Chile. “O Papa buscará criar a impressão de que está arrependido e mudou”. Entrevista com Anne Barrett Doyle

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17 Maio 2018

Desde sua fundação em 2003, em Boston, após os escândalos que levaram à saída do então arcebispo dessa cidade, Bernard Law, e marcaram a história dos casos de abusos na Igreja Católica, a organização BishopAccountability.org mantém um detalhado registro da situação do tema na Igreja Católica em todo o mundo. Em relação ao Chile, o grupo aponta cerca de 80 casos, em sua maioria conhecidos, do ano 2000 até a data.

Anne Barrett Doyle, uma de suas fundadoras e atual membro do diretório - onde também participam vítimas de abusos que foram fundamentais para descobrir a situação em Boston, como Phil Saviano -, conversou com La Tercera sobre suas expectativas em torno da reunião do Papa com os bispos chilenos.

Para ela, a chave não está apenas em mudanças de pessoas, mas também em uma mudança cultural no Vaticano.

A entrevista é de Juan Paulo Iglesias, publicada por La Tercera, 16-05-2018. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Acredita que o encontro do Papa com os bispos chilenos terá um efeito global para a Igreja Católica e fixará novos padrões para enfrentar os casos de abusos?

O encontro será relevante para toda a Igreja Católica, mas em uma dimensão limitada. Espero que o Papa finalmente remova vários bispos culpados. E espero também que emita uma dura reprimenda a todo o Episcopado chileno. Ainda que muito atrasadas, essas sanções do Papa podem ter um efeito dissuasivo, ao menos no curto prazo. Os bispos no mundo inteiro podem tomar medidas para remover e denunciar abusadores, ao invés de protegê-los. Mas, em longo prazo, penso que a relevância do encontro vai se limitar majoritariamente ao Chile, mais do que estabelecer um novo padrão para a Igreja global sobre estes casos.

O que espera que o Papa faça no encontro?

O objetivo do Papa é silenciar o clamor público gerado por seus erros de relações públicas no Chile. Irá se esforçar para nos impressionar. Acredito que fará muito para criar a impressão de que está arrependido e mudou. Contudo, a solução será especificamente para a Igreja chilena. Não irá solucionar o problema sistêmico que está na base, na lei canônica e na cultura vaticana, que causou em primeiro lugar o problema chileno.

Esta situação é comparável com o que aconteceu na Irlanda?

Em 2009 e 2010, com a Irlanda reclamando após uma série de grandes investigações que produziram revelações de horríveis abusos e acobertamentos, o Papa Bento XVI tomou passos muito semelhantes. Aceitou a renúncia de quatro bispos irlandeses, convocou toda a Conferência Episcopal Irlandesa a Roma, repreendeu os bispos em uma carta pública e enviou equipes de visitadores apostólicos, incluindo proeminentes cardeais, para comparecerem pessoalmente nas arquidioceses, seminários e ordens religiosas da Irlanda. Embora a Igreja da Irlanda seja notavelmente mais segura e preste melhor conta hoje, sua aproximação estrita ao tema não foi adotada na Espanha, França ou Itália, menos em igrejas de outros continentes. Ao final, a resposta agressiva de Bento pode ser vista como uma estratégia para sufocar as críticas públicas, naquele momento, e deixar “em quarentena” as reformas. O caso da Irlanda não deteve os ruídos de resistência e pedidos de prestação de contas em outras partes, como na Austrália e no Chile. A resposta de Francisco no Chile não funcionará, a não ser que corrija a cultura tóxica do sistema na Igreja universal.

Quais medidas espera que tome?

Espero que Francisco tente demonstrar que, finalmente, está retirando a mancha de Karadima da Igreja chilena. No mínimo, espero que remova o bispo Barros e outros protegidos de Karadima - Arteaga, Koljatic e Valenzuela -. Também tomará medidas contra os protetores de Karadima. Aceitará finalmente a aposentadoria de Ricardo Ezzati. Este será um passo simples: com 76 anos, Ezzati já superou a idade para renunciar. Também parece provável que Francisco remova seu amigo, o cardeal Errázuriz, do Conselho de Cardeais. O papel de Errázuriz não está em discussão e se insistiu em que foi uma das principais fontes da falta de “informação verdadeira e oportuna”, que o Papa argumentou em seu desastroso manejo da situação de Barros. O núncio papal, Ivo Scapolo, também poderia ser dispensado. Também foi dito que entregou má informação ao Papa e que participou de uma campanha de descrédito de Juan Carlos Cruz e outros sobreviventes de Karadima. Será necessário observar se Francisco acompanha estas demissões com uma denúncia explícita da cumplicidade dos bispos e o abuso de seus postos. Francisco e seus dois predecessores removeram bispos cúmplices antes, mas sempre sem nenhum comentário papal. Nenhuma destas renúncias foi acompanhada de uma reprimenda pública ou uma explicação.

Quais são essas mudanças mais profundas?

As mudanças de pessoas não serão suficientes. O fiasco de Barros expôs uma profunda disfuncionalidade na cultura da Igreja e no sistema canônico. O Vaticano não tem uma aproximação metódica para investigar funcionários que possibilitam os abusos. É horrível que, em 2018, o Papa diga que foi mal informado sobre o que é possivelmente o mais documentado caso de abusos na Igreja Católica. Isso aponta para duas condições inquietantes: que os canais de informação no interior do Vaticano estão quebrados ou que os abusos ainda possuem uma prioridade muito baixa.

Acredita que o Papa está comprometido com a necessidade de enfrentar o problema dos abusos na Igreja?

Gostaria de acreditar que sim, mas sou cética. É necessário levar em conta que o Papa tomou este passo depois que a primeira estratégia – atacar a credibilidade das vítimas – fracassou. O tempo dirá se estes encontros com as vítimas e os bispos foram mais um controle de danos ou a busca desesperada da necessária mudança.

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