Depois do escândalo de McCarrick, os seminários católicos protegerão melhor seus jovens

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02 Agosto 2018

Revelações de que o ex-Cardeal Theodore McCarrick enfrenta alegações credíveis de avanços sexuais indesejados direcionados a seminaristas católicos, além de novas acusações de que ele abusou sexualmente de menores, levantou questões sobre as condições nos seminários católicos. Alguns especialistas acreditam que enquanto muitos seminários estabeleceram políticas para proteger os adultos que estudam para serem padres e membros de comunidades religiosas, a cultura de seminário às vezes permanece como um obstáculo para protegê-los do comportamento predatório.

A reportagem é de Michael J. O'Loughlin, publicada por America, 31-07-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Gerard McGlone, SJ, psicólogo e diretor associado para a proteção de menores na Conference of Major Superiors of Men, organização que representa os chefes de ordens religiosas masculinas nos Estados Unidos, disse acreditar que a maioria das dioceses nos Estados Unidos tem diretrizes sobre como um seminarista deve denunciar alegações de má conduta sexual, que geralmente envolvem falar com um diretor espiritual ou um reitor.

Como essas duas posições são frequentemente preenchidas por padres ou outros responsáveis da Igreja - que podem ter poder sobre um seminarista que sofre assédio ou abuso - é necessário vigilância. Ele disse que combater o assédio de seminaristas pelas autoridades da Igreja continua sendo um desafio contínuo.

“Ainda precisamos trabalhar nisso? É claro que sim. Só porque temos políticas e treinamentos não significa que não continua acontecendo”, disse o Padre McGlone à America.

Segundo McGlone, comportamentos inadequados ainda estão ocorrendo, mesmo décadas depois de novos programas de formação humana terem sido instituídos em seminários por insistência do Vaticano.

"Eu já vi formadores agirem inadequadamente, e pessoas serem removidas por isso. Está no jornal? Não. Está acontecendo? Sim", ressaltou McGlone.

Ele disse que as violações podem incluir a invasão dos limites físicos, assédio sexual e até agressão sexual. "O que você vê na sociedade, você vê na Igreja", acrescentou.

Tome, por exemplo, Bartolomeu, que era novato numa comunidade religiosa na Inglaterra em 2009, quando um monge mais velho iniciou uma amizade. Segundo ele, isso foi “estimulante”, considerando o quão isolada pode ser a vida num mosteiro. O monge mais velho, que acabara de voltar de um monastério nos Estados Unidos, perguntou sobre a família de Bartolomeu e seus hobbies. Por fim, persuadiu o novato a admitir que era gay. O monge mais velho revelou naquela época que também era homossexual.

Ao longo de algumas semanas, Bartolomeu disse que o monge mais velho cometeu pequenas intrusões físicas que o deixou desconfortável, inclusive tocando o braço e as costas. A certa altura, o monge mais velho convidou Bartolomeu para o seu quarto, violando as regras do mosteiro. Ele então fechou a porta, se sentou na cama e, como lembra o jovem, disse: "Somos apenas seres sexuais".

"Olhando para trás, ele estava me aliciando. A essa altura, tínhamos um relacionamento vagamente confiante e ele estava tentando descobrir quais eram minhas vulnerabilidades”, disse Bartolomeu, que pediu anonimato.

Bartolomeu, que conheci em 2014 e me contou pela primeira vez sobre sua experiência no mosteiro em 2015, disse numa entrevista recente que relatou o assédio quando aconteceu. Ele afirma que enfrentou resistência de membros sênior na hora de levar suas preocupações a sério.

Segundo ele, somente quando um funcionário da escola do mosteiro contatou a diocese, achou que medidas apropriadas haviam sido tomadas, concluídas, com o monge mais velho sendo designado para o Ministério num local afastado do mosteiro. Um porta-voz do mosteiro em questão se recusou a comentar o caso.

Jane Dziadulewicz, que trabalha como consultora em políticas de proteção à criança e que anteriormente ocupou um cargo semelhante para uma diocese católica do Reino Unido, testemunhou no ano passado como parte de um inquérito do governo sobre abuso sexual.

Ela disse que os membros da comunidade onde Bartolomeu era noviço descreveram uma cultura de "intimidação" e quando perguntada se encontrou uma cultura que acreditava que as alegações de abuso e assédio deveriam ser mantidas “em casa”, ela respondeu: "Absolutamente".

Thomas Plante é um psicólogo clínico em Santa Clara, Califórnia, que já entrevistou centenas de padres e seminaristas católicos. Ele disse que houve reticências entre os padres para discutir a sexualidade de uma maneira saudável, o que ajudou a promover uma cultura "propensa ao abuso".

“Nossa Igreja nunca parece estar muito confortável falando sobre sexo ou comportamento sexual - e não apenas entre padres. Eu acho que é sempre desconfortável para os católicos e o mundo em geral falar sobre esse assunto. Quando se trata disso, as pessoas ficam assustadas”, disse Plante.

Segundo ele, o assédio ou abuso geralmente inclui um diferencial de poder que faz a vítima se sentir com pouco controle sobre a situação.

"Nós vemos isso em todo o lugar, onde há um desequilíbrio de poder significativo e alguém de alguma forma é dono de você. Certamente nos seminários é particularmente difícil porque não é um trabalho, e sim uma vida. Não é como se você pudesse dar uma notificação de duas semanas e trocar de emprego", esclareceu Plante.

Os bispos católicos adotaram em 2002 a Carta para a Proteção de Crianças e Jovens. Embora esse documento não incluísse salvaguardas de assédio ou abuso para os seminaristas, trouxe à tona a questão da má conduta sexual na Igreja.

Katarina Schuth, O.S.F., disse à America que desde os anos 90, quando ela encontrou “alguns exemplos” de assédio sexual nos seminários, medidas de segurança adicionais foram postas em prática, incluindo uma ênfase na formação humana.

“Os seminaristas são muito mais bem informados e têm um senso melhor de sua própria integridade”, disse Schuth.

Quanto àqueles que trabalham nos seminários católicos, irmã Schuth, que disse ter visitado todos os seminários nos EUA várias vezes, observou que eles são “cuidadosamente examinados e monitorados”. Embora haja “desvantagens” para o sistema fechado, que são muitas vezes característicos dos seminários dos EUA, onde os padres supervisionam, treinam e frequentemente convivem com os que estudam para o sacerdócio, existem leigos e padres não diretamente associados aos seminários que estão disponíveis para ouvir as preocupações dos seminaristas.

Thomas Reese, S.J., que cobriu jornalisticamente o abuso sexual na Igreja por décadas, disse que os líderes precisam ser mais proativos em ajudar jovens adultos a lidarem com o assédio e abuso na Igreja. (Padre Reese foi o editor-chefe da revista America de 1998 a 2005).

“Todo provincial e bispo religioso deve perguntar aos seminaristas todos os anos se eles foram assediados sexualmente. Muitas pessoas não se apresentam a menos que você pergunte a elas. Há uma obrigação em fazer isso”, disse Reese à America.

Segundo ele, os assediadores geralmente são reincidentes, mas os seus alvos às vezes se sentem isolados e não denunciam o assédio. Os seminaristas podem se encontrar "em uma posição sem poder", disse Reese, quando não há uma estrutura clara para denunciar abusos.

Quando se trata de seminários fora dos Estados Unidos e Europa Ocidental, é necessário mais dedicação para se obter diretrizes e protocolos claros para adultos na Igreja que sentem ter sido vítimas de assédio ou abuso sexual.

“Eu sei pela minha experiência ao redor do mundo que este não é o caso em muitos lugares atualmente, em que falar sobre sexualidade em público faz você se sentir envergonhado”, disse Hans Zollner, SJ, que lidera o Centro de Proteção Infantil da Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma à America numa entrevista recente.

A irmã Schuth concordou, acrescentando que se um Padre for treinado e ordenado em outro país e se muda para os Estados Unidos, é possível que “eles precisem ser orientados” sobre as expectativas culturais aqui, especialmente “em relação às mulheres".

Quanto a Bartolomeu, que deixou o mosteiro, disse que embora tivesse o apoio de seu mestre de noviciado, não estava claro como deveria lidar com a situação e que ele estava chateado, pois quando relatou o que tinha acontecido, encontrou resistência.

"Com quem o abusado deve conversar? Essa é uma questão que as comunidades religiosas precisam resolver", afirmou o jovem.

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