Rede de vítimas de abusos sexuais completa 25 anos e mira novos objetivos

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06 Agosto 2014

Quando as primeiras vítimas de abusos sexuais cometidos por padres católicos se organizaram em um pequeno grupo de ativistas voluntários no fim da década de 1980, os relatos de sacerdotes que molestavam crianças ainda eram relativamente novos e poucos. Em sua maior parte, as denúncias foram minimizadas como sendo anomalias e deixadas de lado, muito semelhante à forma como as vítimas se encontravam.

A reportagem é de David Gibson, publicada por Religion News Service, 01-08-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Mas hoje, quando a Rede de Sobreviventes de Abusados por Padres – SNAP (na sigla em inglês) marca o seu 25º aniversário com uma conferência entre os dias 1 e 3 de agosto em Chicago, os membros podem se dizer satisfeitos ao ver que suas reivindicações foram validadas, e algumas de suas recomendações foram implementadas pela hierarquia da Igreja.

Em vez de enfrentar constantes ataques verbais e paroquianos furiosos ocasionais cuspindo neles durante os protestos realizam, os membros da SNAP atualmente têm mais chances de receberem um aperto de mão e palavras de agradecimento e, talvez, até mesmo doações.

A defesa feita pela SNAP nos escândalos católicos também ajudou a trazer presente a realidade dos abusos sexuais à consciência pública a ponto de que as vítimas possam, de forma regular, vencer nos tribunais e ter a atenção da mídia. Hoje o público tem muito mais chances de se apresentar para contar suas histórias, quer tenha sido abusado pelo clero, por treinadores esportivos ou por líderes escoteiros.

No entanto, este sucesso igualmente está trazendo à SNAP um novo desafio na medida em que se olha para o futuro: Como responder a uma enxurrada de novas investigações de vítimas de outras igrejas e instituições? E como pressionar por mudanças além dos recintos familiares da Igreja Católica?

“Continuamos crescendo, e a maior parte deste crescimento vem do exterior e de abusos institucionais não católicos, em sua maior parte de instituições religiosas, mas com um número surpreendente de casos seculares também”, diz David Clohessy, diretor nacional da SNAP.

Os pedidos de ajuda feitos à Rede de Sobreviventes de Abusados por Padres têm crescido tanto – desde alunos abusados por professores a vítimas do ex-técnico Jerry Sandusky, do time de futebol americano da Universidade Estadual da Pensilvânia – que foi preciso estabelecer subsedes específicas (chamadas capítulos) para vítimas de igrejas que não a Igreja Católica e para aqueles que sofreram abusos nos escoteiros ou em viagens missionárias.

“Não há dúvida de que a resposta das vítimas católicas empoderaram as vítimas em outras denominações e em outros grupos”, disse o Pe. Thomas Doyle, sacerdote dominicano e canonista que tem sido um dos defensores mais atuantes das vítimas e uma voz crítica contra a hierarquia.

“Eles buscam a SNAP porque esta é uma organização internacionalmente reconhecida”, diz. Ainda que grupos de defesa de outras comunidades – tais como a Ortodoxa Oriental, as Testemunhas de Jeová ou da Igreja Batista – surgiram ao longo dos anos, “nenhum deles está no mesmo nível da SNAP”, acrescentou.

Entretanto, este sucesso traz também novos obstáculos, tais como descobrir as dinâmicas de poder e os pontos de pressão dos grupos religiosos e seculares que se organizam de forma um tanto diferente da Igreja Católica.

De fato, até mesmo um dos mais fortes apoiadores da SNAP se pergunta quanto à necessidade de se recalibrar a abordagem que eles dizem ser tão intransigente a ponto de poder ser contraprudocente.

Clohessy, abusado por um padre quando criança e cujo irmão foi acusado de abuso antes de deixar o sacerdócio, disse que as pessoas de fora têm dificuldade de apreciar o quanto a postura linha-dura da SNAP é impulsionada pela experiência de abuso e pelo conhecimento de que os abusos continuam.

“Tenho certeza de que poderíamos ser mais eficientes, de alguma forma”, diz Clohessy, 58. Mas acrescenta em seguida: “fazemos um desserviço incrível às crianças quando repetidamente damos às autoridades eclesiais qualquer chance de dúvida”.

Para os membros da SNAP, a principal preocupação está mais na estratégia do que na questão do dinheiro. Na verdade, a SNAP sempre existiu como se fosse uma montanha-russa.

O grupo foi fundado no fim da década de 1980, poucos anos depois que algumas histórias publicadas pelo National Catholic Reporter e Jason Berry sobre abusos clericais em Louisiana começou a tirar o véu de segredo sobre os abusos sexuais de crianças pelo clero católico.

Na medida em que apareciam as reportagens, Barbara Blaine, advogada e assistente social que tinha sido molestada por um padre quando vivia em Toledo, Ohio, começou contatar outras vítimas, publicando anúncios e pedindo a promotores e advogados para colocá-la em contato com suas clientes.

Logo se desenvolveu um grupo inicial composto por poucos milhares de pessoas, principalmente vítimas, que se encontravam em pequenos grupos de apoio enquanto também tentavam trazer a questão para a agenda pública. Foi um trabalho árduo em face da indiferença pública e da hostilidade.

Então, em janeiro de 2002 o jornal The Boston Globe começou a sua série inovadora de denúncia dos abusos generalizados de acrianças por padres na Arquidiocese de Boston e do acobertamento pelos bispos. A história pegou fogo e levou a revelações semelhantes em todo o país e a uma cobertura midiática, processos, ações judiciais e pagamentos bilionários num nível sem precedentes.

“Passamos de uma organização que não conseguia chamar atenção às suas reivindicações para uma que não conseguia dar conta de sua demanda”, diz Clohessy.

As adesões à SNAP decolaram e agora conta com mais de 19 mil membros, com 60 capítulos nos EUA e exterior. Em meados de 2002, Clohessy foi contratado como o primeiro funcionário pago do grupo, e Blaine, a presidente, foi a segunda; hoje há outro funcionário de tempo integral, além de dois administradores em tempo parcial, sem contar uma miríade de voluntários.

O problema é que o registro anual de receita da organização não é nada bom.

Analisando a partir de 2002, a receita anual foi de quase nada a algo próximo de 1 milhão em 2006, em sua maior parte com doações feitas por vítimas que ganharam em processos judiciais. Porém as doações oscilaram bastante depois disso, incluindo uma baixa de aproximadamente 350 mil dólares em 2010, quando a SNAP enfrentava uma série de confrontos judiciais caros contra bispos católicos no Missouri.

(Hoje, a renda anual fica em torno de 700 mil dólares, com muitas pequenas doações vindas de católicos leigos e com grandes somas feitas por vítimas e advogados de acusação, diz Clohessy.)

Na atualidade, a SNAP tenta estabilizar o fluxo de doações de forma que a organização possa abordar com mais eficiência as novas demandas dos mais diversos lugares.

Mas nem todos estão convencidos de que a SNAP deveria ampliar, tão rapidamente, o seu foco, não mais se centrando na questão católica apenas.

Berry, jornalista e principal palestrante na conferência da SNAP que aconteceu no início desta semana, disse que o grupo está cometendo um erro ao não aproveitar o chamado do Papa Francisco para se engajar junto ao Vaticano tendo em vista algumas reformas estruturais, as quais poderiam realizar muitas das demandas pendentes da SNAP.

“Acho que a SNAP faz um desserviço a si mesma ao constantemente criticar [o Papa Francisco] e ao dizer que nada mudou”, afirma Berry, fazendo notar que a SNAP classificou o encontro do papa com vítimas de abusos, ocorrido em junho, como uma “autopromoção” e mera “relações públicas”.

Berry disse também que “há um risco ao se tornar um movimento ecumênico de sobreviventes de abusos”, porque isso pode “diluir o foco” numa conjuntura crítica.

“A situação em que eles estão agora tem menos a ver com ramificar-se num sentido ecumênico – tão louvável e importante quanto possa ser – do que ter um sentido claro de condução da mudança na Igreja Católica. Isso envolve aprender como negociar, e isso não faz parte exatamente de seu conjunto de habilidades”.

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