Valentina Alazraki representou um momento de raro destaque na deontologia jornalística. O que foi dito no sábado, diante do Papa é a opinião do verdadeiro jornalismo que quer ser um aliado da Igreja Católica

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25 Fevereiro 2019

A verdade e a transparência são exigências evangélicas. Na luta contra os abusos sexuais na Igreja, o jornalismo é um poderoso aliado e um verdadeiro amigo.

A reportagem é publicada por Il Sismografo, 24-02-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Pode-se legitimamente discordar de alguma passagem ou afirmação da jornalista mexicana Valentina Alazraki que no último sábado, com uma intervenção inteligente, honesta e consistente, falou aos participantes do Encontro desejado pelo Papa Francisco sobre a proteção dos menores na Igreja, em suma, contra a pedofilia clerical que há algumas décadas vem devastando de maneira mais ou menos submersa a vida da comunidade eclesial em todos os continentes. Não se pode deixar de reconhecer, no entanto, que Valentina Alazraki tenha falado claramente, sem ceder ao protocolo da ocasião, à solenidade do momento ou às mentirosas normas da moderação que só servem para ocultar a verdade.

Como ela mesma observou, suas muitas e profundas considerações, argumentos e exortações sempre foram a contribuição de uma mulher de igreja, uma mãe e uma jornalista, e cada momento da apresentação, lida com elegância e clareza, evidencia não só conhecimento direto do delicado assunto, mas também um "pensamento profundo", ou seja, as conclusões que podem ser alcançadas apenas questionando-se a si mesmo, ouvindo os protagonistas, sentindo o humor do homem simples e anônimo, e especialmente enfrenando com coragem a própria consciência. Nesse caso, na verdade, a consciência de mulher, de mãe e de jornalista.

Bem, aliás, muito bem. Valentina Alazraki foi no sábado uma grande honra para o jornalismo, para os jornalistas, e especialmente para aqueles que por muitos anos, com tenacidade e humildade, seguem a vida da Igreja Católica e a contam com sinceridade e equilíbrio. Em suma, um momento maravilhoso para o jornalismo e também para a Igreja que não tem medo de ser questionada pelos operadores da comunicação, como nesta circunstância. Um sincero aplauso também aos organizadores do evento por sua iniciativa e pelo convite feito a Valentina Alazraki.

Sabemos, mas não podemos confirmá-lo completamente, que no sábado alguns participantes fizeram perguntas hostis a Valentina, obviamente não contra ela, mas contra o jornalismo e os jornalistas. Nada de novo se fosse assim. Na Igreja, e muitas vezes na hierarquia e nas lideranças, especialmente na nomenclatura do Vaticano, há muitos que, como de costume, acreditam que o termômetro é a causa da febre do paciente ou que os terremotos são culpa dos sismógrafos. É melhor deixar isso de lado, porque é apenas um mesquinho artifício para acalmar a própria consciência ou simplesmente para negar a verdade. Sempre foi assim em muitos casos e sempre será assim também no futuro. Em toda parte, há pessoas que sentem horror diante da verdade porque construíram as próprias vidas sobre mentiras.

Aqui estão algumas passagens da Apresentação de Valentina Alasraki:

Podemos ser aliados, mas também inimigos

Se vocês estão contra aqueles que cometem abusos ou os encobrem, então estamos do mesmo lado. Podemos ser aliados, não inimigos. Ajudaremos vocês a encontrar as maçãs podres e superar as resistências para afastá-las daquelas sadias. Mas se vocês não se decidirem de forma radical a ficar do lado das crianças, das mães, das famílias, da sociedade civil, vocês têm razão para ter medo de nós, porque nós jornalistas, que queremos o bem comum, seremos seus piores inimigos.

Os abusos não são pecados do jornalismo

Os abusos contra os menores não são mexericos ou falatórios, são crimes. Lembro as palavras do Papa Bento XVI durante o voo para Lisboa, quando ele nos disse que a maior perseguição da Igreja não vem dos inimigos externos, mas nasce do pecado dentro dela.

O dever supremo do jornalista

Gostaria que vocês saíssem desta sala com a convicção de que nós, jornalistas, não somos nem aqueles que abusam nem aqueles que encobrem. Nossa missão é exercer e defender um direito, que é o direito à informação baseada na verdade para obter a justiça. Nós, jornalistas, sabemos que os abusos não estão circunscritos à Igreja Católica, mas precisam entender que, com vocês, devemos ser mais rigorosos do que com os outros, em virtude de seu papel moral.

O primeiro critério de comunicação verdadeira é a verdade, sempre ...

Como jornalista, como mulher e mãe, gostaria de lhes dizer que pensamos que abusar de um menor seja tão desprezível quanto o acobertamento do abuso. E vocês sabem melhor que eu que os abusos foram encobertos de maneira sistemática, de baixo para cima. Eu acredito que vocês devem tomar consciência de que quanto mais vocês encobrirem, quanto mais agirem como avestruzes, quanto menos informarem os meios de comunicação e, portanto, os fiéis e a opinião pública, maior será o escândalo. Se alguém tem um tumor, não vai se curar escondendo-o de seus familiares ou amigos, não será o silêncio a curá-lo, serão os tratamentos mais indicados que no fim evitarão as metástases e levarão à cura. Comunicar é um dever fundamental, porque, se vocês não o fizerem, automaticamente vão se tornar cúmplices daqueles que cometem abusos. Ao não fornecer informações que poderiam evitar que essas pessoas cometam outros abusos, vocês não estarão dando às crianças, aos jovens ou às suas famílias as ferramentas para se defenderem contra novos crimes.

A transparência é coerente com o Evangelho

O Papa Francisco sempre nos lembra que o diabo entra pelo bolso e está totalmente certo. A transparência ajudará vocês a lutar contra a corrupção econômica. No processo de informação interna, de baixo para cima, também ficamos sabendo por vários núncios, e eu posso testemunhá-lo, que houve casos de ocultação, obstáculos no acesso ao papa do momento, uma subestimação da gravidade das informações ou seu descrédito, como se fossem fruto de obsessões ou fantasias. A transparência também ajudará vocês a combater a corrupção no governo. Foi graças a algumas vítimas corajosas, a alguns jornalistas corajosos, e acho que tenho que dizer, a um papa corajoso como Bento XVI, que esse escândalo se tornou público e o tumor extirpado. É muito importante aprender a lição e não cometer de novo o mesmo erro. A transparência irá ajudá-lo a ser coerentes com a mensagem do Evangelho e colocar em prática o princípio segundo o qual na Igreja não deveria haver intocáveis: todos somos responsáveis diante de Deus e diante dos outros.

Três dicas para uma verdadeira transparência

Três conselhos práticos para viver a transparência. Já disse que acho que a comunicação é essencial para resolver esse problema. Permitam-me agora sugerir três maneiras de colocar a transparência em prática no momento de comunicar sobre os abusos sexuais contra menores.

1) Coloque as vítimas em primeiro plano. Se a Igreja quer aprender a se comunicar sobre os abusos, seu primeiro ponto de referência deve ser a vítima.

2) Deixem-se aconselhar. O segundo é que se deixem aconselhar. Antes de tomar decisões, busquem conselhos de pessoas com juízo que possam ajudá-lo.

3) Profissionalizar a comunicação. Em terceiro lugar, vocês precisam se comunicar melhor. Que tipo de transparência esperam os jornalistas, as mães, as famílias, os fiéis e a opinião pública de uma instituição como a Igreja? Acredito que seja fundamental que, em todos os níveis, da paróquia até aqui no Vaticano, existam estruturas talvez padronizadas, mas bastante ágeis e flexíveis, que ofereçam com rapidez informações precisas.

Freiras e religiosas vítimas de abusos por parte de secretores

Gostaria de encerrar esta participação mencionando um tema diferente daquele dos abusos contra menores, mas importante para uma jornalista mulher como eu. Estamos no limiar de outro escândalo, aqueles das freiras e religiosas vítimas de abusos sexuais por parte de sacerdotes e bispos. Foi denunciado pela revista feminina do L'Osservatore Romano, e o Papa Francisco, durante o voo de regresso de Abu Dhabi, reconheceu que está trabalhando há algum tempo sobre o assunto, que é verdade que precisa fazer mais, e há vontade de fazer mais. Nesta ocasião, gostaria que a Igreja jogasse no ataque e não na defesa, como aconteceu no caso dos abusos contra os menores. Poderia ser uma grande oportunidade para que a Igreja tome a iniciativa e esteja na linha de frente na denúncia desses abusos, que não são apenas sexuais, mas também de poder.

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