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13 Julho 2018

Juan Carlos Cruz relata o pedido de desculpas do Papa, em discurso no evento da Rede de Sobreviventes de Abuso Sexual por Sacerdotes

A reportagem é de Brian Roewe, publicada por National Catholic Reporter, 11-07-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla

Em um sábado com neve em abril, Juan Carlos Cruz estava na região onde nasceu, apreciando uma manhã tranquila na cama, assistindo Netflix e comendo cereal de mel, quando recebeu uma chamada do Vaticano.

A pessoa do outro lado da linha disse que estava entrando em contato com Cruz em nome do Papa Francisco, que queria pedir desculpas pessoalmente a ele e a outras vítimas de abuso. Francisco tinha os acusado de "calúnia" a respeito das acusações dos sobreviventes contra o bispo Juan Barros Madrid, de Osorno, no Chile, de ter encoberto e até mesmo testemunhando abuso sexual de menores cometido pelo padre Fernando Karadima.

A controvérsia de Barros dominou a viagem de Francisco ao Chile em janeiro e continuou perseguindo o Papa quando ele voltou a Roma. Desde então, fortes críticas do mundo todo impulsionaram uma investigação do Vaticano sobre a crise de abusos no Chile, que, por sua vez, resultou na renúncia de quase todos os 34 bispos do Chile. Até agora, o Papa aceitou cinco delas, bem como a de Barros.

Foi a investigação, realizada em fevereiro pelo Arcebispo de Malta, Charles Scicluna, e o relatório subsequente que levaram o Papa a estender o convite a Cruz e outras duas vítimas, José Andrés Murillo e James Hamilton. "Como bom católico", disse Cruz, que é comunicador, normalmente ele aceitaria. Neste caso, porém, ele decidiu se abster.

"A menos que ele me desse um sinal considerável, eu não ia aceitar", relatou que teria dito à pessoa que ligou, postura essa que Cruz acrescentou que as outras vítimas também endossariam.

Quatro dias depois, Francisco enviou uma carta aos bispos chilenos, dizendo: "Peço desculpas a todos os que ofendi" pelos "erros graves na minha percepção e avaliação da situação", convocando todos os prelados de Roma.

Com isso, Cruz, Hamilton e Murillo também decidiram ir ao Vaticano encontrar o Papa.

Na primeira noite da conferência anual da Rede de Sobreviventes de Abuso Sexual por Sacerdotes, Cruz contou em detalhes o "ano louco" que teve. A conferência, realizada de 6 a 8 de julho no centro de Chicago, marcou 30 anos desde a fundação da rede.

Como não pôde comparecer, Cruz começou o vídeo de cerca de 40 minutos exibido na conferência expressando sua gratidão a "alguém por quem tenho grande estima" — a fundadora da rede, Barbara Blaine, que faleceu em setembro de 2017, sete meses depois de ter renunciado ao cargo que tinha na organização.

"Há tantos adjetivos e tantas coisas que eu poderia dizer sobre Barbara. Certamente sua coragem, inteligência e grandeza estão sempre presentes na minha vida”, disse Cruz.

Em certa altura, ele mostrou um cartão em memória de Barbara que ele carrega consigo que tem uma frase do Papa Paulo VI com os seguintes dizeres: "Se queres paz, trabalha para a justiça". Durante a conversa, Cruz enfatizou que sua história não se tratava só dele ou das vítimas de abuso do Chile, mas de todos os que passaram por tal situação, “para que juntos possamos buscar justiça e acabar com esse horror dos casos de abuso e acobertamento dos bispos da Igreja".

Em sua fala, ele se questionou como conseguiu sobreviver aos últimos seis meses sem os conselhos de Blaine, "pois quem diria que em janeiro o Papa Francisco teria me chamado de mentiroso diante do mundo inteiro?"

Durante a visita ao Chile, Francisco reiterou por diversas vezes sua defesa a Barros, acusado por vítimas de abuso de ter acobertado e não ter denunciado a sequência de abusos de Karadima. Cruz disse que Barros, quando ainda era padre, tinha visto Karadima abusar dele. Barros, nomeado bispo por Francisco em 2015, negou as acusações. Em 2011, o Vaticano condenou Karadima a uma vida de oração e penitência.

"Não conseguia acreditar no que ouvia", disse Cruz sobre a cobertura das observações de Francisco na TV, relatando que sentiu um misto de tristeza, raiva e surpresa ao ouvir as palavras do Papa. Mas ser considerado mentiroso não era novidade para ele, observou, diante das quase 100 pessoas que estavam presentes na conferência.

A ligação que recebeu do Vaticano em abril não foi a primeira.

Semanas depois dos comentários do Papa de que se tratava de "calúnia”, um monsenhor ligou em nome de Scicluna, que é especialista da crise de abusos da Igreja e foi nomeado por Francisco no dia 30 de janeiro para coordenar uma investigação sobre o que estava acontecendo no Chile. A investigação pedia que Cruz testemunhasse. Para não retornar ao Chile, Cruz sugeriu que o testemunho fosse dado por Skype. O monsenhor concordou e disse que iria localizar uma paróquia para a reunião virtual: "Tem que ser em uma paróquia", foi o que Cruz relatou que lhe disseram.

Dias depois, o telefone tocou mais uma vez — de Malta, a Arquidiocese de Scicluna — a respeito da investigação. Disseram a Cruz que o Papa não queria que ele testemunhasse por vídeo, e que Scicluna encontraria Cruz onde ele estivesse. Foi combinado, portanto, que seria no dia 17 de fevereiro, na igreja do Santo Nome de Jesus, em Nova York.

Lá, Scicluna e Cruz conversaram durante quatro horas, o que Cruz descreveu como uma experiência "dolorosa" na qual "abri meu coração" sobre sentimentos que sabia que não eram estranhos ao público de Chicago. Assim como eles, ele já tinha contado sua história a autoridades da Igreja antes, mas nunca sentiu que era de verdade. "Mas desta vez foi diferente", disse Cruz.

"Me senti ouvido pela primeira vez. Senti que alguém queria fazer alguma coisa", observou.

Depois do encontro com Scicluna, Cruz entrou em contato com outros sobreviventes no Chile para descrever sua experiência e incentivá-los a testemunhar também. Ele sabia que eles teria uma posição cética a respeito da investigação, com pouca confiança nos bispos chilenos que Cruz considera "dentre os mais corruptos das conferências episcopais do mundo todo". Sessenta e quatro pessoas acabaram colaborando com a investigação de Scicluna com seu relato, o que gerou um relatório de 2.300 páginas.
"Eu sabia que chegaríamos a algum lugar", disse Cruz.

Depois de Cruz, Hamilton e Murillo também concordaram, no início de abril, em aceitar o pedido de Francisco para encontrá-los e buscar seu perdão. Os três estavam determinados a não permitir que a visita ao Vaticano fosse um golpe de relações públicas. Elaboraram uma lista de condições e compartilharam com o Papa, e "ele concordou com todos os itens", disse Cruz.

No final de abril, os três viajaram para o Vaticano e cada um ficou num andar diferente da residência de Francisco, a casa de hóspedes da Casa Santa Marta. Em quatro dias, de 27 a 30 de abril, eles se reuniram com o Papa por duas ou três horas, individualmente, antes do encontro em grupo, que durou duas horas.

"Eu disse: 'Santo Padre, não podemos deixar isso continuar nem por mais um dia. Está em suas mãos fazer alguma coisa'. Ele concordou."

No caso de Cruz, Francisco começou o encontro se desculpando. "Senti que era muito, muito sincero", disse Cruz.

No período em que estiveram com Francisco, os três tentaram não se concentrar em suas histórias individuais, mas transmitir o âmbito de “epidemia” global dos casos de abuso sexual clerical, que tem muitos sobreviventes buscando justiça, afirmou Cruz. "Isso é crime, e nós dissemos com todas as letras."

"Eu disse: 'Santo Padre, não podemos deixar isso continuar nem por mais um dia. Está em suas mãos fazer alguma coisa'”, acrescentou Cruz. Ele concordou."

Alguns bispos também surgiram nas conversas, como o cardeal Francisco Errázuriz Ossa, o arcebispo aposentado de Santiago e um membro do Conselho dos Cardeais do Papa.

Quando conversou com jornalistas, em Roma, após a reunião, Cruz disse que contou ao Papa que Errázuriz e seu sucessor, o cardeal Riccardo Ezzati, o odiavam, e Hamilton mencionou que os dois tinham encoberto casos de abuso. Errázuriz já tinha dito que considerar as acusações contra Karadima como credíveis era um erro.

Cruz disse que o encontro com Francisco foi "duro", "cansativo" e "um peso enorme", pois os três tentaram falar em nome de todos os sobreviventes, bem como os que continuam sofrendo em silêncio. Depois, no mesmo mês, um segundo grupo de vítimas chilenas se reuniu com o Papa.

"Não foi divertido, mas me trouxe a paz de saber que eu poderia fazer algo por mim e pelos outros", afirmou.

Duas semanas depois do encontro com Francisco, foi a vez dos bispos chilenos.

"Eles agiram para parecer que haviam renunciado por conta própria. ... Não, nós sabemos que não, foi pedido que eles renunciassem”.

De acordo com Cruz, os bispos não ficaram na Casa Santa Marta, mas numa casa destinada ao clero fora do Vaticano. No primeiro dia, Francisco teve um breve encontro com os bispos, relatou Cruz, e entregou um documento de 10 páginas com instruções de oração. Após reuniões curtas com o Papa, no segundo dia, os bispos anunciaram a renúncia em massa no terceiro dia. Embora tenham declarado numa conferência de imprensa que a decisão foi sua, Cruz insistiu que não era bem isso.

"Eles agiram para parecer que haviam renunciado por conta própria. ... Não, nós sabemos que não, foi pedido que eles renunciassem”, declarou.

Depois que o documento que Francisco deu os bispos vazou e foi publicado pelo canal de TV chileno T13, Cruz disse que era "incrível ver" muito do que eles disseram a Francisco no texto.

Para ele, a demissão em massa era “uma vitória para todos os sobreviventes". Observou, ainda, o ritmo das ações tomadas por Francisco, em uma Igreja que historicamente se movimenta lentamente. Até agora, Francisco já aceitou cinco pedidos de renúncia.

"E eu sei que há muitos mais para vir", disse Cruz.

Ao concluir o discurso, Cruz disse que o papel dos sobreviventes de qualquer lugar continua sendo responsabilizar os bispos, acrescentando que os que detêm o poder na Igreja "não percebem que já abriram as comportas. O que está acontecendo no Chile é um modelo para o mundo."

"Não quero pensar que o problema esteja resolvido, porque é grande demais, e o povo já sofreu muito para sequer pensar que está resolvido", disse. "Mas acho que é uma nova era, e as pessoas podem se referir à situação chilena como um precedente. Existe um precedente."

"Temos um lampejo de esperança, e vamos usá-lo."

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