Os ataques à Igreja são o sinal de uma nostalgia escondida. Entrevista com o cardeal Schönborn

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24 Fevereiro 2019

"Estou vivendo uma maravilhosa experiência de sinodalidade, de caminhar juntos", afirma o cardeal Christoph Schönborn e sente que pode estender suas palavras a todos os participantes na cúpula convocada no Vaticano sobre o tema da proteção dos menores. "Vejo que aqui todos estamos juntos, unidos, e tentamos não pensar que os problemas são apenas aqueles dos outros, mas que todos nós precisamos proceder em um caminho de conversão, que é a primeira palavra do Evangelho e a condição para sua anunciação. Por essa razão, gostaria de dizer que estes quatro dias podem ser um grande momento de renovação da Igreja através da conversão”.

A entrevista é de Andrea Monda, publicada por L'Osservatore Romano, 23/24-02-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Durante os três dias de trabalho foi repetidamente salientado que pelo mundo externo a Igreja continua constantemente sob acusação, representando o alvo favorito, quase o bode expiatório para todos os males que afligem a sociedade contemporânea. O senhor não considera que isso seja muitas vezes o sinal de uma insistência injusta decorrente do fato de que em um mundo tomado por um relativismo dominante a voz da Igreja, com a sua sólida estrutura ética, esteja fora dos parâmetros, em contra tendência e, portanto, deva ser combatida, atacada e desacreditada?

Embora isso em parte seja verdade, por outro lado, a questão merece um aprofundamento. Pessoalmente, tenho uma visão mais complexa do problema, que não pretende esgotar a questão, mas pode ser um ponto de partida útil para enriquecer a nossa reflexão, para nos ajudar não só viver na defensiva, como uma cidadela sitiada, para nos distanciar da visão apenas negativa do mundo com a fácil contraposição entre o mundo mau e a Igreja boa e pobre vítima. Antes de mais nada, devemos lembrar que o próprio Jesus nos disse: "Bem-aventurado és tu, se todos falarem mal de ti". Em seguida, deve-se reconhecer que às vezes não deveríamos reclamar porque falam mal de nós, porque fazem isso com todo o direito, com razão, porque o mal existe e aquele dos abusos contra menores é um mal muito grave.
Nestes dias, o Papa convocou aqui todos os presidentes das conferências episcopais do mundo, uma ocasião para viver realmente a catolicidade, a universalidade da Igreja.

Sim, mesmo aqui há uma primeira reação que poderia levar a considerar como injustos os ataques que toda a Igreja deve suportar pelos pecados de alguns. Poder-se-ia pensar: "O que eu tenho a ver com a distante Igreja do Chile ou dos EUA?" Mas não é assim.

A Igreja, toda a Igreja deve sempre responder, com um todo. Isso justamente à luz do Evangelho, das palavras do Senhor: somos uma realidade só, um só corpo, é o primeiro atributo da Igreja é "una, santa, católica e apostólica". Nós somos o corpo de Cristo e como o Papa escreveu em sua Carta ao Povo de Deus, se um membro é perseguido todos somos perseguidos, e se um membro pecou, o corpo inteiro peca e sofre. Vamos, portanto, fazer a experiência diante do mundo de que a Igreja é verdadeiramente una, no bem, mas também no mal.

O escritor Inglês Gilbert Keith Chesterton dizia que a Igreja católica permite poucas coisas, mas perdoa tudo, enquanto o mundo permite tudo, mas não perdoa nada. Há algo de implacável nos ataques dirigidos contra a Igreja hoje, talvez que a misericórdia tenha desaparecido do mundo contemporâneo?

A frase de Chesterton é bela e muito correta. Sim, às vezes parece haver pouca misericórdia. Mas também é verdade que por trás dessa dureza e aparente falta de misericórdia pode se esconder um desejo, tantas vezes desapontado, de que existe o bem, a caridade, a misericórdia. Essa minha reflexão surge à luz de algumas palavras de Bento XVI, que em várias ocasiões repetiu que o mundo secular, justamente em seu olhar crítico em relação à Igreja, revela uma nostalgia escondida, uma grande nostalgia de algo grande e puro. No coração do homem há sempre essa nostalgia que se torna quase um desafio para acreditar que verdadeiramente a Igreja de Cristo representa algo grande e puro. A crítica, então, também pode ser vista como um anseio daquelas pessoas que nos criticam, mas porque querem que aquela grandeza do Evangelho seja verdadeira, seja autenticamente vivida. Quase uma raiva, um arrependimento de que o Evangelho não pode ser maculado, mas que necessariamente deve existir.

Nesse sentido, tem-me ajudado um texto do segundo capítulo da Sabedoria, sobre o qual Bento XVI muitas vezes refletiu, onde está escrito: "Armemos ciladas ao justo, porque sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir, repreende em nós as transgressões da lei e nos reprova as faltas contra a nossa disciplina." A Igreja como um mestre que repreende e, assim, provoca um duro ataque: "Vejamos, pois, se é verdade o que ele diz, e comprovemos o que vai acontecer com ele. Se, de fato, o justo é ‘filho de Deus’, Deus o defenderá e o livrará das mãos dos seus inimigos. Vamos pô-lo à prova com ofensas e torturas, para ver a sua serenidade e provar a sua paciência”.

Pois bem, penso que a Igreja hoje vive um período de provação, o momento em que é "testada". Até mesmo Bento XVI meditando sobre esse texto teve esta percepção: o mundo nos critica para nos testar, para ver se realmente somos mansos, se de fato o Evangelho é justo e possível. Então, ao invés de nos lastimar sobre a dureza da mídia contra a Igreja, vamos ler nisso um desejo escondido, que a Igreja realmente seja o que Jesus quer que seja. Se lermos esses ataques contra a luz, poderemos ver um sentimento misto de admiração e desapontamento. A partir daqui, devemos começar de novo, em primeiro lugar tentando sermos misericordiosos, mesmo com aqueles que nos criticam.

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