisões difíceis”, assim como por uma tendência “muito prejudicial” de “superidentificação com a instituição” ao lidar com casos de abuso.

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