Papa quer ''Igreja profética'' no Chile, mas o que isso significa?

Revista ihu on-line

China, nova potência mundial – Contradições e lógicas que vêm transformando o país

Edição: 528

Leia mais

Ore Ywy – A necessidade de construir uma outra relação com a nossa terra

Edição: 527

Leia mais

Sistema público e universal de saúde – Aos 30 anos, o desafio de combater o desmonte do SUS

Edição: 526

Leia mais

Mais Lidos

  • Papa readmite os bispos chineses “ilegítimos” e cria uma diocese na China

    LER MAIS
  • Brasil tem a maior biodiversidade de árvores do mundo. Das 8 mil espécies encontradas no país, mais de 2 mil estão ameaçadas

    LER MAIS
  • Parolin: “Hoje, pela primeira vez, todos os bispos chineses estão em comunhão com o Papa”

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

06 Junho 2018

Enquanto o Papa Francisco lida com a magnitude da crise dos abusos no Chile, que não se centra apenas no abuso sexual generalizado, mas também nos abusos de consciência e de poder, ele repetidamente tem chamado a Igreja chilena a recuperar a sua identidade “profética” – o que, presumivelmente, significa que ela tinha essa identidade antes e, em algum momento ao longo do caminho, a perdeu.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada em Crux, 05-06-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A pergunta óbvia é: o que significa exatamente ser uma Igreja “profética”? Embora as pessoas pareçam concordar em algumas linhas gerais, os detalhes muitas vezes estão no olho de quem vê.

O leigo Alexis Parra, da Catholic Voices Chile, disse ao Crux que, para a Igreja ser profética, ela tem que “anunciar a Boa Nova; denunciar as estruturas de pecado, que hoje atingiram a Igreja chilena em todos os seus níveis; [e] interceder através da oração, particularmente com a Eucaristia, que é fonte e ápice da vida cristã”.

Em outras palavras, disse ele, uma Igreja profética não é apenas aquela que diz: “Vem, Senhor”, mas também aquela que “nunca se esquece de que a sua vida deve ser ‘por Cristo, com Cristo e em Cristo’”.

No entanto, quando Francisco disse aos bispos chilenos – há duas semanas, em uma carta que devia ser confidencial, mas que, mesmo assim, vazou para a mídia – que a Igreja chilena perdeu sua margem “profética”, outros católicos locais deram um significado diferente, até mesmo político, para isso.

Jesus e os outros no centro

No contexto chileno, a ideia de uma “Igreja profética” é normalmente usada para falar da Igreja dos anos 1960 até os anos 1980, um período que terminou após a morte de um cardeal que alguns viam como uma figura maior do que a pessoa, Raúl Silva Henríquez. Ele atuou como arcebispo de Santiago de 1961 a 1983 e foi elevado ao cardinalato em 1962. Ele é reverenciado por ter defendido os pobres e enfrentado a ditadura de Augusto Pinochet.

No entanto, para cada pessoa pronta para elogiá-lo, há outra que deseja desmascarar aquilo que considera como um mito.

No primeiro caso, há pessoas como o reitor da Universidade San Alberto Hurtado, administrada pelos jesuítas, padre Eduardo Silva.

Uma Igreja profética, disse ele ao Crux, é aquela que “sabe colocar Jesus no centro, que fala sobre Aquele que vem, não sobre si mesma. A Igreja dos últimos anos no Chile centrou-se em si mesma”.

Silva Henríquez confrontou Pinochet, foi um sinal de uma Igreja que colocou no centro as vítimas das violações dos direitos humanos, os desaparecidos [pelo regime]”, disse o padre jesuíta. Naquela época, argumentou, a Igreja Católica no Chile defendia a todos, incluindo “pessoas da esquerda e comunistas”, independentemente de sua filiação religiosa.

“É por isso que a Igreja é profética, porque coloca os outros no centro, e não a si mesma”, insistiu.

Falando com o Crux por telefone, Silva disse que o problema chileno começou com as mudanças na Conferência Episcopal, e ele acredita que São João Paulo II e o cardeal Joseph Ratzinger (depois Papa Bento XVI) tiveram um papel-chave, “reorientando a Igreja chilena” como parte de um plano para interpretar o Concílio Vaticano II em uma “direção oposta à daquela Igreja profética”.

João Paulo II nomeou muitos bispos [no Chile] que eram administradores, não pastores. Mas, por outro lado, ele não tinha um bom grupo de candidatos para escolher.”

Além dos defeitos perceptíveis no episcopado, Silva também apontou para o fim do regime militar no Chile. Enquanto o país tentava “reconstruir a democracia, fornecer a verdade e a justiça sobre questões dos direitos humanos e tentar crescer de forma igualitária”, João Paulo II nomeou Carlos Oviedo Cavada como arcebispo de Santiago, que Silva descreveu como “um homem conservador preocupado com a moral sexual”.

De acordo com o padre, a Igreja “passou uma década tentando impedir a lei do divórcio no Chile, lutando com uma sociedade liberal, banindo os preservativos, criticando as práticas sexuais dos chilenos a partir de uma perspectiva conservadora. Esse segundo ato é trágico: descobrir que, debaixo da batina, as mesmas coisas que chamamos de escândalos também estavam sendo cometidas [pelo clero], com perversões ainda piores”.

Encontrar bispos “conservadores” foi uma estratégia que, segundo Silva, foi facilitada pelo cardeal Angelo Sodano, que atuou como núncio papal no Chile de 1977 a 1988 e que, mais tarde, se tornou secretário de Estado de João Paulo II.

“Era a troika: enquanto João Paulo II se banhava nas multidões e conquistava a humanidade com suas viagens apostólicas e suas palavras marcantes, o controle ideológico estava nas mãos de Ratzinger, e o governo político estava nas mãos de Sodano”, disse Silva, acrescentando que “homens marcantes” nunca foram tornados bispos, porque, por exemplo, expressavam dúvidas sobre a Humanae vitae, a encíclica do Papa Paulo VI de 1968 que defendia o ensino da Igreja em oposição à contracepção artificial.

O jesuíta acusou que o fato de não permitir que uma mulher casada tomasse a pílula do dia seguinte – que as empresas farmacêuticas reconheceram que pode produzir abortos – é um “abuso de consciência”, porque ele acredita que “outros bispos teriam sido capazes de lidar com esses problemas de abuso sexual, de abuso de poder e de abuso de consciência de uma maneira diferente. Mas, em uma Igreja temerosa e conservadora, é mais possível ter esse controle do poder e da consciência”.

O medo da radicalização da Igreja

O leigo Juan Claret Pool, porta-voz dos leigos de Osorno, concorda com Silva, dizendo que a crise da Igreja chilena não é de responsabilidade de Francisco, mas sim dos papas anteriores: “Hoje, o elitismo da Igreja é criticado, culpando-se os bispos. [Francisco] diz isso na carta que vazou para a mídia há algumas semanas”.

No entanto, “perguntamos: ‘Por que vocês estão os censurando por isso, se é exatamente por isso que eles foram escolhidos?”.

De acordo com o leigo, quando João Paulo II foi ao Chile em 1987, ele teve uma experiência em primeira mão da “Igreja popular” e “ficou preocupado com uma possível radicalização da Igreja”. Ele acredita que os bispos responsáveis pela crise em curso coincidem com as nomeações que ocorreram após a visita, e ele também aponta para Sodano pela sua responsabilidade na escolha dos bispos.

“Muitos de nós são céticos, porque tudo está centrado em como os gladiadores fizeram coisas erradas, mas ninguém está questionando o César que os levou ao Coliseu”, disse Claret ao Crux.

Claret, contudo, também culpa Francisco pelo sofrimento do povo da diocese de Osorno, dizendo que isso poderia ter sido evitado se o pontífice tivesse aceitado a renúncia de Dom Juan Barros em uma das duas vezes que o prelado a apresentou. O prelado foi transferido pelo pontífice para essa diocese do Sul em 2015 e, apesar dos avisos e dos protestos, o papa decidiu mantê-lo no mesmo lugar.

Uma Igreja conservadora e “abusiva”

Do outro lado, estão aqueles que, reconhecendo o desafio profético de Silva Henríquez ao governo militar, acreditam que ele deixou muito a desejar em outras áreas, inclusive na escolha das pessoas com quem se cercava.

Agora, por exemplo, dois dos colaboradores mais próximos do cardeal receberam denúncias sobre abuso sexual. O Pe. Cristian Precht foi considerado culpado, e muitas acusações surgiram contra o Pe. Miguel Ortega, que morreu antes que as denúncias fossem investigadas.

O padre chileno Samuel Fernández, que pertencia à união sacerdotal antigamente dirigida pelo padre pedófilo Fernando Karadima, mas que hoje se descreve como uma vítima do abuso de poder e de consciência cometido pelo padre, disse ao Crux que ver a Igreja chilena como profética até os anos 1980, quando “algo aconteceu” a ponto de torná-la “abusiva” nos anos 1990, “não funciona”.

Primeiro, disse, porque elas são “a mesma Igreja e, segundo, porque elas são simultâneas”.

“Há um risco de pensar que os abusos estão relacionados a uma eclesiologia conservadora”, disse. “Infelizmente, o abuso atravessa essas linhas.”

Outra das vítimas sacerdotais de Karadima, que conversou com o Crux de forma anônima, disse que Silva Enríquez manteve uma Igreja profética no ambiente social, “que é um elemento na vida da humanidade, o da pobreza e da injustiça social”, mas, insistiu, é a mesma Igreja que permitiu que pessoas com uma “humanidade corrompida” fossem abusivas.

Essa fonte disse ter evidências suficientes para sustentar não só que havia abusadores sexuais ao redor do cardeal, mas também outros clérigos que sabiam dos abusos e não fizeram nada, e ainda outros que “usaram o poder de uma forma doentia para exercer sua influência com atitude mafiosa”.

“Para mim, uma Igreja profética é aquela que tem em seu núcleo Jesus Cristo que se fez homem”, disse. “Isto é, um homem em sua dimensão integral. Um profeta que é ideologizado em uma área de sua pessoa humana e se centra apenas nisso é um profeta doente.”

“A profecia é corajosa o suficiente para ir contra a maré, não importa o que aconteça, defendendo a pessoa humana em todos os seus aspectos”, disse essa fonte.

Mudança estrutural

No Chile, disse Fernandez, os abusos ocorreram tanto em lugares muito conservadores quanto muito progressistas.

“Isso, creio eu, é um chamado a olhar mais profundamente para as causas”, disse Fernandez, “porque é um fenômeno que está presente em diferentes culturas no ambiente eclesial, o que significa que é necessária uma mudança estrutural.”

Ele acredita que os abusos sexuais clericais estão relacionados ao abuso de poder e à manipulação da consciência, mas também há outras causas, como o fato de não levar a sério o que a ciência e a psicologia dizem sobre o assunto, substituindo-as pela espiritualidade, que, embora seja “necessária”, disse ele, não é suficiente.

Outra causa para o abuso e o acobertamento, disse, que não tem nenhum viés ideológico, é uma tendência de silenciar e de ocultar as denúncias a fim de “defender, guardar o prestígio da instituição, seja para manter certos privilégios, seja para defender os mais pobres”.

“Querer proteger o prestígio da instituição nos levou a negligenciar o valor dos seres humanos”, disse Fernandez.

Até hoje, argumentou, há quem diga que “o abuso sexual causou um grande dano à Igreja”. Ele concorda, mas insiste que “o maior dano foi causado às pessoas que foram feridas, prejudicadas pelo abuso. Tratou-se de poder e, depois, de varrer as coisas para debaixo do tapete, para que a Igreja pudesse continuar tendo uma boa imagem”.

Clericalismo e moralismo

Falando com o Crux em Roma, o jesuíta alemão Hans Zollner, membro da Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores, concordou em parte, dizendo que, no fundo, o abuso sexual não é uma questão de “liberais versus conservadores”, e que essa divisão não é útil.

“Eu vejo pessoas de ambos os lados que estão muito envolvidas e comprometidas com a salvaguarda e que fazem o que pode ser feito para fazer justiça às vítimas”, disse. “E vejo relutância em ambos os lados em intervir de maneira apropriada, em tempo hábil e de modo consistente, quando as denúncias surgem e quando o contato com as vítimas é um ponto importante de todo esse procedimento.”

Mas ele também disse que as atitudes clericalistas que podem estar por trás dos abusos, às vezes, como no caso chileno, florescem melhor em um ambiente tradicional e fortemente conservador.

“A mentalidade de fortaleza é encontrada mais frequentemente em um ambiente conservador”, disse o especialista. “O que vimos no caso Karadima, especialmente, é uma abordagem muito moralista, que, estranhamente, depois se combina com uma abordagem absolutamente imoral em relação às pessoas. Isso é impressionante.”

“Alguns dos que pretendem defender a Igreja e a sua doutrina comportam-se de modo flagrantemente contraditório, destruindo, assim, a credibilidade da Igreja”, afirmou.

Nada disso pode solucionar completamente aquilo que Francisco tem em mente quando chama a Igreja chilena a ser “profética”, mas, pelo menos, implicaria que, seja qual for o seu significado, não se trata exclusivamente de uma política “direita versus esquerda”.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Papa quer ''Igreja profética'' no Chile, mas o que isso significa? - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV