O que a Igreja deve fazer diante dos abusos? Entrevista com Valentina Alazraki, convidada a falar no Vaticano sobre “a proteção dos menores na Igreja”

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25 Fevereiro 2019

Ser mulher na Igreja, ter um papel importante, nunca foi fácil. E as mulheres que trabalham para o Vaticano reconhecem isso. Algumas coisas começaram a mudar com o Papa Francisco. E neste encontro internacional sobre abusos sexuais, “A proteção dos menores na Igreja”, que está acontecendo no Vaticano, três mulheres foram convidadas a expor suas reflexões sobre o tema. Uma europeia, uma africana e uma latino-americana. “Convidar uma mulher para que fale não é entrar na modalidade do feminismo eclesiástico (...). Não. Convidar uma mulher para falar sobre as feridas da Igreja é convidar a Igreja a falar de si mesma sobre suas feridas (…) Porque a Igreja é mulher, esposa e mãe”, disse ontem à tarde o Papa Francisco depois que falou a primeira mulher no encontro, a professora Linda Ghisoni. E depois acrescentou: “Trata-se de integrar em nosso pensamento a mulher como figura da Igreja”.

Valentina Alazraki, jornalista e escritora mexicana, correspondente de Noticieros Televisa na Santa Sé, é a latino-americana que interveio na conferência que conta com a participação de 190 bispos, cardeais, freiras e prelados de todo o mundo. Autora de vários livros como Em nome do amor, A luz eterna, Viagem ao coração da fé, México sempre fiel, entre outros, Alazraki, que conversou com Página 12, vive na Itália desde 1974 e é possivelmente a jornalista mulher que fez mais viagens com os pontífices dos últimos decênios: 100 das 104 viagens apostólicas de João Paulo II, todas as de Bento XVI e todas as de Francisco.

A entrevista é de Elena Llorente, publicada por Página/12, 24-02-2019. A tradução é de Graziela Wolfart.

Eis a entrevista.

O que você pensa a cerca do que está acontecendo no Vaticano sobre o tema dos abusos?

O que me parece importante é que, pela primeira vez, estão reunidos bispos de todo o mundo para tratar deste tema. Porque, depois de ter falado com bispos de diferentes países, tive a impressão de que a sensibilidade a respeito deste tema é muito diferente, muito variada. Há países onde os bispos tomaram consciência do problema e estão tratando de resolvê-lo. E há nações onde ainda hoje os bispos dizem que não é um problema de seu país. Surgiram centenas de casos em alguns países e, em outros, a Igreja nem sequer assume o problema. Creio que esta diversidade cria graves problemas. Não acredito que num passe de mágica sairão desta reunião no Vaticano crendo que o problema existe em todos os lados. O primeiro passo é que assumam que se trata de um problema global. Se não explodiu é porque não se falou, porque as vítimas não tiveram a coragem de sair para denunciar.

Quais são os pontos que você considera imprescindíveis para um futuro plano de trabalho da Igreja neste âmbito?

Cada país é diferente. O Vaticano tem normas já elaboradas, mas que não se aplicam ou se aplicam mal. Por isso é necessário o vade-mécum do qual o Papa Francisco falou no primeiro dia do encontro. Assim todos entenderão qual é o procedimento que deve ser seguido. É preciso que se esclareça além de um ponto vital, que é a colaboração com as autoridades civis. É necessário deixar bem claro qual é a responsabilidade do bispo perante a justiça civil. O outro tema é a relação com as vítimas. Se as vítimas não são a prioridade, não saberão como enfrentar o problema. As vítimas não são inimigas da Igreja.

Qual é a situação do México em matéria de abusos sexuais?

No México o grande problema foi Marcial Maciel (fundador dos Legionários de Cristo, acusado de pederastia e de ter tido duas mulheres e filhos e obrigado pelo Vaticano a se retirar para uma vida de oração em 2006. Morreu logo depois). Depois dele vieram à tona casos isolados. O presidente da conferência episcopal mexicana, que se chama Rogelio Cabrera, e que está em Roma, disse que houve 152 sacerdotes afastados do sacerdócio. Mas não se conhecem os nomes. Esta é a ponta do iceberg. Talvez ainda não apareceram todos os casos. Não se sabe nem sequer quantos são porque cada diocese tem sua jurisdição. Uma diocese não sabe nada sobre o que aconteceu na outra, mesmo que pertençam à mesma conferência episcopal. E este é um problema porque cada bispo se resolve diretamente com o Vaticano. Por isso no México se está pedindo que a conferência episcopal tenha uma maior autonomia com relação ao Vaticano. Esta é outra coisa que teria que ser resolvida para poder fazer um mapa da situação em um determinado país.

Depois de todos esses anos de seu trabalho no Vaticano, ficou sabendo de muitas denúncias?

Não tenho provas de que foram muitas ou poucas. Somente conheci os casos grandes. Mas não tenho elementos para dizer que por trás deles houve outros casos. De qualquer maneira, na Igreja existe um sistema, e no Vaticano também, de cima para baixo, que faz pensar que talvez houvesse mais casos de encobrimento. Mas isto é só uma teoria.

Para você, qual é a medida imediata que o Vaticano deveria tomar?

Há várias, mas a transparência é uma delas. Nesta crise um dos problemas que temos visto é o da comunicação. Quando não há transparência, as pessoas pensam que todas as acusações são reais, mesmo que não estejam provadas. A credibilidade da Igreja não só tem sido posta em questão pelos abusos e pelos encobrimentos dos abusos, como também pela falta de transparência no momento de comunicar os fatos. Quando se prefere o silêncio, as pessoas pensam que alguém está escondendo algo. Também o quanto antes deve ser esclarecida a relação com a justiça civil.

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