Entendendo observações controversas do Papa Francisco sobre a homossexualidade no sacerdócio

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07 Dezembro 2018

Em um novo livro baseado em entrevistas com um padre espanhol, o Papa Francisco diz que a homossexualidade no sacerdócio é "algo que me preocupa" e uma questão "séria". Ele observa que os padres gays que não conseguem manter os votos de celibato devem deixar o sacerdócio e não viver uma "vida dupla", afirma ser contra a admissão de homens homossexuais aos seminários em casos em que a homossexualidade seja "profundamente arraigada” e sugere que a percepção social da homossexualidade como uma "moda" permeou a cultura católica.

O artigo é de Kevin Clarke, publicado por America, 05-12-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Os comentários do Papa provocaram consternação entre admiradores anteriores, que ficaram preocupados que ele esteja regredindo em relação à abordagem mais pastoral aos católicos LGBT que foi sua marca registrada, e alegria a alguns dos críticos habituais, que reclamam que sua ênfase persistente na misericórdia pode romper com a doutrina da Igreja às vezes. Outros provavelmente ficaram simplesmente perplexos com a mais recente controvérsia. Essa é a mesma pessoa que em 2013 disse “Quem sou eu para julgar?” para não ter de responder questões sobre um padre gay?

Se sacerdotes homossexuais que têm dificuldades em relação ao celibato devem deixar o sacerdócio, questionaram católicos e observadores da Igreja nas redes sociais, como fica a situação dos padres heterossexuais que também têm a mesma dificuldade?

"Não é a primeira vez que o Papa Francisco é mal interpretado. Alguns jornalistas deixaram uma impressão errada", disse o editor da América, James Martin, S.J., em uma entrevista por e-mail no dia 3 de dezembro. "Mas seus comentários foram bastante confusos”.

"Primeiro, ele fala sobre a expressão dos “afetos” por parte dos padres gays — ou seja, manter atividade sexual —, o que ele obviamente condena", observa o padre Martin. "Diz que [os padres gays] não deveriam ser aceitos em seminários nem ordens religiosas e depois diz que devem ser 'impecavelmente responsáveis', levando à conclusão de que ele os aceita se forem celibatários... Sinto que ele está, essencialmente, relembrando os padres gays de que devem ser celibatários — como todos os sacerdotes são chamados."

Muitos ficaram chocados e aflitos quando o Papa sugeriu que a "homossexualidade" tinha se tornado "moda" na cultura ocidental contemporânea. "Não posso falar pelo Papa, mas suponho que por 'moda' ele quis dizer que é cada vez mais comum na vida pública", observa. "Mas se quer dizer que alguém é gay simplesmente porque está ‘na moda', isso não apenas é errado mas também é doloroso e perpetua a ideia de que os homossexuais 'escolhem' sua orientação. Significaria que vai contra todos os psiquiatras respeitáveis e a vivência das pessoas LGBT."

Mas o Papa tinha mesmo se distanciado das ideias da Igreja sobre haver homens gays no sacerdócio ou na preparação para o sacerdócio?

"Na verdade, não”, diz o padre. "Mas é importante considerar seus comentários de forma contextualizada com as observações anteriores sobre os padres gays e as pessoas LGBT. Sua frase mais famosa, 'Quem sou eu para julgar?', foi uma resposta a uma questão sobre padres homossexuais. E, mais recentemente, ele disse ‘Deus te fez assim’ ao amigo Juan Carlos Cruz, que é gay e foi vítima de abuso.”

Para o psicólogo Thomas Plante, professor de psicologia da Universidade de Santa Clara, na Califórnia, a origem do comentário que foi na direção oposta e apareceu em todos os jornais encontra-se em 2005, quando o Vaticano lançou uma instrução sobre a admissão de homens com "tendências homossexuais" ao sacerdócio. Esse documento propõe as mesmas distinções que Francisco brevemente tentou analisar no livro em que dialoga com Fernando Prado, C.M.F., The Strength of Vocation: Consecrated Life Today (em tradução livre, O poder da vocação), dizendo que apesar de ser aceitável admitir candidatos que vivenciaram uma homossexualidade "transitória" aos seminários católicos, os candidatos com uma "homossexualidade profundamente arraigada” não deveriam poder entrar, apenas sendo tratados com sensibilidade e respeito.

O problema é que tais distinções estão em dissonância com a pesquisa moderna em psicologia. "Às vezes, em alguns aspectos, nossa amada Igreja fica sobrecarregada com esses documentos", diz Dr. Plante. "Acho que seria bom se o pessoal da gola romana e chapéu vermelho que escreve esses documentos tivesse ajuda de profissionais da área”, acrescenta. As palavras da instrução não refletem "o que sabemos atualmente sobre a sexualidade humana, a homossexualidade e o funcionamento de tudo isso”.

Dr. Plante realizou milhares de avaliações de candidatos para entrar no seminário e desistiu — junto com os diretores de seminários que consultam com ele — de tentar fazer as distinções em que o Vaticano parece insistir.

"A questão é que a orientação sexual das pessoas, de um ponto de vista psicológico e de fatores de risco em termos de abuso clerical, é irrelevante”, afirma. "O importante é como administram seus impulsos. Como administram seus desejos, impulsos, seja homo ou heterossexual — esse é o problema."

Uma preocupação de Plante é que, quando o Papa não se prepara para falar sobre um assunto com um peso tão grande, os "sacerdotes homossexuais acabam sendo bode expiatório por serem gays, não pelo por suas ações ou orientação sexual... É quem eles são, e não o que fazem, e isso é um grande problema.

Dr. Plante se questiona por que o Papa e outros líderes religiosos não recorrem mais aos profissionais de psicologia ou da sexualidade humana antes de falarem sobre o assunto. "É preciso ser claro, porque é um tema delicado”, observa. "Há muita emoção, raiva e hostilidade" em torno dessa questão. "É preciso respirar fundo e ser muito claro sobre o que se diz, senão outras pessoas vão projetar suas próprias narrativas, suas próprias histórias", diz, preocupado que alguns usem a imprecisão do Papa como "arma” para argumentar contra a inclusão de homens gays no sacerdócio.

O padre Martin concorda que ser "impreciso" ou fazer comentários que "parecem se contradizer” pode confundir as pessoas "e, em alguns casos, desmoralizar".

"Também há uma tendência de ambos os lados usarem esses comentários, criando ainda mais divisão na Igreja", afirma. "Todo mundo improvisa às vezes, mas acho vindo do Papa essas observações improvisadas têm maior probabilidade de causar danos."

Dr. Plante não acredita, como sugerem algumas notícias, que o Papa Francisco ou a Santa Sé queiram excluir os homossexuais do sacerdócio. "Vamos ver como é ter uma inquisição e excluir todos os sacerdotes que se identificam como gays", comenta. Dr. Plante especula que isso significaria uma redução de "um terço ou até metade" dos membros do sacerdócio e a remoção e humilhação de "pessoas que não fizeram nada de errado e que estão administrando seus impulsos, algo que quem é casado, celibatário ou é heterossexual e faz parte do clero precisa fazer”.

"O Papa Francisco, e eu o amo, não é um profissional da saúde mental", afirma Plante. "Por que não falar com os profissionais da área?... Existem muitos católicos engajados que querem ajudar e conhecer mais a respeito. Deixe estendermos a mão. Temos boas intenções e queremos ajudar a Igreja.

"Se o telhado do Vaticano estivesse estragado, você não mandaria um cara num colarinho romano e com um chapéu vermelho subir numa escada para consertar, certo?", questiona.

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