Especialista em casos de abuso diz que a questão é 'quem somos enquanto Igreja'

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04 Junho 2018

O pai do jesuíta alemão Hans Zollner é reconhecido como um dos maiores especialistas da Igreja Católica na luta contra o abuso sexual infantil. Zollner lidera o Centro de Proteção à Criança da Universidade Gregoriana, uma universidade jesuíta com sede em Roma. Além disso, é membro da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores.

Recentemente, o Crux discutiu com Zollner sobre a crise de abusos sexuais na Igreja do Chile e sobre como compreender a dinâmica que levou a ela.

Entre outros pontos, Zollner salientou que, no fundo, os casos de abuso sexual não representam uma questão de "liberais versus conservadores" e que as atitudes clericalistas que podem ser subjacentes a alguns abusos, como no caso chileno, têm mais espaço em meios tradicionais e fortemente conservadores.

"O que vimos no caso Karadima é uma abordagem muito moralista, que, estranhamente, depois se combinou com uma abordagem completamente imoral às pessoas", declarou. "Alguns dos que pretendem defender a Igreja e sua doutrina comportam-se de forma iminentemente contraditória, destruindo a credibilidade da Igreja."

"Em última análise, para mim os casos de abuso sexual tem que ver com a questão de quem nós somos enquanto Igreja", afirmou Zollner.

A entrevista é de Inés San Martín, publicada por Crux, 01-06-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Segue a conversa do Crux com Zollner, realizada em seu escritório, na Universidade Gregoriana.

Eis a entrevista.

Como devemos entender as forças que estão em jogo em situações como a do Chile?

Se você se refere ao problema de acobertamento de abuso, trata-se do quanto a proteção dos menores e vulneráveis é importante e que posição ocupa no meu sistema de valores, em detrimento dos meus relacionamentos com companheiros, colegas e pessoas que conheço há muito tempo... talvez as pessoas que eu ordenei, no caso dos bispos.

Estamos falando da imagem pública da Igreja, da minha instituição, do nome de pessoas queridas para mim, de admitir os fatos dos abusos cometidos pelo clero e possivelmente admitir que não se seguiu o processo adequado, em termos religioso ou civis.

É uma questão de ser "conservador" ou "liberal" demais?

Para mim, não se trata de uma questão de ser conservador ou liberal. Na verdade, vejo vários, digamos, de ambos os lados dessa divisão, que para mim não é uma divisão de forma alguma, ou pelo menos não é uma divisão útil.

Vejo pessoas de ambos os lados que estão muito preocupadas e empenhadas com a proteção e a fazer todo o possível para levar justiça às vítimas. E vejo relutância de ambos os lados para intervir de forma adequada, consistente e em tempo hábil quando surgem alegações e quando o contato com as vítimas é um ponto importante de todo esse processo.

De um modo geral, onde se considera que a Igreja já teve e ainda tem um poder enorme na sociedade e na vida dos indivíduos, parece, pelo que vemos, que a capacidade e a disponibilidade de agir em cima das alegações era limitada ou muito dificultada. A disposição de se apropriar da questão era muito limitada; e a tendência de encobrir, muito forte. Vimos ações irresponsáveis, como transferir pessoas de uma paróquia para outra, de uma diocese para outra, de um país para outro. É uma mentalidade de fortaleza, que tenta se proteger, proteger seu nome.

Poderia falar mais sobre essa mentalidade de fortaleza?

Não temos números reais, mas certamente [esse tipo de atitude] contribuiu em meios católicos anteriormente fechados como Boston, nas paróquias católicas da Austrália, num país como a Irlanda onde a Igreja Católica era extremamente poderosa. Não era tão poderosa na Austrália, mas nas paróquias era, porque as paróquias geriam escolas, creches, etc - toda a vida fora do trabalho (e às vezes até mesmo o trabalho) ocorria dentro desse mundo católico fechado.

Ao que parece, isso contribuiu para mais abuso e acobertamento. Onde houve abertura ao processo legal adequado, à supervisão e à auditoria, há muito menos problemas. Não digo que não haja nenhum problema, mas há menos. A transparência pode ser muito desconfortável, como vemos em todos os lugares, mas traz resultados positivos.

A mentalidade de fortaleza é mais frequente em ambientes conservadores. O que vimos no caso [de Fernando] Karadima [no Chile] é uma abordagem muito moralista, que, estranhamente, depois se combinou com uma abordagem completamente imoral às pessoas. É impressionante.

Alguns dos que pretendem defender a Igreja e sua doutrina comportam-se de forma iminentemente contraditória, destruindo a credibilidade da Igreja.

O antídoto para isso é a transparência?

Deveríamos discutir não apenas sobre o passado e o presente, mas também sobre o futuro. É do interesse da Igreja enquanto instituição e sistema que sejamos o mais transparentes possível. Isso fará com que confiem mais em nós. Paradoxalmente, admitir os erros torna as pessoas mais autênticas e confiáveis do que tentar escondê-los. É uma lógica que funciona ainda mais na era das redes sociais do que antes, e é algo que ainda não entendemos.

O próprio Papa disse que cometeu um erro grave, de julgamento, em relação a pessoas e situações. Ele admitiu isso. E está aí o que acontece. Pessoas normais e até mesmo a maioria dos colegas [da mídia] não o levaram adiante.

O que mais está em jogo?

A análise [do Papa] da origem disso é um tipo de clericalismo, em que se entende que o sacerdote tem poder absoluto sobre as consciências e vidas das pessoas e, com esse poder sagrado com que é imbuído, pode fazer o que quiser, pode dizer o que quiser, porque está com o Espírito Santo.

O papel da Igreja ao interferir na vida pessoal de forma absolutista tem contribuído muito para todo tipo de comportamento abusivo. No momento, vemos as consequências principalmente na Austrália e na Irlanda, que, na minha opinião, são os países onde há mais raiva e ressentimento em relação à Igreja.

Os bispos podem dizer o que quiserem, como o referendo da Austrália e agora da Irlanda, mas depois os críticos vão sempre dizer:

“O senhor vai falar de moralidade sexual para nós? Com o seu histórico?” Não encontramos uma forma de expressar a nossa compreensão positiva da sexualidade. Se perguntar a qualquer pessoa aqui, nesta praça, o que a Igreja diz sobre o sexo, o que diriam? É sempre 'não' para tudo, e não conseguimos transmitir a nossa compreensão de uma vida sexual saudável e íntegra.

Neste grupo de [Fernando] Karadima [no Chile] havia uma identificação com esta abordagem à espiritualidade que é extremamente conservadora e similar a um culto: "Nós somos os pilares da Igreja, vamos salvá-la, e algo assim, de todos os ataques do modernismo e do liberalismo". Mas não é uma divisão entre conservadores e liberais. Também existe um clericalismo liberal, frequente em líderes carismáticos que ignoram limites, regras e coisas do tipo.

Em última análise, para mim os casos de abuso sexual tem que ver com a seguinte questão: “Quem nós somos enquanto Igreja?”

Qual foi o significado da declaração do Papa Francisco para os bispos do Chile trabalharem para uma "Igreja profética"?

Eu entendo esse chamado a uma Igreja profética como levando 100% a sério, em todos os aspectos, o que o Evangelho nos pede. Isso não significa, por motivo algum, sentir-se no direito de fazer as coisas. Jesus nos chama sacerdotes, se falarmos de apóstolos, bispos e sacerdotes como quem prometeu que o seguiria de perto. Ele nos chama a servir, e não a sermos servidos. Ele nos chama a carregar a nossa cruz, e não a sermos os que colocam cruzes nos ombros dos outros.

Isso está muito em sintonia com o que o Papa Francisco diz constantemente, desde o início de seu papado. Em quase todas as homilias, ele retorna a esse assunto... diz à Cúria, em seus discursos na época do Natal, diz a cada bispo que o visita: “Quem nós queremos ser? O que nós queremos ser?” Devemos estar com as pessoas, ouvi-las, e isso não tem relação com ser conservador ou liberal. Para ele, temos de ser coerentes na nossa mensagem, nossa proclamação, nossa missão e em nosso estilo de vida pessoal.

E você não é o melhor juiz para sua vida, seu próprio comportamento. É preciso ouvir... é preciso ouvir os leigos, ouvir os colegas sacerdotes e não apenas os que, como dizemos na Alemanha, quem colocar mel na sua boca. É preciso ser honesto com o fato de ser um ser humano com limitações que não sabe a resposta certa para tudo sempre - mesmo que seja bispo ordenado e residente.

Então, por favor, busque as informações e esteja aberto a críticas. Pergunte-se quantas pessoas ao seu redor pode ou é forte o suficiente para lhe dar feedback razoável, sensato, baseado em evidências? Ou seja, de acordo com os critérios de ganhos e custos do Evangelho.

Como assim "ganhos" e "custos"?

Esperamos que o Evangelho nos traga ganhos. Um deles é que o sacerdote está em uma posição de respeito. Mas o custo não é tão evidente para nós. Claro, ninguém gosta de carregar sua cruz, caso contrário não teria sido necessário o Senhor nos lembrar disso. Na vida, temos uma cruz para carregar.

Portanto, o quanto você acredita na lei do Evangelho, ou seja, "deixe a si próprio, deixe tudo o que tem - até mesmo sua própria vida - e você terá 100 vezes mais de volta". Mas há uma condição: temos que estar com Ele em tudo, na alegria e no desafio, na sua missão e na sua paixão, primeiro e acima de tudo por Ele, para estar com Ele. É a moral da história da conversão contínua de precisamos.

Sobre o caso do Chile, falamos sobre o abuso sexual, que todos compreendemos. Mas o que entendemos por abuso de poder e consciência? É mais difícil de definir.

Sim, é mais difícil de definir. É a interferência com a jornada espiritual, humana e profissional uns dos outros, na medida em que um padre obriga a pessoa a seguir exatamente sua visão porque pensa e age como se estivesse imbuído de poder sobrenatural e pode dizer que você tem que se comportar exatamente de uma certa maneira, fazer de um certo jeito, simplesmente por ser um ministro da Igreja: "Eu sou padre e, portanto, sei tudo. Sei tudo de tudo e também sei sobre você."

É como se dissesse em jornadas de discernimento vocacional: "Eu sei qual é sua vocação e sei que isso é certo ou errado, então vocês tem que seguir essa ideia". Seu próprio discernimento pessoal não tem valor.

Aqui entra o discernimento inaciano, que é difícil para alguns "conservadores" assim como para alguns "liberais". É um compromisso, um compromisso muito forte, de continuar a jornada e desconfiar (!) de suas próprias inclinações espontâneas. Portanto, pode-se consultar alguém, mas a pessoa que o acompanha não quer ditar nada.

Inácio diz que a pessoa que acompanha deve agir como uma balança, com foco no "equilíbrio". Precisa dizer quando você estiver perdido, quando favorecer algo de forma irracional por paixão ou atração. Então, o papel de quem acompanha é lembrá-lo de outros aspectos que foram esquecidos. No final, Inácio insiste que não é quem acompanha que decide sobre sua vocação. É a pessoa com Deus.

Quem acompanha tem de se abster de julgar e pressionar. Caso contrário, interfere na relação mais íntima que se pode ter, que é a relação com o Senhor, o que Ele fala com a pessoa. As condições do discernimento inaciano são altas: é preciso estar ciente de que sempre estamos limitados e temos uma percepção muito tendenciosa de nós mesmos e muito limitada dos outros. É preciso estar ciente que suas inclinações naturais e incontestadas podem não ser a sua melhor bússola.

Minha tese de doutorado foi sobre 'Consolação Espiritual nas Regras de Discernimento'. Minha jornada e minha experiência pessoal, meu entendimento sobre o que é acompanhar os outros foi estruturada por tudo isso. É muito delicado, e Inácio diz que não se atinge o discernimento facilmente, é uma jornada contínua. Não é uma pessoa ir adiante e seguir seu próprio faro, o que alguns pensam que o Papa diz quando se refere ao discernimento.

É uma jornada muito desafiadora, e que parece sacudir as "certezas" pessoais e teológicas ou a "comodidade espiritual e necessidade de bem-estar" que alguns têm.

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