Os casos de abuso na Igreja da Inglaterra: uma reputação merecidamente prejudicada, afirma editorial do The Guardian

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28 Junho 2017

É chocante a leitura do relatório de Moira Gibb sobre o tratamento da Igreja da Inglaterra dado ao bispo abusador Peter Ball. [1] O texto revela uma preocupação com a aparência em detrimento da realidade, uma preocupação com a instituição em detrimento do indivíduo e, sobretudo, uma preocupação com os fortes e poderosos em detrimento dos fracos e vulneráveis. Desde o momento em que as primeiras vítimas se apresentaram à igreja, a resposta dada, inclusive nos níveis mais altos, foi de autoproteção institucional.

A opinião é expressa pelo editorial do jornal The Guardian, 25-06-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

As queixas relatadas não foram levadas à polícia, mas ao arcebispo de Canterbury, na época George Carey, que persistiu por muito tempo na crença de que o colega era inocente. Só se informou à polícia depois que a primeira vítima a denunciar, Neil Todd, tinha tentado o suicídio por duas vezes – e mesmo assim foram os seus pais, e não a igreja, quem prestou a queixa. A diocese de Gloucester contratou um ex-policial para investigar, e se possível desacreditar, as testemunhas.

Depois que rompeu a notícia da prisão de Ball, o Palácio de Lambeth recebeu sete acusações independentes relativas ao comportamento anterior do religioso. Duas foram vistas por Carey, que as respondeu pessoalmente. Somente uma das sete, no entanto, foi passada à polícia; esta era a menos condenatória. Uma mensagem de Carey à diocese, depois da prisão de Ball, pedia orações para o bispo e nada falava sobre as vítimas.

Depois que Ball se aposentou por motivos espúrios de saúde e aceitou uma medida cautelar – embora continuando a negar os seus crimes –, Carey trabalhou para vê-lo reabilitado. Verdade seja dita, ele assim agiu com menos ingenuidade do que o irmão gêmeo idêntico de Peter Ball, Michael Ball, também bispo, que admitiu deixar que o seu irmão se passasse por ele “em um ou dois eventos”, mesmo depois de sua desgraça.

Não obstante, Carey deu a Peter Ball 12.000 libras esterlinas tiradas da igreja, o que levou a queixas dos irmãos, que queriam 20 mil. Ele deliberadamente manteve o nome de Peter Ball fora da lista negra de Lambeth que reunia os clérigos não passíveis de serem empregados; conseguiu fazer com que o bispo desafortunado ficasse por duas vezes no Palácio de Lambeth; tentou encontrar uma ocupação para ele na África do Sul (escrevendo a Desmond Tutu para tanto) e em prisões; escreveu para uma paróquia americana dizendo que “Peter era provavelmente a vítima de uma conspiração, mas que, evidentemente, não podia provar”. A única objeção de Carey para uma plena reabilitação de Ball como bispo emérito era que ela pudesse provocar uma publicidade negativa.

O que se fez nestes anos foi uma desgraça, e o resultado tem sido uma desgraça merecida. Porém fazia parte de uma cultura de privilégios e poder que corrompeu mais de um bispo. O sucessor de Carey, Rowan Williams, nada fez para ajudar Ball, mas também muito pouco e para impedi-lo.

Justin Welby, o atual arcebispo, vem agindo de forma muito mais enérgica. Mas não há motivos para pensar que esse é o último dos escândalos. O caso de John Smyth, Conselheiro da Rainha evangélico flagelante altamente posicionado na rede pública escolar que apresentou Welby (e outros bispos) ao cristianismo, ainda não está totalmente elucidado.

Enquanto isso, a igreja persiste na hostilidade pública e privada contra clérigos gays que se engajam em relacionamentos públicos e consensuais. Um sacerdote se casar com um parceiro do mesmo sexo é um delito grave. De novo, um princípio orientador aqui é evitar o escândalo e manter as aparências, custe o que custar. À luz do relatório de Gibb, uma igreja que alega pregar a verdade iria se beneficiar ao prestar mais atenção a ele.

Nota

[1] O relatório, intitulado “The Independent Peter Ball Review”, está disponível aqui em inglês.

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