Abusos: toda a Igreja deve se sentir responsável. Entrevista com Amedeo Cencini

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21 Fevereiro 2019

Este momento terrível para a vida da Igreja, marcado pelo surgimento de centenas e centenas de abusos, pode se transformar em um evento de graça, de purificação, contanto que cresça e se consolide a consciência da “responsabilidade coletiva” dos escândalos.

A reportagem é de Luciano Moia, publicada em Avvenire, 20-02-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Trata-se de uma tomada de consciência que deve ocorrer em vários níveis nas nossas comunidades e sem a qual a tolerância zero não será suficiente. A convicção é do padre Amedeo Cencini, canossiano, psicólogo e psicoterapeuta, um dos mais famosos formadores italianos, que, na semana passada, a Conferência Episcopal Italiana nomeou membro do recém-nascido Conselho de Presidência do Serviço Nacional para a Proteção dos Menores.

Eis a entrevista.

Pe. Cencini, ainda em 2015, após os escândalos que tinham investido o pontificado de Bento XVI, você se perguntava em um livro de sabor profético: “O que mudou na Igreja?” [Cos’è cambiato nella Chiesa?] (EDB). Quase quatro anos a mesma pergunta. A conscientização de ter que mudar de rumo de modo radical entrou na consciência da Igreja?

Está entrando de modo articulado. Ela está entrando no que se refere à coragem de abordar os casos com transparência e verdade, aumentou a sensibilidade em relação às vítimas, está crescendo – mas ainda não o suficiente – nos seminários uma certa atenção preventivo-formativa nesse sentido, enquanto custa muito a se afirmar a consciência da responsabilidade coletiva dos escândalos. Nem todos ainda aceitam que o escândalo de poucos é a consequência da mediocridade de muitos. E muitos pensam que a tolerância zero é suficiente.

Naquele texto, você já traçava algumas indicações sobre a seleção e a formação dos seminaristas. Você acha que é o caso de se relançar a proposta?

Acredito que devemos cada vez mais prever caminhos formativos em que a ajuda espiritual se integre com a ajuda antropológico-psicológica. E isso porque certas dinâmicas problemáticas motivacionais, ligadas direta ou indiretamente à sexualidade, não surgem com os meios normais, mas é preciso um olhar que vá além daquilo que aparece. Como disse o cardeal Bassetti: “É melhor ter menos padres e religiosos do que pôr em risco a vida de um menor”. Outro aspecto dramaticamente evidente nos abusos sexuais é a ausência da formação ao senso de responsabilidade em relação ao menor. O padre abusador é muitas vezes um adulto falido, que não sabe se encarregar do outro. O abuso de poder nasce aí.

Falando de formação, qual é o aspecto que hoje é particularmente carente e sobre o qual seria necessário investir mais tempo, recursos e empenho?

Pode parecer estranho, mas eu acho que, em muitas das nossas instituições formativas, não existe uma verdadeira formação para a escolha celibatária, com tudo o que ela significa no plano puramente humano (acima de tudo a formação ao discernimento pessoal e, depois, a gramática da sexualidade, o porte da renúncia, a conscientização da centralidade da sexualidade na geografia intrapsíquica do homem, o risco de buscar compensações...) e espiritual (a importância de um envolvimento emotivo real com a pessoa de Jesus, a liberdade de experimentar a beleza da virgindade, a formação de uma sensibilidade virginal, a educação ao estilo relacional virginal...).

Você escreveu muitos artigos sobre a formação permanente. Mas hoje os sacerdotes têm realmente tempo para providenciar a sua formação?

Não se trata de dedicar mais tempo, arrancando-o das muitas urgências que compõem o dia de um padre, mas sim de aprender com a vida e, portanto, com o ministério, com as pessoas, com quem sofre, até mesmo com as fadigas e as crises. Aqueles que aprendem tal segredo se deixam formar pela vida por toda a vida. E a vida do padre ou é formação permanente, ou é frustração permanente, com uma mediocridade consequente. E a mediocridade já é um escândalo.

No avião de retorno da Jornada Mundial da Juventude no Panamá, no dia 21 de fevereiro passado, o Papa Francisco reiterou a importância de apoiar a difusão de uma educação sexual “sem colonização ideológica”. Trata-se de um desejo que também deveria dizer respeito à formação dos candidatos ao sacerdócio?

Certamente. A cultura circundante é como o ar que todos respiramos e que inevitavelmente nos condiciona. Há uma educação para a sexualidade e para a sua gramática (a ordo sexualitatis) que evidencia o seu mistério e que é uma premissa fundamental para entender o sentido do celibato e que deve ser recuperada na sua objetividade. Sobre o risco de uma “colonização ideológica”, pensemos no modo como hoje é abordada a questão homossexual também nos nossos ambientes, para além da abordagem de antigamente, que evidentemente deve ser revisada, tanto no plano da coisa em si, quanto da gestão em nível vocacional desses casos. Eu acho que é preciso uma reflexão franca e aprofundada, em nível científico, certamente em diálogo com a cultura de hoje, mas protegida de qualquer condicionamento ideológico e da busca a todos os custos do politicamente correto.

Alguns chegam a defender que, sem jamais esquecer os gravíssimos sofrimentos suportados pelas vítimas e o peso do escândalo, esses abusos poderiam ser um evento providencial para realmente mudar os corações dos pastores, mas também dos presbíteros e dos leigos. Em que condições isso poderia ocorrer?

Eu também acho que essa poderia se tornar uma crise providencial para a Igreja. Contanto que tenhamos a coragem de reconhecer o que aconteceu, sem sermos forçados pelos outros a admitir isso; que saibamos reconhecer suas raízes e responsabilidades, em nível individual e comunitário; que compreendamos o sofrimento causado e peçamos perdão por isso, aceitando também a vergonha e a humilhação; que consigamos descobrir como sair dessa situação para que ninguém deva sofrer por causa da nossa infidelidade. Então, o sistema-Igreja funcionará bem, e este momento terrível poderá se tornar graça que nos purifica e nos faz crescer.

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