Crise de Abusos. A Igreja Católica renascerá ou não

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11 Setembro 2018

"A Igreja católica é o corpo de Cristo, e esse está ferido e ensanguentado. A violência sexual contra crianças e os esforços para encobri-lo nos deixam arrasados. Mas esta não é a primeira nem a última vez em que o corpo de Cristo foi ferido e machucado", escreve Michael Sean Winters, jornalista, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 10-09-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o artigo.

Há uma razão pela qual a Pepsi nunca atacou a Coca-Cola de frente, ou vice-versa. Eles não queriam "arruinar a marca", na linguagem do marketing. Não queriam que as pessoas se voltassem contra o conceito de refrigerante. Assim, em vez disso, cada empresa adotou maneiras inteligentes de situar seu projeto na mente do consumidor e, mesmo ocasionalmente, passar um golpe implícito na concorrente. A Coca-Cola, por exemplo, era "a coisa verdadeira", em uma campanha publicitária, sugerindo que a Pepsi não era original, ou pelo menos nada mais do que uma imitadora.

A Igreja Católica não é uma empresa de refrigerantes, muito menos uma empresa. Mas é difícil não reconhecer que, neste verão, os críticos conservadores do Papa Francisco ficaram tão esgotados que decidiram arruinar a marca. Como Massimo Faggioli explicou em um brilhante ensaio em Commonweal, ao tentar deslegitimar Francisco, eles deslegitimam todos os Papas. "O que está realmente em perigo é o vínculo entre a Igreja com o povo e a autoridade eclesiástica - não apenas autoridades particulares da Igreja, mas a própria ideia de autoridade eclesiástica".

O fato de que esse resultado é irônico não é muito confortador. A mesma multidão que ataca Francisco tem repetido, embora muitas vezes de maneira incompreendida, a advertência do Papa Bento XVI contra a "ditadura do relativismo" durante anos. A ironia não é o problema aqui, e sim a hipocrisia.

Em 2002, a primeira alegação pública de má conduta sexual foi feita contra o cardeal George Pell, mas houve rumores circulando em torno dele antes disso. Mais tarde, apesar de sua reputação de ser severo devido à relativa força da "Resposta de Melbourne" ao abuso sexual de padres que Pell havia criado quando atuava como arcebispo daquela cidade, ele supostamente encobriu os abusos sexuais do clero. O cardeal está de volta à Austrália e seu julgamento está marcado para começar em breve. Os fatos no caso Pell não são muito diferentes dos fatos no caso do agora ex-cardeal Theodore McCarrick, embora não me lembre de nossos amigos conservadores pedindo que todo o episcopado fosse derrubado quando Pell era o alvo. Eles certamente não tentaram direcionar seu ódio para Bento XVI, menos ainda para Papa João Paulo II.

É bizarro assistir à entrevista da EWTN com duas das mulheres que assinaram uma carta pedindo a Francisco que respondesse às alegações feitas pelo arcebispo Carlo Maria Viganò.

E o mediador não as interrompeu para dizer: Bem, foi João Paulo II quem nomeou McCarrick para ser bispo de Metuchen, depois arcebispo de Newark, depois arcebispo de Washington, e então cardeal - Prior da Igreja de Roma -, e não Francisco.

Assim como os cardeais das 'dúbia', essas mulheres não estão agindo de boa fé. Como sei disso? Porque elas exigem do Papa, mas não de Viganò. Por que ele não deveria ser solicitado a emitir provas? Por que ele não deveria ser solicitado a explicar seu comportamento em relação a McCarrick?

Elas continuaram repetindo que foi Francisco que promoveu McCarrick, quando foi João Paulo II quem promoveu este predador.

Lembre-se da manchete no National Catholic Register quando eles deram a notícia do dossiê de Viganò: "O ex-núncio acusa Papa Francisco de não agir contra o abuso de McCarrick". Exceto que Francisco foi o único que removeu McCarrick do Ministério e lhe ordenou uma vida de oração e penitência, enquanto um julgamento canônico começa. Mesmo que Bento XVI impusesse algum tipo de sanção contra McCarrick, como alegou Viganò, ambos deixaram essas sanções atrapalharem. Eles continuaram a tratar McCarrick como se nunca tivessem ouvido falar de sua casa de praia. João Paulo II, longe de puni-lo, na verdade o promoveu.

No programa News Nightly da EWTN, na última quarta-feira, a correspondente de Roma, Juliet Linley, foi questionada de como os bispos estavam reagindo pelo mundo. Ela observou que o cardeal Oswald Gracias, o arcebispo de Bombaim e presidente da Federação das Conferências Episcopais da Ásia, havia dito que todos os bispos da Ásia estavam com o Papa. O cardeal Rubén Salazar, de Bogotá, Colômbia, também foi citado. Ele é o presidente do CELAM, o Conselho Episcopal latino-americano de bispos. Mas, como se quisesse dizer que havia algum equilíbrio, Linley também citou o bispo John Keenan, de Paisley, na Escócia, em defesa de Viganò e o bispo auxiliar Athanasius Schneider, do Cazaquistão, emitindo sua receita para a reforma.

Isso parece uma comparação justa? Os presidentes de duas federações de conferências episcopais de todo o continente contra um bispo solitário em uma minúscula diocese na Escócia (e o único homem que conheço que foi auxiliar em duas dioceses diferentes). A verdadeira história aqui é que cerca de 30 bispos dos Estados Unidos falaram em nome de Viganò, e apenas uma pequena parcela manifestou seu apoio ao Santo Padre. Quantas vezes eu disse que a oposição a Francisco é predominantemente um fenômeno baseado nos EUA?

Uma das coisas mais chocantes sobre a oposição a Francisco é o grau em que os bispos, que fizeram um juramento de fidelidade a Pedro e seus sucessores, destruíram o atual Pontífice. Devido às circunstâncias, é fácil demitir o cardeal Raymond Burke. A magnitude de sua defesa diante de uma interpretação particular de certos princípios teológicos, em oposição direta ao ensinamento do Papa, enfraquece um dos princípios teológicos fundamentais associados ao João Paulo II, Bento XVI e toda a escola Communio de teologia: "Ser cristão não é o resultado de uma escolha ética ou de uma ideia elevada, mas o encontro com um acontecimento ou uma pessoa, que dá à vida um horizonte novo e uma direção decisiva", explicou Bento XVI em sua primeira encíclica Deus Caritas Est.

As pessoas simples que vêm a Praça de São Pedro para ver o Papa, como aqueles que veneram o santuário de um mártir ou um santo, entendem que nós católicos sabemos que a Encarnação nos obriga a estar perto um do outro e fazer parte da história, nesse mundo platônico de princípios e tautologias teleológicas.

O grau de loucura em certas partes da Igreja nos Estados Unidos pode ser visto num vídeo, que foi publicado no National Catholic Register e rotulado como 'Destaque'. Nele, Pe. John Lankeit, o reitor da Ss. Simon e Jude Cathedral em Phoenix, discutem como a comunidade pode dizer se o seu padre é um Judas. Concordo que todos devem assistir a esse discurso de ódio e estupidez, mas não pela mesma razão do Register.

A Igreja católica é o corpo de Cristo, e esse está ferido e ensanguentado. A violência sexual contra crianças e os esforços para encobri-lo nos deixam arrasados. Mas esta não é a primeira nem a última vez em que o corpo de Cristo foi ferido e machucado. Ao contrário de alguns de nossos irmãos protestantes, nós católicos não temos cruzes em nossos santuários e muito menos em nossas procissões. Carregamos crucifixos. Sabemos que a partir daquele corpo machucado e ensanguentado de Cristo no Calvário fluía a água em que ainda batizamos nossos filhos, e o sangue que ainda bebemos em toda Missa. Nas últimas semanas, sentimos a necessidade de fazer nossas as palavras do antigo hino: "Nada na minha mão eu trago, simplesmente à Tua cruz eu me apego. Na simplicidade compartilhada desse apego, a Igreja renascerá, as divisões ideológicas serão cruzadas e as feridas se transformarão em cicatrizes. Ou não”.

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