Escândalo dos abusos na Igreja: um beco sem saída?

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21 Agosto 2018

Mais histórias de um horror indescritível. Mais padres corruptos que transformaram as suas perversões em normalidade, levando uma vida dupla e usando a violência contra meninos, meninas, rapazes e moças menores de idade. Vítimas submetidas a abusos que se configuram como verdadeiros ritos satânicos, cuja inocência foi sacrificada por sacerdotes infiéis: eles deveriam tê-los introduzido na fé, garantindo-lhes um ambiente educacional seguro, mas, em vez disso, atraíram-nos nas suas armadilhas perversas.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada em Vatican Insider, 20-08-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Realmente nada é poupado da leitura das páginas do relatório publicado pelo Grande Júri da Pensilvânia, uma investigação que descreve abusos ocorridos de 1947 até hoje em seis dioceses do Estado norte-americano.

Havia padres que colecionavam pelos pubianos e sangue menstrual das suas pequeníssimas vítimas, padres que justificavam com frases tranquilizadoras aos seus cordeiros sacrificiais a violência às quais eram forçados a se submeter. Pode ser, como observaram alguns bispos, que haja páginas do relatório que sejam pouco objetivas e, em alguns casos, desequilibradas. E não se pode deixar de notar honestamente que as violências e os abusos foram reduzidos drasticamente até chegar quase a zero nos últimos 15 anos, isto é, desde que Conferência dos Bispos dos Estados Unidos adotou regras específicas para combater o fenômeno da pedofilia clerical, evitando acobertamentos e, acima de tudo, colocando os suspeitos em condição de não causar danos, evitando a odiosa prática do silêncio e das transferências de uma paróquia para outra.

Mas o quadro geral do horror não muda e reabre uma ferida profunda e sangrenta na consciência da Igreja estadunidense, que já está lidando, nas últimas semanas, com o chocante caso do agora ex-cardeal Theodore McCarrick, arcebispo emérito de Washington, acusado de um abuso contra um menor quando era padre, mas também de ter molestado sexualmente por muitos anos de seminaristas e jovens sacerdotes.

Mesmo que se esteja falando de casos relativos ao passado, mesmo que as próprias autoridades investigadoras reconheceram que a atitude hoje mudou, as páginas do relatório repropõem a dolorosa pergunta: como isso foi possível? Como foi possível que homens consagrados a Deus e ao serviço do povo de Deus traíssem a sua vocação desse modo perverso? E como foi possível que bispos e superiores religiosos viraram o rosto para o outro lado, encobrindo, justificando, transferindo, não escutando os gritos das vítimas, consideradas como “inimigas” do bom nome da Igreja? Quando, em vez disso, o “bom nome” da Igreja era a última das preocupações que eles deveriam ter em mente, diante do massacre causado e das almas mortas de tantos meninos e meninas inocentes.

Abutres "inocentistas" ou "culpabilistas"

Nestas horas, sobretudo, vêm à tona três atitudes diferentes. A primeira é a dos abutres, dos “garantistas” ocasionais: “inocentistas” ferrenhos quando quem está envolvido é um amigo dos amigos ou um membro do próprio grupo ou lado; “culpabilistas” até o osso e prontos para exigir a renúncia, mesmo apenas com base no “ele não podia deixar de saber”, quando quem está na mira (e somente na deles) é algum eclesiástico considerado próximo do atual pontífice.

Exemplo disso é a campanha pela renúncia do cardeal Kevin Farrell, “réu” por ter morado, como bispo auxiliar, com McCarrick por alguns anos, fomentada por sites autodenominados católicos, que, cotidiana e violentamente, atacam o Papa Francisco, os bispos (aqueles que não os agradam) e os irmãos na fé. Impiedosamente “culpabilistas” com alguns, mas silenciosamente “inocentistas” com outros purpurados ainda hoje no cargo, acusados talvez de fatos muito mais graves, mas dos quais não exigem a renúncia apenas por serem considerados “conservadores”.

É um massacre cotidiano da realidade dos fatos, cometido pelos blogueiros aprendizes de Savonarola, que disputam as suas pequenas batalhas intraeclesiais tentando concentrar todo o seu poder de tiro virtual contra o atual pontificado, com resultados grotescos. De fato, eles esquecem quando e por quem os atuais bispos e cardeais que estão na mira das investigações foram nomeados e agregados ao Colégio Cardinalício. O fato de que algo no – ou, melhor, grande parte do – sistema de designação do episcopado não funcionou está debaixo dos olhos de todos. O fato de terem se consolidado, no Vaticano e na Igreja, lobbies poderosos – como o homossexual – capazes de ajudar e proteger os amigos dos amigos é outro fato.

Mas tudo isso não pode ser atribuído somente a um ou outro papa. E sequer é fruto do libertinismo pós-1968 ou pós-conciliar: basta ver as barbáries que já eram cometidas nos anos 1950 (o fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel, convencia os seus seminaristas a masturbá-lo, dizendo que havia recebido uma “permissão especial” para isso de Pio XII), assim como os picos dos anos 1980, quando, na Igreja, a crise pós-conciliar tinha acabado.

Não estamos falando aqui de quedas ou de deslizes, de pecados humildemente reconhecidos por parte de quem os cometeu. Estamos falando de uma verdadeira corrupção da alma: de pecado e perversão que se elevaram a sistema de vida e foram justificados pelas mentes doentias daqueles que, de manhã, levantavam as mãos estendendo-se a Eucaristia aos fiéis e, com essas mesmas mãos, de tarde, cometiam violência contra pequenos e indefesos.

E, embora as buscas nos arquivos não poderão deixar de ter como resultado uma reavaliação dos últimos pontificados e dos círculos de poder que os acompanharam ao longo dos anos, o que temos pela frente é, principalmente, o fruto do “mysterium iniquitatisˮ.

Mentalidade “justificacionista”

A segunda atitude que surgiu nestes dias foi a evidenciada pelas miseráveis palavras do idoso cardeal mexicano Sergio Obeso Rivera, que disse nos últimos dias que as vítimas de pedofilia que acusam os homens da Igreja “deveriam ter um pouco de piedade, porque têm uma cauda muito longa” e, portanto, são fáceis de esmagar. Como que dizendo: a culpa também é delas. Essa é uma atitude muito difundida no passado e ainda muito difundida na Igreja. As vítimas também têm as suas culpas... Talvez seduziram os pobres padres doentes de solidão... Parece a diabólica justificativa adotada em julho passado pelo Pe. Paolo Glaentzer, surpreendido no carro em atitudes inequívocas com uma menina de 12 anos.

Essa mentalidade “justificacionista”, que tende sempre a salvar o pobre sacerdote “tentado” pelas vítimas, pode demorar muito para ser desfeita, porque foi muito comum no passado e, infelizmente, ainda hoje. Infelizmente, houve diversos casos de falsas acusações, e cada acusado tem o direito de se defender e de não ser julgado antes que as suas responsabilidades sejam apuradas. Mas não há dúvida de que um modo de pensar pouco equilibrado e voltado ao “inocentismo” foi muito difundido.

Nesse sentido, têm razão aqueles que, como o padre Hans Zollner, o jesuíta membro da Comissão vaticana para a proteção dos menores, insistem que as leis não bastam se a mentalidade não mudar. A mentalidade, até o surgimento do escândalo estadunidense no início do novo milênio, era, em todos os níveis, a de proteger a instituição do escândalo. Era a de “lavar a roupa suja em casa”, quando era levada e não era deixada suja. Era a de salvaguardar os padres acusados, em vez das vítimas denunciantes, que eram ressarcidas eventualmente no em silêncio, calando tudo.

Os justiceiros e a crença nas “best practices”

Por fim, a terceira atitude é a dos duros e puros, dos pastores que, invocando respostas fortes e normas emergenciais, colocam-se do lado dos justos, daqueles que combateram uma luta impiedosa contra esse fenômeno terrível e diabólico. É a atitude daqueles que rasgam as vestes confiando apenas nas “best practices” anglo-saxônicas, daqueles que pedem normas cada vez mais rigorosas, com ar de justiceiro sem mancha e sem medo. Talvez pensando que, assim, podem fazer passar para o segundo plano algumas falhas próprias do passado.

É uma atitude que também nasce da necessidade de enfrentar a raiva e a dor, naturais e legítimas, das vítimas e do povo dos fiéis. Mas confiar total e exclusivamente nas normas, nas leis, nos códigos acaba reduzindo a Igreja a uma empresa (e, como empresa, podendo ser submetida aos procedimentos de falência), risco mais do que nunca presente hoje em muitos setores, incluindo os das reformas recentes.

Atenção: as normas, mesmo as emergenciais, podem ser e são necessárias. Assim como também seria necessário que cada Conferência Episcopal do mundo tivesse a determinação de assumir rapidamente regras certas e específicas sobre como agir, adequadas às normativas legais vigentes nos diversos países, mas padronizadas e, finalmente, atentas às vítimas, a serem acolhidas, confortadas, ajudadas e não postas para fora da porta ou marginalizadas, como infelizmente também aconteceu em um passado recente (o caso do Chile atesta isso).

Mas as leis e as normas não são suficientes, porque o relatório da Pensilvânia demonstra que o passado não passa. O escândalo dos abusos parece uma página difícil de virar, um beco sem saída, um túnel sem fim.

Urgências e necessidades

Como fazer, então, para fechar esse passado doloroso e tentar virar a página? Certamente, é preciso uma assunção de responsabilidade por parte dos abusadores ainda vivos e daqueles que não supervisionaram adequadamente. Certamente, é preciso um maior empenho por parte das Conferências Episcopais e também modificações específicas do Código de Direito Canônico.

Mas há urgência também de uma atitude autenticamente cristã, de um olhar de fé que vá além das astúcias interesseiras dos ferozes críticos do papa, dos jogos das velhas e novas corjas de poder eclesiástico, da atitude totalmente “Law & Order” daqueles que confiam apenas nos códigos.

É preciso aquele olhar penitencial e profundamente cristão que Bento XVI, antes, e Francisco, depois, tentaram pôr em prática. É preciso uma Igreja que não estufe o peito diante dos resultados obtidos e das “best practices” aplicadas, talvez apontando o dedo contra o passado (que não passa e pelo qual podemos acabar sendo esmagados). De uma Igreja que não se apresente como a comunidade dos duros e dos puros, daqueles que estão certos e julgam tudo e todos, com linguagens adaptadas mais ao tribunal de Perry Mason do que à comunidade cristã.

É preciso uma Igreja que – toda ela – se reconheça mendicante de penitência e de misericórdia, que peça perdão e escute o grito de dor daqueles que sofreram esses crimes. É preciso uma Igreja – e a Igreja não é feita apenas de cardeais, bispos e padres – que assuma a ferida aberta do pecado, e do pecado que se tornou corrupção satânica, consciente de que a força para curá-la e para se levantar nunca poderá vir dela mesma, da própria bravura, dos próprios projetos, das próprias reformas. Mas somente da consciência vivificada do fato de sermos pecadores a caminho e, por isso, humildes e necessitados de tudo. Necessitados da graça, da mão do Mestre que levanta perdoando “setenta vezes sete”.

É preciso cristãos que, diante do abuso abominável contra os menores, não se coloquem na cátedra, não se ergam como juízes e não se lavem as mãos, conscientes de que o ataque mais forte contra a Igreja não vem de lobbies ou potentados externos, mas sim do pecado dentro da Igreja, como recordou – ignorado principalmente pelos chamados ratzingerianos – o Papa Ratzinger. E como o seu sucessor, Francisco, faz hoje, convidando todo o povo de Deus à penitência e ao jejum.

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