“O padre Maciel era um modelo. Acreditávamos nele e não nas vítimas”, reconhece o diretor-geral dos Legionários de Cristo

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Por: André | 05 Março 2014

Após três anos sob a vigilância do Vaticano, os Legionários de Cristo acabam de receber a autorização do Papa Francisco para seguir em frente apesar dos escândalos de abusos a menores, poligamia e drogadição protagonizados por seu fundador, o padre Marcial Maciel (1920-2008). Outro mexicano, o padre Eduardo Robles Gil (1952), é o novo diretor-geral.

A entrevista é de Pablo Ordaz e publicada no jornal espanhol El País, 01-03-2014. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Após ficar demonstrada a dupla vida de Maciel e devido à sua imagem negativa, a congregação ainda tem algo a oferecer à Igreja?

Nunca nos colocamos as coisas dessa maneira. Embora seja verdade que há pessoas da Igreja e fora dela que pensam que deveríamos desaparecer, na nossa opinião não faz sentido. E o Papa Bento XVI, quando leu os relatórios dos visitadores, disse que somos uma comunidade essencialmente saudável, mas que tem que se renovar e melhorar. Mas é verdade que estávamos a ponto de desaparecer, porque havia vozes que se colocavam essa pergunta nos termos que você faz. Mas, por exemplo, no México há 50.000 alunos que estão em colégios e que pagam mensalidades e 15.000 que não pagam, cujas famílias seguem confiando em nós...

Chama-me a atenção que não tenham perdido a confiança.

Há pessoas que já não confiam em nós. Sim, elas existem. Mas, sobretudo, há pessoas que não nos conhecem e que não optam por nós. Se antes tínhamos um prestígio muito grande, hoje temos um prestígio menor e isso sem dúvida nos afeta.

Então, insisto: não teria sido melhor dissolver-se?

Não, definitivamente não. Para que mudar de nome se nós não mudamos? Eu continuo sendo o mesmo. Se têm confiança em mim como diretor do colégio, vão continuar no colégio. Continuamos a ser as mesmas pessoas que têm que aprender a ver as coisas com humildade, reconhecendo que nos equivocamos.

Não crê que pecaram por soberba?

Sim. Mas pense que tínhamos muito prestígio. Havia, portanto, um certo orgulho institucional de acreditar que estávamos fazendo bem as coisas. Agora aceitamos as recomendações da Igreja. Antes teríamos dito: bom... Agora aceitamos que a Igreja nos supervisione.

O Papa Francisco fez uma clara diferenciação entre pecado e crime. Vocês reconheceram os pecados de Maciel, mas cumpriram, como cidadãos, denunciado algum legionário?

Sim. É preciso distinguir. O que o padre Maciel fez em sua vida são seus atos e são seus pecados. Mas, hoje, existe um compromisso em toda a Igreja de que, diante de um crime contra menores, temos a obrigação de fazer uma tríplice denúncia. Se algum legionário sabe de outro legionário tem que denunciá-lo ao superior, e o superior às autoridades civis e ao Vaticano. E também tem que falar com a pessoa acusada. Porque é preciso ter presente que ser acusado não quer dizer ser culpado. Há pecados que são pecados simplesmente e outras coisas que são crimes. E todos os crimes com menores devem ser denunciados.

E o fizeram?

Sim, o fizemos.

E há registro de que o fizeram?

Sim, claro que há registro. Acontece que uma coisa é denunciá-lo e outra é publicá-lo. Em dezembro publicamos uma carta na qual anunciamos que houve denúncias contra 35 sacerdotes.

Por que demoraram tanto tempo para admitir o que estava acontecendo?

Como disse Bento XVI em sua carta aos irlandeses: “Demoramos para acreditar”. Havia notícias, mas não acreditávamos nelas. A razão é que um sacerdote normalmente é uma pessoa de prestígio e para nós o padre Maciel tinha muito prestígio, era um modelo. Também tinha prestígio no Vaticano e muito prestígio social e eclesiástico. Então, quando começam a surgir as acusações e ele disse que não eram verdadeiras, acreditamos nele e não nos acusadores. Além disso, como o Vaticano não havia dado ouvidos às denúncias, optaram por uma forma que nessa época não era bem vista nos círculos eclesiásticos, que foi fazer aparecer na televisão, fazer uma denúncia no jornal. E nesse momento essa forma escandalosa de fazer as coisas deu-lhes credibilidade.

Mas passaram muitos anos.

Sim, muitos anos. Até 2005, o promotor especial deste tipo de casos não foi ao México. Falou com as vítimas e, em 19 de maio de 2006, comunicou-se que o padre Maciel enfrentava acusações gravíssimas, que por motivo de idade e de sua doença – já tinha sintomas de demência senil – já não seria submetido a um processo, mas que tinha que se retirar a uma vida de penitência. O Vaticano está convencido da veracidade e aí foi um verdadeiro balde de água fria. Muitos começamos a duvidar, mas quando estás num voo há uma inércia que não é fácil frear. Havia quem dissesse abertamente: o Vaticano se equivocou. Só em 2008 começamos a inquirir entre nós. E então aparece algum legionário que diz: eu sou vítima. E vem outro legionário e diz: eu também sou vítima. E alguma pessoa que sempre consideramos amiga, que nunca saiu no jornal e nunca faria isso, mas diz: é verdade. Então, nos vemos na obrigação moral de comunicar à congregação que tudo o que sempre havíamos negado era verdade.

Ainda há cúmplices na congregação?

Uma coisa e encobrir e outra coisa é cobrir. Tu és amigo e eu sei que fizeste algo errado e não te denuncio. E outra coisa é que eu faça todo o necessário para que ninguém te descubra. Consta-me que nem o padre Álvaro nem o padre Luis Garça nem o padre Evaristo Sada, que era o secretário-geral da congregação, souberam nada antes de 2006. Talvez algum secretário particular tivesse sabido algo. Mas não penso que alguém soubesse de tudo. E talvez alguém soubesse que tinha uma filha, mas não o disse. Ou se sabiam que tomava muitos analgésicos e não apenas analgésicos, porque requeriam de uma receita médica [drogava-se com dolantina], pois não disseram. O relatório dos visitadores, que é de 2010, diz: “Quem sabia de algo pensou que não devia dizê-lo pelo bem que se estava fazendo”. De fato, hoje, a posteriori, sabemos que esse não foi o mais correto, mas também sabemos com muita clareza que saber de tudo também foi prejudicial. Prejudicou os Legionários de Cristo e escandalizou na Igreja a ponto de você me perguntar se não provocamos mais mal que bem...

Mas daqui se pode inferir que quase se arrepende de que se saiba...

Não, não me arrependo. Na Igreja já estamos convencidos de que temos que denunciar. Mas tem que levar em conta que algum amigo meu que antes era legionário agora não é mais, ou que uma pessoa que seria um bom padre já não segue o caminho do sacerdócio. Isso me dá pena. Há coisas que é preciso fazer, mas têm uma repercussão indesejável.

Creio que esta manhã [27 de fevereiro] encontrou-se com o Papa.

Sim.

Disse-lhe algo?

Disse-me: “Eu te apoio. Segue em frente”.

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