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22 Fevereiro 2019

Nesta quinta-feira começou a reunião dos Presidentes das Conferências Episcopais no Vaticano para discutir a prevenção de abuso contra menores e adultos vulneráveis. Um ato institucional extremamente delicado, com poucos precedentes: as lideranças das Conferências Episcopais nacionais estão reunidos para uma convocatio sem precedentes, que constitui ao mesmo tempo um pré-conclave e pesa como um mini-concílio, em que Francisco defronta-se com ousadia espiritual com um crime, sobre o qual ainda não se tem um diagnóstico preciso para avaliar o desastre que abalou a igreja em três países (Irlanda, Chile, EUA) e que espera por outras para acertar as contas. A raiz dos estupros dos clérigos é bem distante e substancial.

O comentário é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha, em artigo publicado por la Repubblica, 21-02-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Tudo começa quando, contra a mensagem de Jesus, a igreja se adaptou à cultura patriarcal e sacralizou a subordinação da mulher, expressa pelo dever de sofrer e ver sofrer em silêncio. Quando tal paradigma autoritário masculino começa a vacilar sob a pressão dos movimentos de libertação feminina, nada acontece no magistério. Então, quando na década de 1990 foi destampada a chaga pútrida da pedofilia clerical, aceitou-se com satisfação um mero moralismo de comportamento, como se os abusos fossem filhos do Movimento de 1968.

Já na época, a conferência episcopal dos EUA tentou estabelecer diretrizes para ajudar os bispos imaturos e despreparados, mas a Congregação para a Doutrina da Fé interveio para bloquear aquele passo, em nome de uma eclesiologia universal e reivindicando depois para Roma o direito e o dever de julgar as causas maiores. A Santa Sé se viu então onerada por um peso que não era seu, mas absolvida da culpa de ter escolhido bispos quaisquer, desde que conservadores, e não ter percebido o sabor de heresia em pastores que diante da ferocidade dos homens em hábito tratavam os carrascos como filhos e as vítimas como enteados.

Após a morte de João Paulo II, não foi mais possível esconder os horrores de um poder clerical. Portanto, o papa decidiu arriscar um "grande debate público" na assembleia mais representativa da comunhão católica. Um risco, porque de fato ela representa um pré-conclave que põe em jogo a eleição de Francisco e prejudica aquela dos sucessores. Nessa situação, os piores entre os presidentes poderiam tentar assumir um perfil interessante: exibindo o próprio anti-bergoglismo como garantia para os tradicionalistas ou buscando mediações a baixo custo. A igreja sairia em pedaços. Porque o que serve aos inimigos do catolicismo como comunhão planetária não é impedir a eleição deste ou daquele cardeal, mas uma arma que consiga paralisá-los dez segundos depois de sua eleição. Eles tentaram isso com Bergoglio, lançando acusações inconsistentes sobre os anos da ditadura argentina.

Hoje, sobre os temas relacionados aos abusos, não seria assim: e a igreja acabaria tendo um papa diminuído. A assembleia, porém, traz em si a audácia de um mini-concilio: que precisa assumir uma responsabilidade doutrinal. Levando tudo em conta - especialistas, sobreviventes, mídia - deve saber que hoje ainda existem crimes impunes e que já há inocentes acusados. E que para romper essa possessão são necessárias três decisões, capitais, mas basicamente simples, que Francisco enunciou com bergogliana despretensão nas últimas semanas.

Primeiro: sair definitivamente do mito constantiniano do foro eclesiástico e entregar os culpados dos crimes à justiça civil.

Segundo: estabelecer que é o bispo que deve assumir a responsabilidade pelas vítimas. A paternidade não se encerra recrutando psicólogos ou instituindo consultórios, mas ouvindo e ressarcindo o irreparável cometido sobre os pequenos abusados por clérigos ou parentes, sem distinção.

Terceiro: afinal de contas, erradicada a cultura do silêncio, será preciso dizer que o evangelho contém uma palavra de perdão. Como a mãe que denuncia o filho que se tornou assassino continua a ser mãe do preso, o bispo também continua sendo o pai daquele que cometeu crimes horrendos: e titular de um comando evangélico difícil e necessário.

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