Papa promete responsabilização por acobertamento de abuso sexual, mas não apresenta novos detalhes

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21 Agosto 2018

Em uma carta enérgica do papa pouco antes da viagem para a Irlanda, que acontece entre 25 e 26 de agosto, e, depois do relatório severo da Suprema Corte da Pensilvânia sobre crimes de abuso sexual e acobertamentos em seis dioceses, o Papa Francisco escreveu, na segunda-feira, que "não se deve poupar esforços para criar uma cultura capaz de impedir tais situações, além de evitar a possibilidade de serem acobertadas e perpetuadas".

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 20-08-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Referindo-se ao relatório da Suprema Corte, o pontífice escreveu: "A dor dessas vítimas é um gemido que clama ao céu, que alcança a alma e que, por muito tempo, foi ignorado, emudecido ou silenciado. Mas seu grito foi mais forte do que todas as medidas que tentaram silenciá-lo ou, inclusive, que procuraram resolvê-lo com decisões que aumentaram a gravidade caindo na cumplicidade".

As palavras do Papa chegaram em uma "Carta ao Povo de Deus", publicada pela Sala de Imprensa do Vaticano em sete idiomas, sugerindo a intenção do Vaticano de ampla distribuição. O texto completo tem cerca de 2.000 palavras.

A respeito da responsabilização não apenas pelo crime, mas também pelo acobertamento, uma questão que foi de grande importância no relatório da Pensilvânia, Francisco determinou que tais medidas têm de ser parte de qualquer solução.

“Reconheço o esforço e o trabalho que são feitos em diferentes partes do mundo para garantir e gerar as mediações necessárias que proporcionem segurança e protejam a integridade de crianças e de adultos em situação de vulnerabilidade, bem como a implementação da “tolerância zero” e de modos de prestar contas por parte de todos aqueles que realizem ou acobertem esses crimes”, escreveu o Papa.

"Tardamos em aplicar essas medidas e sanções tão necessárias, mas confio que elas ajudarão a garantir uma maior cultura do cuidado no presente e no futuro", afirmou.

No entanto, Francisco não falou especificamente quais seriam essas medidas de responsabilização.

Nas últimas semanas, vários cardeais em todo o mundo foram duramente criticados porque teriam lidado com queixas de abuso de forma inadequada. Wuerl foi criticado no relatório Pensilvânia por três casos durante a época em que era bispo de Pittsburgh, de 1998 a 2006, e, no Chile, os cardeais Ricardo Ezzati, atual arcebispo de Santiago, e Francisco Errázuriz, o arcebispo anterior, enfrentaram críticas e pedidos de renúncia de seus cargos em pelo menos dois grandes casos de abuso.

Surpreendentemente, Francisco não usa a palavra "bispo" nenhuma vez na carta, embora, por um tempo, o papel de alguns membros da hierarquia ao exacerbar a crise de abusos pela inércia ou pelo acobertamento tenha sido uma questão central do argumento.

É uma lacuna que Greg Burke, porta-voz do Vaticano, tentou preencher em trechos de áudio lançados nos meios de comunicação a respeito da carta.

"Para o Papa Francisco, é preciso haver maior responsabilização, não apenas dos que cometeram os crimes, mas também dos que os encobriram, que em muitos casos foram os bispos", disse Burke.

E destacou o escopo universal da carta.

"[A carta] refere-se à Irlanda, aos Estados Unidos, ao Chile, e muitos outros lugares", observou. "O Papa Francisco escreveu para o povo de Deus, ou seja, para todos."

Na carta, Francisco enfatiza as cicatrizes profundas deixadas pelo abuso sexual.

"Estas palavras de São Paulo ressoam com força no meu coração ao constatar mais uma vez o sofrimento vivido por muitos menores por causa de abusos sexuais, de poder e de consciência cometidos por um número notável de clérigos e pessoas consagradas”, afirmou.

"Um crime que gera profundas feridas de dor e impotência, em primeiro lugar nas vítimas, mas também em suas famílias e na inteira comunidade, tanto entre os crentes como entre os não-crentes", disse o Papa.

"Olhando para o passado, nunca será suficiente o que se faça para pedir perdão e procurar reparar o dano causado", escreveu.

Ele também reconhece as falhas da Igreja com clareza.

"Com vergonha e arrependimento, como comunidade eclesial, assumimos que não soubemos estar onde deveríamos estar, que não agimos a tempo para reconhecer a dimensão e a gravidade do dano que estava sendo causado em tantas vidas”, diz a carta.

"Nós negligenciamos e abandonamos os pequenos”, afirmou o Papa.

Francisco identificou o clericalismo como um dos principais culpados dos escândalos de abuso.

"O clericalismo, favorecido tanto pelos próprios sacerdotes como pelos leigos, gera uma ruptura no corpo eclesial que beneficia e ajuda a perpetuar muitos dos males que denunciamos hoje”.

"Dizer não ao abuso, é dizer energicamente não a qualquer forma de clericalismo”, declarou.

O pontífice apelou por um envolvimento mais amplo e profundo dos leigos como parte importante para a recuperação da crise.

"É impossível imaginar uma conversão do agir eclesial sem a participação ativa de todos os membros do Povo de Deus”, observou.

No próximo sábado, Francisco chega à Irlanda, um país profundamente abalado por escândalos de abuso em 2009 e 2010, onde este continua sendo um grande tema para o interesse público. Ele deve encontrar vítimas de abuso no país e também abordar a questão em seu discurso público.

No domingo, o arcebispo de Dublin, Diarmuid Martin, advertiu que "não basta pedir desculpas" (confira aqui, em inglês).

Martin argumentou que a Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores, liderada pelo cardeal de Boston, Sean O'Malley, não é "robusta" o suficiente e "não ataca o lugar certo", sugerindo que Francisco designe outra equipe.

Enquanto isso, o grupo de fiscalização BishopAccountability.org, com sede nos EUA, lançou uma lista de mais de 70 membros do clero irlandês condenados por abuso sexual, na segunda-feira, depois de excluir cerca de 20 nomes por preocupações com as rigorosas leis de privacidade europeias.

"Muitas pessoas nos disseram que a lista é algo arriscado", disse um comunicado do grupo. "O Christian Brothers tomou medidas legais para evitar que certos nomes aparecessem no relatório. Os nomes dos sacerdotes acusados geralmente aparecem na imprensa irlandesa apenas se o padre for legalmente condenado. Em outros lugares na Europa, até mesmo pedófilos condenados têm direito a anonimato."

"Esperamos que este banco de dados irlandês incentive um debate aberto sobre como sociedades equilibram os direitos de privacidade do réu com o direito de uma criança de estar segura e o direito do público de tomar conhecimento", disse o grupo.

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