Cardeal Wuerl, de Washington, o relatório da Pensilvânia e os desafios da viagem do Papa Francisco à Irlanda

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20 Agosto 2018

A viagem do Papa Francisco para a Irlanda no próximo fim de semana, que já era desafiadora, ficou ainda pior no sábado, com a notícia de que o cardeal de Washington, D.C., Donald Wuerl, cancelou sua participação no Encontro Mundial das Famílias, onde proferiria uma conferência, que é o propósito oficial da visita do pontífice.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 19-08-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

A saída de Donald Wuerl deve-se ao tumulto causado pelo questionamento do júri da Pensilvânia sobre sua forma de lidar com acusações de abuso sexual como o do bispo de Pittsburgh nos anos 90 e 2000. Nesse contexto, sua ausência coloca ainda mais pressão em Francisco para enfrentar escândalos de abuso sexual durante a visita a um país que indiscutivelmente foi mais atingido do que qualquer outro lugar do mundo.

Embora ainda não tenha sido oficialmente confirmado, é grande a expectativa de que Francisco encontre vítimas de abuso na visita à Irlanda. Considerando os acontecimentos das últimas semanas, ou seja, a situação não apenas de Wuerl, mas também do cardeal Sean O'Malley (nesse caso, devido a acusações de condutas sexuais inapropriadas no seminário St. John, de Boston), bem como os escândalos envolvendo o ex-cardeal Theodore McCarrick, a atual crise no Chile e outros eventos infelizes, o modo como Francisco se envolve em qualquer encontro com as vítimas assume uma nova importância.

Além das consequências imediatas, há outros três efeitos da saída de Wuerl e do rumo que as coisas podem tomar.

Em primeiro lugar, está cada vez mais claro que não há estratégia que permita que Wuerl escape de se responsabilizar completa e publicamente por suas ações em Pittsburgh.

O caso mais polêmico citado no relatório do júri é o do padre Ernest Paone. Paone, que foi ordenado em 1957 e atuou até 2001, foi transferido, apesar de um histórico de acusações a partir dos anos 60.

Quando Paone finalmente se aposentou em 2001, quase 41 anos depois da primeira acusação de abuso sexual, segundo o relatório, Wuerl escreveu uma carta garantindo ao padre que "seu sustento e benefícios continuarão, de acordo com as normas legais".

Em uma declaração ao Crux, no sábado, um porta-voz de Wuerl argumentou que ele não pode ser responsabilizado, pois Paone nunca esteve sob sua supervisão.

"O padre já não residia na diocese de Pittsburgh por quase 25 anos quando o cardeal Wuerl chegou", afirmava o comunicado. "A diocese não forneceu qualquer evidência ao então bispo Wuerl até 1994, quando um indivíduo acusou Paone de casos anteriores à chegada de Wuerl, que agiu prontamente para notificar a outra diocese e providenciar sua saída do Ministério."

Se esse for mesmo o caso, a percepção sobre o papel de Wuerl pode se alterar, embora várias perguntas ainda permaneçam sem resposta - entre elas, como o fato de "agir prontamente" em 1994 pode ter permitido que Paone continuasse ativo por mais sete anos até se aposentar.

Uma opção seria Wuerl convocar uma conferência de imprensa e prometer que permaneceria no cargo até cada pergunta ser feita e respondida. Ou então contratar uma investigação independente, que não seja financiada nem controlada pela Igreja.

Seja como for, Wuerl pode sofrer perseguição por suspeitas de ser cúmplice eterno de acobertamento se não fizer alguma coisa imediatamente para fornecer evidências que apoiem uma interpretação alternativa.

Em segundo lugar, Francisco pode ser prejudicado pela saída de O'Malley e Wuerl do Encontro Mundial das Famílias, por razões com uma repercussão muito maior do que as 32 horas da viagem para a Irlanda.

No caso de Sean O'Malley, ele é de longe a figura mais identificada com a causa da reforma em casos de abuso sexual no alto escalão da hierarquia católica. É justamente por considerarem que ele está do lado dos anjos que ele tem tanta credibilidade ao defender o Papa Francisco.

Se a reputação ou a eficácia de O'Malley forem afetadas pelos escândalos do seminário St. John, seria criado um vazio para Francisco nada fácil de preencher.

Wuerl tem sido um forte aliado e confidente de Francisco, principalmente no controverso documento do Papa Amoris Laetitia, abrindo com cuidado a porta para a comunhão de católicos que se divorciaram ou casaram novamente fora da Igreja. Ainda que Wuerl provavelmente não seja o único prelado do alto escalão a apoiar Francisco nesse assunto, ele esteve entre os mais abertos, e o Papa pode estar em perigo de substituição dependendo do andamento das coisas.

Em terceiro e último lugar, o caso de Wuerl coloca um ponto final numa conclusão sobre os escândalos de abuso sexual que já deveria estar clara: o problema da Igreja não é o crime em si, mas o acobertamento.

Dezesseis anos depois da eclosão da primeira crise nos Estados Unidos, quase dez anos depois da Irlanda, e mais de cinco depois da eleição de Francisco, a Igreja Católica ainda não tem nenhum processo transparente e convincente para lidar com casos quando não se acusa um bispo de ter cometido abusos diretamente, mas sim de ter encoberto os crimes de outra pessoa.
Francisco tentou dar alguns passos nessa direção, mas até agora permanece praticamente sem efeito.

A principal lição do caso dramático de Wuerl pode ser justamente esta: sem um mecanismo para investigar as acusações de encobrimento, fica-se com o pior dos dois lados. Os bispos que cometeram os crimes não são responsabilizados e os que tiveram sua reputação arruinada injustamente não têm recursos para se defender.

Talvez seja prematuro esperar que a viagem de Francisco à Irlanda, que acontece esta semana, traga respostas definitivas quanto à forma de construir um sistema como esse. No entanto, se o Papa simplesmente reconhece que é a pergunta certa, isso poderia significar um progresso para muitas pessoas em vários lugares.

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