Papa Francisco não conseguiu resolver totalmente os escândalos de abuso na Igreja

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30 Julho 2018

“Se Francisco quiser enfrentar esse escândalo, deve agir rápido. Um tribunal precisa ser estabelecido em Roma para lidar apenas com casos de abuso, dirigidos por investigadores especializados”, escreve Catherine Pepinster ex-editora do The Tablet, e autora de “The Keys and the Kingdom: the British and the Papacy from John Paul II to Francis” (As Chaves do Reino: Os Britânicos e o Papado de João Paulo II a Francisco, em tradução livre), em artigo publicado por The Guardian, 26-07-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o artigo.

Há uma foto recente do Papa Francisco circulando nas redes sociais que mostra ele caminhando sozinho pelo pátio do Vaticano, sem segurança ou um secretário particular. Nos primeiros dias de seu pontificado, a caminhada de Francisco seria vista como quebra de convenção do Vaticano. Cinco anos depois, ela pode ser vista como um símbolo da solidão de Francisco. Aqui está um homem lutando para encontrar aliados ou apoio dos fiéis católicos em seus esforços para reformar a Igreja e lidar com as tentativas fracassadas de enfrentar a crise de abusos.

Essa crise ameaça engolir seu papado e causar danos permanentes à sua reputação. O escândalo passou a ser um desastre global, ao invés de se tratar somente de algumas “maçãs podres”, como a Igreja alegou certa vez. Além de encobrimento do mau comportamento dos padres, vimos também acusações contra arcebispos e cardeais - os príncipes da Igreja. A situação é tão ruim que se aproxima cada vez mais do próprio Papa: dois membros de seu grupo de cardeais conselheiros, o C9, estão contaminados por escândalos de abuso. (Deve-se notar que os membros do C9 envolvidos contestam as alegações.)

Nos últimos dias, a Igreja Católica também foi abalada por acusações contra um dos mais respeitados cardeais dos últimos tempos, o arcebispo aposentado de Washington DC, Theodore McCarrick. O Vaticano ordenou a sua demissão do ministério. McCarrick, de 88 anos, era confidente de presidentes e papas, incluindo Francisco.

Este não é, evidentemente, um problema contemporâneo criado por Francisco. A grande maioria dos casos que vêm à tona são históricos. O Papa herdou não apenas um atraso, mas uma Igreja que durante décadas relutou em atuar - e muitas vezes pertencia a uma hierarquia interessada em esconder escândalos, como o filme Spotlight, sobre o escândalo de padres pedófilos em Boston, tão vividamente retratou.

A eleição de Francisco em 2013 gerou esperanças de uma mudança muito necessária na cultura. Ele logo criou uma comissão consultiva sobre a proteção de menores, nomeando leigos como a psiquiatra britânica Sheila Hollins e também algumas vítimas. Mas a comissão afundou e as vítimas desistiram, frustradas com a falta de progresso.

O Papa tem enfrentado uma burocracia intransigente da Igreja. As autoridades do Vaticano se mostraram pouco dispostas a cooperar com a comissão, tampouco fornecer o suporte necessário. Mas acima de tudo, tem havido resistência cultural dentro da Igreja sobre o abuso. A casta clerical é moldada pela obediência e pelo profundo temor de contaminar a reputação da Igreja. A relação do bispo e do padre é paterna. Se o padre errar, o bispo pode se concentrar no perdão dos malfeitores, em vez de punir um abusador, afinal o grande foco é evitar a publicidade. Agora a Igreja está colhendo o que semeou, como úlceras feridas, os escândalos reprimidos que estão surgindo em toda parte. Os maiores envolvem acusações sobre membros da hierarquia.

Muitos críticos também afirmam que o celibato é a causa do abuso na Igreja católica. Outras instituições, da Igreja da Inglaterra, à BBC e à Associação de Futebol [inglesa], têm sofrido com escândalos de abuso e não têm tal exigência. O que o escândalo definitivamente mostra é que muitos daqueles que defenderam a castidade, mostraram descaso quando se tratava de si mesmos.

Se Francisco quiser enfrentar esse escândalo, deve agir rápido. Um tribunal precisa ser estabelecido em Roma para lidar apenas com casos de abuso, dirigidos por investigadores especializados. Isso é algo que a comissão aconselhou em 2015, mas ainda está para se materializar.

Francisco também precisa elaborar um documento - o que é chamado de constituição apostólica - sobre os abusos que irão delinear o problema, examinar as causas e indicar claramente como a Igreja lidará com o problema. Deve haver alguma margem de manobra. A Igreja opera em todo o mundo, inclusive em estados totalitários, onde um julgamento criminal justo é improvável para o acusado.

Algumas normas relativas às alegações e tratamento das vítimas devem certamente ser possibilitadas, assim como uma orientação clara sobre a avaliação de recrutas ao sacerdócio. A porta de saída para os bispos precisa mudar: a lei canônica da Igreja diz que eles só podem se aposentar quando chegarem a 75 anos ou por motivos de problemas de saúde.

Dentro de algumas semanas, o Papa Francisco terá uma oportunidade de ouro para falar sobre abusos ao visitar a Irlanda, um país muito afetado por esses escândalos, onde católicos leais já deram as costas para a Igreja. Levou um tempo para Francisco perceber que tinha que fazer isso. Em maio, escreveu uma carta para o povo do Chile, condenando uma cultura de abuso e encobrimento. Agora precisa fazer o mesmo pela Irlanda e depois voltar a Roma para finalmente dominar o escândalo. Nós, católicos, merecemos isso, especialmente as crianças que a Igreja não conseguiu proteger.

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