Francisco terá que consertar a cultura do encobrimento que João Paulo II permitiu

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22 Fevereiro 2019

Jason Berry foi o primeiro a relatar os abusos sexuais do clero de forma substancial, começando com uma reportagem histórica em 1985 sobre o caso de Louisiana envolvendo um padre chamado Gilbert Gauthe. Em 1992, ele publicou Lead Us Not into Temptation: Catholic Priests and the Sexual Abuse of Children [Não nos deixeis cair em tentação: padres católicos e o abuso sexual de crianças], uma investigação nacional após sete anos de reportagens em vários veículos.

No prefácio, o Pe. Andrew Greeley, renomado sociólogo americano, se referiu àquele que “pode ser o maior escândalo na história da religião na América e talvez o maior problema que o catolicismo enfrentou desde a Reforma”.

Berry acompanhou a crise em artigos, documentários e dois outros livros, Vows of Silence: The Abuse of Power in the Papacy of John Paul II [Votos de silêncio: o abuso de poder no papado de João Paulo II] (2004) e Render unto Rome: The Secret Life of Money in the Catholic Church [Render-se a Roma: a vida secreta do dinheiro na Igreja Católica] (2011), que ganhou o Prêmio Investigative Reporters and Editors Best Book.

Dado o momento atual e suas possibilidades, e o fato de que Berry tem um histórico singular em sua experiência de cobertura do escândalo a partir de múltiplos ângulos, o National Catholic Reporter, 21-02-2019, perguntou se ele poderia escrever uma reflexão sobre o assunto, enquanto os bispos da Igreja estão se reunindo em Roma para avaliar a questão.

Esta é a parte final do texto. Leia as partes anteriores aqui [em inglês]: Parte 1 e Parte 2.

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O desastre do acobertamento da Igreja deve muito a João Paulo II.

Em 1979, pouco mais de um ano depois de se tornar papa, João Paulo II visitou sua Polônia natal e enfrentou o regime comunista com vibrantes sermões sobre a liberdade. Quase da noite para o dia, ele se tornou uma força na política global na era da Guerra Fria. Ele desempenhou um papel catalítico no colapso do império soviético em 1989, quando o Muro de Berlim ruiu.

Em novembro de 1989, com João Paulo II triunfante no cenário mundial, os bispos dos EUA responderam a uma crescente onda de processos de abuso enviando uma equipe de canonistas a Roma, buscando autoridade para que os bispos pudessem destronar predadores de crianças. Os bispos norte-americanos já estavam enviando dezenas de criminosos para as estruturas de tratamento administradas pela Igreja; eles queriam poder para expulsar os piores deles. João Paulo II recusou. Durante anos, eu me perguntei por quê.

A biografia de autoria de Jonathan Kwitny, de 1997, Man of the Century: The Life and Times of Pope John Paul II [O homem do século: a vida e o tempo do Papa João Paulo II] detalha como o então cardeal de Cracóvia, Karol Wojtyla, apoiado por uma Igreja unificada, foi o líder da oposição ao Partido Comunista. Como papa, seus longos atrasos na assinatura de documentos para liberar os padres de seus votos refletiam a opinião de João Paulo II de que um homem muda ontologicamente ao se tornar padre, e seu próprio ser se torna novo. Os padres podiam pecar, mas também se levantar e seguir em frente. A ideia de um submundo sexual criminoso na vida clerical estava além do seu alcance.

E se os bispos dos EUA tivessem conseguido o poder em 1989 para exonerar os criminosos sexuais sem os longos atrasos depois de enviar os arquivos para vários tribunais vaticanos? Se alguns bispos tivessem assumido a liderança, demitindo os piores padres, a dependência de estruturas de tratamento como casas seguras de fato, ou as táticas desonestas para ajudar Lane Fontenot ou Gary Berthiaume [padres culpados de abuso sexual], poderia ter terminado mais cedo.

O Direito Canônico permite que os tribunais internos da Igreja avaliem a culpa de um padre antes de enviar seu arquivo a Roma, solicitando que ele seja laicizado. Os bispos norte-americanos relutaram em usar esse processo canônico sem um julgamento rápido; os arquivos estavam cada vez mais vulneráveis à intimação por parte de advogados de defesa. Um padre considerado culpado por um tribunal secreto da Igreja levantaria as apostas financeiras para um acordo ou veredito, particularmente se o bispo estivesse esperando para ouvir de Roma.

Eu fiquei sabendo mais sobre esse impasse em uma tarde agradável em Roma, em 2002. Um influente canonista falou comigo sob a condição de não ser identificado. Sentamo-nos em uma sala de conferências espartana em um prédio mais antigo do que a maioria dos Estados norte-americanos. A Santa Sé estava bem ciente dos custos crescentes das ações judiciais em 1989, disse-me ele. “Havia mais preocupação com o escândalo que poderia minar o trabalho da Igreja. Em quantos casos eles aplicaram os procedimentos penais [dos tribunais eclesiásticos]? Bem, em nenhum.”

Ele se inclinou para frente, com os olhos brilhando. “Os Estados Unidos têm o maior sistema de tribunais do mundo. Dizer que as pessoas não eram qualificadas é forçar a barra. Os tribunais dos EUA violavam grandiosamente – terrivelmente – as nulidades do matrimônio.”

Eu estava perplexo. “O que as nulidades matrimoniais têm a ver com os pedófilos?”, eu perguntei.

“Havia uma boa razão para não conceder normas especiais aos pedófilos”, declarou. As taxas de divórcio aumentaram nos anos 1970; o Vaticano havia permitido certas exceções para facilitar as nulidades. “Em vez disso, ocorreu exatamente o oposto... frouxidão nas nulidades”, bufou. “Nos Estados Unidos, a Conferência dos Bispos tinha uma verdadeira máquina que autorizava as dispensas [do matrimônio]. Isso era altamente criticado em Roma. Essa experiência de lidar com bispos norte-americanos estabeleceu uma resistência às normas especiais para [remover] os pedófilos.”

Com o crescimento da crise, o Papa João Paulo II ouviu diretamente dos bispos em suas visitas ad limina (encontros a cada cinco anos para informar o papa sobre uma determinada diocese). Em 1993, Dom Ronald Mulkearns, bispo de Ballarat, Austrália, falou de seus 18 meses de “pesadelo” em relação ao caso de Gerald Ridsdale, um padre com dezenas de vítimas antes de ser preso por muitos anos. “Havia muitas feridas graves infligidas em muitas pessoas”, disse Mulkearns a João Paulo II.

Como ele contou em uma carta pastoral,

“Eu admiti ao Santo Padre que o ano passado foi de longe o pior na minha experiência como bispo. (…) O papa estava interessado e preocupado com todas essas questões, e lembrou-me das experiências de Cristo e do estresse que ele sentiu no Getsêmani e de que, ‘estando em agonia, rezou por mais tempo’. Eu senti que essa não era uma resposta banal, nem um platitude piedosa, mas era o sucessor de Pedro confirmando um dos seus irmãos no episcopado.”

O então bispo George Pell acompanhou Ridsdale ao seu julgamento. Quando Ridsdale entrou na prisão em 1994, o Vaticano o havia laicizado, o que sugere que Mulkearns obteve algo a partir do seu encontro com João Paulo II. Qualquer outro interesse que João Paulo II tivesse em “todas essas questões” forneceu pouca orientação a Mulkearns. Em 1997, ele renunciou em meio a uma tempestade de críticas por reciclar outros predadores. O passado perseguia Mulkearns. Em fevereiro de 2016, a Comissão Real da Austrália sobre Respostas Institucionais ao Abuso Sexual Infantil recebeu acusações de que ele destruiu documentos no arquivo de Ridsdale e forçou que Mulkearns testemunhasse via videoconferência a partir do seu lar de idosos. Ele gastou 90 minutos se desculpando, alegando que não conseguia se lembrar dos detalhes. Ele morreu dois meses depois.

Pell tornou-se cardeal e, sob o comando de Francisco, desempenhou um papel importante nas finanças vaticanas, apenas para se despedir em 2017, arrastado de volta ao crescente escândalo na Austrália. A Austrália tem cerca de 4.400 casos de abuso sexual infantil por parte do clero com 1.800 perpetradores, entre 1950 e 2010 – 7% do clero do país, segundo o La Croix International. Pell recentemente foi condenado por abuso sexual, embora sob as leis arcanas da imprensa australiana detalhes importantes não foram fornecidos. Pell está sentado em um limbo frio.

João Paulo II afundou ainda mais na negação. Em 1995, o cardeal Hans Hermann Groër, da Áustria, que o papa havia escolhido pessoalmente como bispo (impressionado pela sua piedade em um santuário mariano), renunciou ao cargo de arcebispo de Viena, acusado de fazer avanços sobre ex-seminaristas beneditinos. Ao contrário de McCarrick, Groër ficou impune.

Quando João Paulo II visitou a Áustria em 1998, Groër era um escândalo nacional, pois os bispos que o defendiam haviam retrocedido. João Paulo II não mencionou Groër em seus eventos públicos, frustrando o iniciante grupo de leigos We Are Church, com 500.000 membros, que buscavam respostas.

O alter-ego de João Paulo II na crise foi o cardeal Angelo Sodano, que, após 13 anos no Chile, onde exerceu grande influência na escolha de bispos, tornou-se secretário de Estado em 1990. “A Cúria é uma irmandade”, disse Sodano ao New York Times. Sodano, 91 anos, atual decano do Colégio dos Cardeais, tem sido um defensor inigualável do acobertamento na irmandade. Em 2010, o cardeal austríaco Christoph Schönborn disse a jornalistas austríacos que Sodano havia convencido João Paulo II a guardar silêncio sobre Groër. Sodano pressionou o cardeal Joseph Ratzinger a não investigar Groër.

Sodano usou mais força depois de um impressionante caso canônico ter aterrissado em 1998 no tribunal da Congregação para a Doutrina da Fé de Ratzinger. Nesse ponto, a passividade de João Paulo II transformou-se em desafio. Oito ex-legionários de Cristo (incluindo um padre diocesano da Flórida) fizeram acusações de abuso durante seus anos como seminaristas adolescentes contra o fundador, Pe. Marcial Maciel Degollado. Àquela altura, Maciel enviara jovens legionários com dinheiro para “molhar” as mãos das autoridades da Cúria. As acusações contra Maciel nos escritórios vaticanos precederam em muito tempo a reportagem do jornal Hartford Courant, de 1997, escrita por Gerald Renner e este escritor, sobre oito vítimas de Maciel e o caso canônico de 1998 que eles apresentaram.

Pe. Marcial Maciel Degollado cumprimenta o Papa João Paulo II na Praça de São Pedro, no ano 2000 (Foto: CNS/Catholic Press Photo)

Em 1994, o cardeal Eduardo Martínez Somalo, o prefeito espanhol da Congregação que governa as ordens religiosas – em cujos arquivos marinavam acusações contra Maciel – ouviu uma suave batida na sua porta. Um jovem padre despachado por Maciel, segurando um envelope com 90.000 dólares, contou-me anos depois: “Eu não pestanejei. Fui até o apartamento, entreguei-lhe o envelope e disse adeus”. Somalo nunca respondeu ao meu pedido de entrevista.

Tampouco Sodano, um “líder de torcida da Legião”, como me disse um ex-padre legionário. “Ele veio dar uma palestra no Natal, e eles lhe deram 10.000 dólares.” Outro recordou uma doação de 5.000 dólares para Sodano, que se recusou a comentar a minha reportagem de 2012. O NCR também não recebeu retorno em 2010, quando perguntas traduzidas para o polonês foram enviadas ao escritório em Cracóvia do cardeal Stanislaw Dziwisz, que respondeu que “ele não tem tempo para uma entrevista”.

Como assistente de longa data de João Paulo II, Dom Dziwisz recebeu doações em envelopes, chegando a 50.000 dólares em um único caso de jovens legionários, que acompanhavam apoiadores de Maciel a missas papais privadas na capela do Palácio Apostólico. Um dos padres chamou os fundos dados a Dziwisz de “uma maneira elegante de fazer um suborno”.

Todo esse dinheiro! Toda essa boa vontade distribuída sob ordens de Maciel, o maior arrecadador de fundos da Igreja moderna e igualmente o seu maior criminoso. O diretor da CIA do presidente Ronald Reagan, William Casey, e sua esposa fizeram uma doação de sete dígitos para a construção de um edifício da Legião em Cheshire, Connecticut, e foram rememorados em uma placa.

Se um único traço molda o enredo do acobertamento é o ciclo reprodutivo, pois uma estratégia de fraude gera outra, e o escândalo gera novas faces como uma hidra grega, cada uma mastigando um novo conto lúgubre para contar.

Ratzinger, o teólogo da Congregação para a Doutrina da Fé que processou intelectuais da Igreja por questionarem o ensino moral sobre o controle de natalidade e outras questões, era um purista da lei e da ordem. Depois de um discurso na faculdade dos legionários, ele recusou o envelope com dinheiro. Mas não conseguiu convencer João Paulo II a se mexer contra Maciel, como o próprio Papa Francisco revelou misteriosamente no avião de volta de Abu Dhabi:

“Sobre o Papa Bento, gostaria de salientar que é um homem que teve a coragem de fazer muitas coisas sobre isso. Há uma anedota: ele tinha toda a papelada, todos os documentos, sobre uma organização religiosa que tinha corrupção no seu interior, sexual e econômica. Ele [como cardeal] seguia em frente, mas havia filtros, e não podia chegar ao problema. No fim, o Papa [São João Paulo II], com o intuito de entender a verdade, fez uma reunião, e Joseph Ratzinger foi lá com a pasta e todos os seus documentos. E, quando voltou, disse ao seu secretário: ‘Coloque-a no arquivo; venceu a outra parte’.”

Quem poderia ser a “outra parte” senão Sodano? A determinação de Ratzinger era impressionante, embora no fim o Vaticano tenha ficado manchado pelo legado de Maciel.

Em 2001, Ratzinger persuadiu João Paulo II a consolidar a autoridade para laicizar os criminosos sexuais em seu tribunal, algo que ninguém mais na Cúria queria. No entanto, em 2002, quando João Paulo II convocou os cardeais norte-americanos para Roma para uma conferência de emergência sobre a crise, Ratzinger não ofereceu resposta quando o repórter Brian Ross, da rede ABC, se aproximou dele, perguntando sobre Maciel. “Venha ao meu encontro quando for o momento”, respondeu, batendo na mão de Ross. “Ainda não!”

O momento começou em novembro de 2004. Sodano organizou, para um moribundo João Paulo II, com seu discurso arrastado pela desordem neurológica, a celebração do 60º aniversário de Maciel como padre em uma pródiga cerimônia vaticana. O papa elogiou o pedófilo – acusado há muito tempo – pela sua “formação integral da pessoa”. Ratzinger não compareceu; o papa também deu à ordem a autoridade sobre o Pontifício Instituto Notre Dame de Jerusalém, um elegante complexo de conferências e hospitalidade, e a cereja do bolo para a ordem religiosa de menos de 1.200 padres, mas que também tinha um orçamento de 650 milhões de dólares e 1 bilhão de dólares em bens na forma de escolas preparatórias, seminários e universidades na América Latina, Europa e América do Norte, como relatou o The Wall Street Journal.

Papa João Paulo II abençoa o Pe. Marcial Maciel Degollado, fundador dos Legionários de Cristo, no Vaticano em 2004 (Foto: CNS/Tony Gentile, Reuters)

Sodano gostava de dinheiro. Assim como Andrea Sodano, seu sobrinho, um engenheiro civil em Roma, que fez parceria com um espalhafatoso promotor italiano, Raffaello Follieri, que se instalou em Manhattan para comprar igrejas paroquiais dos EUA que os bispos estavam abrindo mão para arrecadar dinheiro enquanto as indenizações de abuso aumentavam. Compre por pouco, venda por muito. O secretário de Estado Sodano emprestou a sua presença para o lançamento de uma empresa em 2005 na cidade das cidades, antes que Follieri fosse indiciado por fraudar investidores. Confortável em Roma, Andrea recusou uma intimação para testemunhar. Follieri passou um tempo em uma penitenciária federal.

Sodano era maquiavélico, ou seja, justificava o poder; Ratzinger, um moralista, entendeu isso com a morte de João Paulo II; quem quer que os cardeais escolhessem como o próximo papa herdaria um desastre se o caso Maciel fosse abortado. Ele ordenou um advogado canônico, D. Charles Scicluna, para investigar.

Scicluna estava ouvindo depoimentos em Nova York quando João Paulo II morreu em 2005. Poucos dias depois, Ratzinger tornou-se o Papa Bento XVI. Meses depois, quando Scicluna entregou o seu fatídico relatório – descobrindo “mais de 20, mas menos de 100 vítimas” como uma fonte (quem senão Scicluna?) disse depois a John L. Allen Jr., então do NCR –, o Papa Bento tinha algo mais em sua mesa.

À espera da assinatura papal, o arquivo da Congregação para as Causas dos Santos aprovara a canonização do bispo Rafael Guízar Valencia, um dos falecidos tios mexicanos de Maciel, nomeado anos antes por adivinhe quem...

Como o Vaticano poderia encenar a cerimônia de canonização com Maciel à mostra, todo sorridente, um símbolo vivo do encobrimento da pedofilia, exibido para uma mídia faminta?

Em 19 de maio de 2006 , o Vaticano ordenou Maciel a “uma vida de oração e penitência”. A linguagem do comunicado massageada por Sodano elogiava os legionários e não reconhecia as vítimas (a cerimônia de Guízar e três outros santos ocorreu em outubro).

Maciel, aos 86 anos, deixou Roma para voltar à sua terra natal, Cotija, no México, e para ter uma reunião com uma de suas antigas amantes e a filha deles, de 23 anos, cujo apoio na Espanha ele encobria dos cofres da Legião. O Vaticano já sabia sobre os filhos de Maciel desde 2005, como me disse o cardeal aposentado Franc Rodé – sucessor do cardeal de 90.000 dólares, Martinez Somalo – em uma entrevista em 2012. Rodé tinha visto um vídeo de Maciel e de sua filha através de um legionário, um dos vários que começavam a pular do barco. Rodé disse que contou a Scicluna, mas não enfrentou Maciel porque “eu não era o confessor dele”.

Com Maciel fora, a longa defesa de Maciel por parte dos legionários transformou-se em um controle bizarro, prometendo lealdade ao papa, enquanto dizia aos seguidores que Maciel havia sido injustamente acusado, como Jesus, mas aceitou o seu destino com “tranquilidade de consciência”. Pode-se ver a tolerância de Bento XVI em relação às fraudes e mais fraudes da Legião (não admitindo que Maciel abusou de quem quer que seja) como um patriarca à espera da iluminação dos filhos pródigos; ou como um papa ficando com a paciência esgotada.

Na morte de Maciel em 2008, a Legião anunciou que ele estava no céu. Treze meses depois, as autoridades da Legião anunciaram a sua “descoberta” de que ele tinha uma filha, chocando os defensores mais fiéis. Só então, 12 anos após as acusações de pedofilia relatadas no Hartford Courant, a Legião finalmente fez um pedido público de desculpas às vítimas. Isso foi três anos após a demissão de Maciel de Roma, quando a ordem derrubou seu site atacando as vítimas de Maciel, Gerald Renner e eu.

Logo, dois homens do México afirmaram que eram filhos de Maciel. O Vaticano, que ficara sabendo da filha há quase quatro anos, anunciou uma investigação da Legião.

Em 2010, Bento XVI definiu Maciel como alguém “fora dos limites morais (...) uma vida perdida e distorcida”. Ele queria salvar as vocações de padres e seminaristas da Legião, que haviam sido formados na crença de que Maciel era um santo vivo e distorcidos por um culto de personalidade com votos de nunca criticá-lo ou criticar os superiores, e de denunciar qualquer um que fizesse isso – a espionagem recompensada como fé. “Investigar” é uma ótima manchete. Bento XVI nomeou um advogado canônico vaticano, o cardeal Velasio De Paolis, como supervisor da ordem. De Paolis orientou a reescrita dos estatutos da Legião, eliminando o voto secreto, como se isso pudesse reverter gerações de pessoas que passaram pela lavagem cerebral. De Paolis então ordenou uma nova safra de seminaristas da Legião, enquanto muitos legionários estavam saindo.

Ao “reformar” a Legião, De Paolis não conseguiu obter o controle do labirinto das finanças da ordem que sustentavam a vida prodigiosa de Maciel até a sua morte aos 87 anos. Em vez de fazer com que todos os homens se submetessem a terapia e aconselhamento, se desejassem se tornar ou continuar sendo padres, e de encerrar a ordem e estabelecer uma transição para que suas escolas e faculdades fossem administradas por dioceses ou organizações católicas sem fins lucrativos, a “renovação” com Bento serviu à operação financeira que Maciel havia aperfeiçoado por seis décadas. A “vida desperdiçada” do fundador forçou a Legião a vender milhões de dólares em imóveis norte-americanos, a fechar escolas preparatórias e a abrir mão de uma universidade em Sacramento em meio a batalhas judiciais contra os filhos de Maciel, supostas vítimas de outros padres e denúncias de parentes idosos que haviam sido enganados a fazer grandes doações para Maciel, um santo vivo.

Maciel cultivava a amizade de algumas das pessoas mais ricas da América Latina em busca de apoio. Dionisio Garza Medina, antigo CEO da Alfa, a empresa de Monterrey, México, fundada pelo seu avô, disse ao The Wall Street Journal em 2004: “A Legião é a única multinacional mexicana no mundo da religião”. Tire a palavra “mexicana” e você tem a Legião como Maciel a imaginou, uma multinacional arrecadando fundos de caridade para continuar fazendo dinheiro.

Com a ruína de Maciel como garoto-propaganda da arrecadação de fundos, a Legião moveu-se para um projeto em Israel que nenhum romancista poderia ter inventado. Como a ordem gozava do apoio de uma imprensa bajuladora no Pontifício Instituto Notre Dame de Jerusalém, cortesia de João Paulo II e de Sodano em 2004, eles entraram em ação, visando a fiéis abastados, para um projeto liderado pelo Pe. Juan Solano. Quando o Papa Bento XVI abençoou a pedra angular de um complexo no Mar da Galileia em 2009, a Legião arrecadou 20 milhões de dólares para uma casa de retiros chamada “Centro Magdala”, de acordo com um artigo da Smithsonian Magazine de 2016.

Em 2014, uma autoridade da Legião disse ao NCR que eles haviam arrecadado 40 milhões de dólares. Quarenta milhões são muitos dólares, somados ao montante que eles haviam arrecadado desde então, em um daqueles mistérios financeiros da Igreja. Será que o Vaticano tem alguma supervisão da máquina de dinheiro da Legião? O plano em 2014 era para um hotel de luxo. Quantas ordens religiosas constroem hotéis?

Solana, de acordo com a reportagem da Smithsonian de autoria de Ariel Sabar em 2016, “comprou quatro porções adjacentes de terra à beira-mar. Ele obteve licenças de construção para uma capela e uma pousada com mais de 100 quartos (...) Tudo o que restava agora era um pouco de burocracia: uma ‘escavação de salvamento’, uma escavação rotineira do governo israelense para garantir que não havia ruínas importantes debaixo do local de construção proposto”.

Em vez disso, veio a descoberta de uma sinagoga do século I no vilarejo que se acredita ser o local de nascimento de Maria Madalena. Posicionada em suas terras, os Legionários de Cristo encontraram a redenção como uma multinacional religiosa. O trabalho de arqueólogos e estudiosos da antiguidade continua. Solana escreve no site do Magdala: “A construção da pousada continua, e mesmo que ainda não saibamos exatamente quando poderemos receber o primeiro grupo, estamos nos preparando”.

Enquanto a máquina financeira da Legião avança, finalmente livre, será que Maciel, em alguma zona quente, pode estar sorrindo?

Pensamentos conclusivos

Enquanto as lideranças do episcopado se reúnem em Roma, a liberação das listas dos perpetradores (até mesmo no México, onde Maciel durante anos teve o cardeal Norberto Rivera Carrera na palma da mão) é um sinal encorajador de mudança.

Mas, para que uma agenda de reformas seja bem-sucedida, Francisco precisa de uma política sobre a questão que ele identificou, em uma retórica às vezes escaldante: o clericalismo, a busca do poder pela cultura clerical às custas dos leigos. A calcificada estrutura de poder de homens encobrindo homens não mudará por conta própria. Uma forma de começar essa mudança é instalando mulheres reformadoras no Colégio dos Cardeais, rompendo ainda mais com os hierarcas italianas, que controlam a Cúria Romana há gerações. O papa tem o poder de elevar as mulheres como cardeais, se assim o desejar; João Paulo II ofereceu um assento para a Madre Teresa, que recusou. Esse é um poder que o Papa Francisco deveria usar com vigor.

A outra rota é mudar a lei do celibato obrigatório. O celibato não faz com que os homens abusem das crianças, mais do que matrimônio pode ser culpado pelo incesto. Mas a cultura clerical, que perdeu um grande número de homens desde a encíclica encíclica de Paulo VI elogiando o celibato como a “joia brilhante” da Igreja, se transformou em um enorme “armário” para homens gays. Muitos são sacerdotes honrados que servem lealmente à Igreja; mas os problemas de maturidade psicossexual de muitos outros, levando-os a abusar de adolescentes, são uma parte fundamental da crise. Mudar o equilíbrio de poder para um clero casado levará tempo, mas, em última análise, conduzirá uma mudança maior em direção a uma teologia genuína e extremamente necessária da família.

O Papa Francisco está cercado por uma cultura de homens que protegem homens, uma cultura densa de padrões de comportamento sexual, ocultando segredos e, em muitos casos, os crimes sexuais e financeiros dessa estrutura de poder. O que está faltando tão desesperadamente nessa espécie bizarra de silêncio político é a graça materna – a sabedoria das mães que geraram e criaram filhos – e a graça feminina de irmãs e filhas, excluídas por questões de gênero dos seus legítimos papéis na reconstrução da honestidade e integridade institucionais.

A esse respeito, o ato final de encobrimento por parte de João Paulo II foi a declaração Ordinatio sacerdotalis, de 1994, na qual ele insistia que era a intenção de Jesus que apenas homens, pelo resto do tempo humano, fossem padres. O papa não tinha provas disso. As Escrituras não dizem que Jesus “ordenou” seus apóstolos, nem que Ele baniu mulheres, que eram vitais na sua vida pública. Dezesseis meses depois da declaração de João Paulo II de que a Igreja “não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres”, ele recuou para o seu ventre de silêncio em meio às acusações contra o cardeal Groër em Viena.

Mudanças estruturais recebem apoio lentamente, mas o impacto pode ser bastante repentino, como em 1989, quando o Muro de Berlim caiu. Por enquanto, a principal vantagem da mudança é a informação que surge de acobertamentos rompidos e a rara disposição de um papa a reconhecer a verdade quando a vê. A questão maior é se Francisco tem a capacidade de mudar os padrões decadentes de governo da Igreja e se os católicos comuns podem ajudá-lo a fazer isso.

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