Papa Francisco. Uma longa reflexão sobre os abusos sexuais na Igreja

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19 Fevereiro 2019

Antes da reunião sobre os abusos sexuais. A formação jesuíta e teológica permitiu ao Papa Francisco desenvolver uma reflexão ao mesmo tempo prática, teológica e espiritual para combater os abusos sexuais na Igreja.

A reportagem é de Nicolas Senèze, publicada por La Croix, 18-02-2019. A tradução é de André Langer.

Para entender a atitude do Papa Francisco em relação aos casos de abusos sexuais que assolam a Igreja, é aos seus anos argentinos que devemos retornar. Como muitos bispos latino-americanos, o cardeal Jorge Mario Bergoglio, provavelmente, interessou-se pela questão senão tarde.

“Na Argentina, a questão dos abusos sexuais, tanto na Igreja como na sociedade, só foi realmente abordada nos últimos oito ou dez anos, reconhece o irmão Juan Ignacio Fuentes, marista e especialista em questões de abusos sexuais para o ensinamento católico argentino. Culturalmente, isso continua sendo um tabu”.

“Eu vejo neles as feridas de Cristo”

O religioso recorda o estado de espírito do clero no final dos anos de ditadura, durante os quais os temas morais eram usados pelos militares para desacreditar os padres que protestavam.

“Os adultos cresceram sob trinta ou quarenta anos de ditadura: uma verdadeira formação para o silêncio! Mesmo se as coisas mudaram nos últimos dez anos, não há cultura da transparência”, destaca. As vítimas começaram a falar apenas muito recentemente.

É através das vítimas que o futuro Papa vai abordar o problema. O arcebispo de Buenos Aires trabalhou muito com as vítimas da exploração e do tráfico de pessoas, apoiando publicamente as mulheres ameaçadas, pregando contra seus exploradores, ajudando-as a se reintegrarem. “Eu vejo nelas as feridas de Cristo”, confidencia.

Tendo se tornado Papa, é com a mesma perspectiva que ele aborda as vítimas dos abusos sexuais que encontra com regularidade, assim como seu predecessor Bento XVI: são muitas as vítimas que ele encontra, além de seus discursos muitas vezes duros contra a Igreja.

Logo, porém, o Papa argentino percebe que a “tolerância zero” defendida por seu antecessor, se é eficaz em punir os abusos que ainda ocorrem, segue sendo insuficiente para impedi-los. Adicionado a isso está o problema dos casos antigos e outrora acobertados e enterrados.

Francisco foi formado na Argentina na Teologia do Povo, um ramo da Teologia da Libertação que se baseia inicialmente sobre uma escola sociológica. Esta “sociologia do povo”, somada ao seu espírito jesuíta, aliada ao discernimento das situações, permite-lhe compreender como a Igreja, enquanto organização, pode produzir abusos.

Em sua carta aos católicos chilenos, Francisco põe em xeque na Igreja católica uma “cultura dos abusos, assim como um sistema de acobertamento que permite que se perpetuem”, e chama a trabalhar por “uma cultura da proteção que perpassa os nossos modos de estar em relação, de rezar, de pensar, de viver a autoridade, nossos próprios costumes e nossas linguagens, assim como a nossa relação com o poder e o dinheiro”.

A Teologia do Povo que o formou permite-lhe compreender como o “clericalismo”, escanteando o Povo de Deus, colocado em primeiro plano pelo Concílio Vaticano II, reduziu a Igreja a “pequenas elites”, pavimentando assim o caminho para todos os desvios.

Mas a análise do Papa Francisco está longe de ser apenas sociológica e teológica. Como bom jesuíta, ele também lhe dá uma forte dimensão espiritual: para Francisco, é uma batalha espiritual contra o diabo que se trava aqui.

Na década de 1980, durante um verdadeiro “exílio” em Córdoba (norte da Argentina), ao qual foi forçado pelos seus superiores, o padre Bergoglio teve tempo para refletir sobre as “tribulações” que os jesuítas experimentavam na época, relacionando-as com as tribulações que provocaram a supressão da Ordem no século XVIII.

Ele analisou então a batalha espiritual a ser travada contra os ataques do Demônio.

“O diabo se mostrará como ele é”

“Trinta anos depois, estamos em um contexto diferente, mas a guerra é a mesma e pertence somente ao Senhor”, disse o Papa em um prefácio para a nova edição das cartas, publicada em fevereiro, junto com as sucessivas cartas aos chilenos e ao Povo de Deus. (1)

“Em tempos de trevas e de grande tribulação, quando os ‘labirintos’ e ‘nós’ não podem ser desatados, e quando nada está claro, então devemos ficar em silêncio: a doçura do silêncio nos mostrará ainda mais fracos, e será o próprio diabo que, encorajado, se mostrará como é com suas verdadeiras intenções, não mais disfarçado de anjo de luz, mas insolente e descarado”, escreveu na década de 1980.

“Um caminho para ‘abrir espaço’ para Deus: ficar em silêncio, rezar e humilhar-se”

O futuro Papa explicava que, em certas crises, a “impotência visceral” das soluções humanas impõe, às vezes, “a graça do silêncio” e enfatiza que, diante da adversidade, somente o Cristo pode forçar o mal a revelar sua verdadeira face, criando o espaço necessário para a luz de Deus. Para ele, a única maneira de chegar a esta revelação é precisamente a de Jesus durante a sua Paixão: “Só há um caminho para ‘abrir espaço’ para Deus, e é aquele que ele mesmo ensinou: a humilhação, a kenosis. Fique em silêncio, reze e humilhe-se”.

Uma maneira já de precaver contra as soluções demasiado humanas, como aquilo que ele repetiu recentemente aos bispos americanos.

A este respeito, no verdadeiro retiro jesuíta para o qual convidou os presidentes das Conferências Episcopais, durante quatro dias, a liturgia penitencial da noite de sábado, 23 de fevereiro, com o Papa cercado pelo episcopado mundial representado pelos presidentes das Conferências Episcopais deve ser um evento crucial.

(1) Jorge Mario Bergoglio-Francisco, Lettere della tribolazione, Ancora-La Civiltà Cattolica, 16 €.

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