Abusos na Igreja. Padre Zollner: "Clericalismo? Leva aos crimes mais hediondos"

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24 Agosto 2018

Derrotar permanentemente o terrível flagelo da pedofilia pede hoje à Igreja que lute contra todas as formas de "clericalismo". Porque - explica nesta entrevista padre Hans Zollner – o clericalismo é uma mentalidade que coloca o clero em uma "classe superior" e "uma das consequências de uma mentalidade de 'elite especial' é a ideia segundo a qual 'eu posso permitir-me tudo o que eu quiser’, e isso levou aos crimes mais hediondos, à (muitas vezes) total falta de empatia com as vítimas e sentido de responsabilidade por parte de tantos representantes da Igreja local”.

“As pessoas foram abaladas por muitas histórias de abusos nestes últimos tempos, e muitos pediram publicamente ao Papa para dizer algo, para fazer algo". Contatado pelo SIR, o padre Hans Zollner explicou assim o motivo que levou ontem Francisco a publicar uma Carta em que, dirigindo-se diretamente para os católicos de todo o mundo, volta a falar de "abusos sexuais, de poder e de consciência" cometido por um número "significativo de clérigos e pessoas consagradas". Uma Carta que foi divulgada poucos dias depois do relatório sobre abusos da igreja na Pensilvânia e na véspera de uma importante viagem que irá levá-lo para a Irlanda, terra profundamente ferida pela praga da pedofilia na esfera religiosa. Padre Zollner é um jesuíta alemão. Ele é membro da Comissão do Vaticano contra a pedofilia e presidente do Centro de Proteção dos Menores da Universidade Gregoriana. "A carta - explica ele - pode ser vista como um primeiro passo para dizer algo e a ação que se seguirá. Mas as medidas em uma situação tão grave devem ser bem ponderadas para responder à profundidade do desafio".

A entrevista é de MChiara Biagioni, publicada pelo Servizio Informazione Religiosa — SIR, 21-08-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Por que o papa se dirige diretamente ao "povo de Deus" desta vez?

Dirigindo-se a todo o povo de Deus, é importante notar que o Santo Padre não está dividindo a Igreja em "clero" e "laicos". Denuncia - como muitas vezes antes – o clericalismo que de acordo com sua análise é uma das raízes dos abusos e de uma "cultura do silêncio", que precisa desaparecer e em seu lugar permitir o crescimento de uma cultura de cuidado, proteção e verdadeira humildade. Não apenas com palavras, mas com fatos: perdendo prestígio, poder e os seus símbolos.

Abusos e clericalismo. O senhor, padre Zollner, seguiu muitos casos de pedofilia. Pode explicar o que o Papa quer dizer quando aponta o dedo para este binômio? O que o Papa entende quando fala de clericalismo e como isso afeta no abuso de poder e físico?

O clericalismo é uma mentalidade que coloca o clero em uma "classe superior", e o Santo Padre está ressaltando que existe apenas um Corpo de Cristo com muitas partes e papéis a desempenhar. Nenhum membro do corpo está acima da lei, da crítica justa, da discussão. Uma das consequências de uma mentalidade de "elite especial" é a ideia segundo a qual "eu posso permitir-me tudo o que eu quiser", e isso levou aos crimes mais hediondos, à (muitas vezes) total falta de empatia com as vítimas e do sentido de responsabilidade por parte de muitos representantes da Igreja local.

Na Carta, o Papa pede o envolvimento de toda a comunidade. Como exatamente a comunidade pode "proteger" os menores e as pessoas vulneráveis? Que papel podem desempenhar os laicos e as mulheres, principalmente.

Precisamos alcançar mais pessoas com uma educação que lhes permita agir. Ouvir atentamente as experiências das vítimas e dialogar com elas ajudará a nos informar sobre como agir de uma maneira que possa levar ao caminho da recuperação. Muitos daqueles que estão envolvidos no trabalho de "salvaguarda" são mulheres e, sem excluir os homens, pode-se dizer que quase todas as mulheres têm uma inclinação natural para proteger as crianças. Inclusive aquelas pessoas com competências na sociedade civil, como advogados, psicólogos e forças da ordem, devem ser consultadas por sua experiência. A Igreja pode colaborar com muitas pessoas de boa vontade. Vimos isso perfeitamente no Congresso que o nosso Centro de Proteção da Criança da Universidade Gregoriana organizou no ano passado sobre "Dignidade da Criança no Mundo Digital": todos vieram, governos, ONGs, ciências e polícia. Existe uma condição: nós também devemos entrar em campo. Nós não podemos reivindicar ter ou saber tudo.

O papa está partindo para a Irlanda, um país ferido por esse flagelo. Muitas pessoas se perguntam: por que isso aconteceu? Por que nos relatórios os números são tão assombrosos? Posso confiar novamente? Como o senhor responde?

Qualquer abuso, especialmente se cometido por um clérigo, além de ser um pecado extremamente grave, também é um crime.

Obviamente muitos sacerdotes - entre 4 e 6% ao longo de 50 anos (1950-2000) - agiram contra o Evangelho e contra as leis. Desde que os bispos norte-americanos assumiram a sério a luta contra esse mal, em 2002, quase não há mais acusações de novos casos. Gostaria de dizer que a Itália ainda não experimentou tal momento de verdade sobre o abuso sexual e a exploração do poder em relação ao passado. Espero que estas últimas semanas, com tantas notícias devastadoras, tenham aberto nossos olhos e corações até mesmo da Igreja italiana e dos seus responsáveis para se engajar sem hesitação e de forma consistente no que é um chamado urgente do Senhor para todo o Povo de Deus.

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