“Estamos trabalhando com um modelo de saúde pública equivocado”. Entrevista com Jaime Breilh

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09 Abril 2020

O reconhecido especialista equatoriano, Jaime Breilh, revisa a pandemia do coronavírus com outros olhos, colocando o foco na forma de produção de alimentos, na relação com a natureza e as condições de vida provocadas pelo capitalismo. “Estamos trabalhado com uma bússola equivocada”, afirma.

Breilh se destaca por suas pesquisas em um campo particular da epidemiologia, chamado epidemiologia crítica, e por sua análise sobre as determinações sociais da saúde.

Nesta entrevista - de seu Equador natal, e em tempos de pandemia -, o especialista apresenta sua visão sobre as diferentes arestas do fenômeno global que assistimos em nosso isolamento social preventivo.

A entrevista é publicada por Canal Abierto, 07-04-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Qual é o seu ponto de vista para compreender a dinâmica desta pandemia global?

Pertenço a uma tradição acadêmica crítica em saúde e estamos trabalhando há tempo em uma visão distinta da epidemiologia, que chamamos de epidemiologia crítica. Ela é distinta daquela que se aplica nos sistemas convencionais, que chamamos de saúde pública. Eu não tenho nada a reparar em relação ao que a institucionalidade pública faz na saúde. Acredito que é um dos recursos importantes para enfrentar essa epidemia.

Contudo, acredito que é necessário introduzir a análise da saúde pública e, neste caso, de uma pandemia, no marco interpretativo de uma visão integral, de uma ciência que conecte as coisas que costumam estar desconectadas na análise convencional, que não trabalhe somente com as expressões epidêmicas ou pandêmicas, que não veja apenas a ponta do iceberg, mas que veja todo o processo de geração.

Qual seria essa análise nesta crise?

Penso que esta pandemia da COVID-19 é uma crise que desnuda as realidades do sistema global econômico e da civilização moderna porque tem certas características que tornam evidente o que não apareceu em pandemias anteriores. Esta crise também desnuda alguns silêncios que correspondem a pensar a saúde não como efeito que se manifesta nas pessoas doentes ou nos casos de morte, mas em saber o que é e como se gerou esta pandemia. Finalmente, o que é esta pandemia, que lições nos deixa nesta emergência, e o que nos diz para o futuro.

Tenho quatro argumentos principais: que nas pandemias do século XXI - ou seja, aquelas que vieram como formas virais, vírus de recombinação genética - estas formas virais, como é o caso da COVID-19, são apenas um dos componentes de um verdadeiro tsunami das chamadas doenças emergentes desta época ou re-emergentes, muitas das quais possuem maior letalidade que a própria pandemia do coronavírus. Mas que não são visíveis ou não geram pânico porque não foram levadas em conta, porque não forçam a interromper a vida econômica com uma quarentena generalizada.

Estamos falando de uma pandemia que sem ser a de maior letalidade, por sua considerável mortalidade, sua globalização tão rápida e também porque ainda não existem vacinas, nem um conhecimento completo do quadro clínico que gera, tomou as sociedades, inclusive as sociedades hegemônicas do mundo capitalista, como que navegando em uma embarcação um pouco malfeita, com certas costuras, com vazamentos, sem cartas de navegação conhecidas, com provas e erro. Além disso, estamos trabalhando com uma bússola equivocada, com um modelo de saúde pública equivocado.

Quais são os outros três argumentos?

Em segundo lugar, para poder conhecer o vírus, temos que entender que este tem formas de transmissão e uma configuração de virulência distintas. Ocorrem nas cidades e um pouco mais tarde no campo, mas nas cidades especialmente, com as classes sociais de alta vulnerabilidade, que têm condições de vidas insalubres e têm capacidades de enfrentamento frágeis. Dizemos também que é uma pandemia transclassista: um fenômeno que afetará, a longo e médio prazo, as classes sociais mais depauperadas, os grupos que tenham alguma condição de gênero ou cultural que propiciam vulnerabilidades.

Um terceiro argumento é uma condição de incompetência ou de fragilidade dos aparatos públicos, não só dos recursos que nunca são suficientes em uma pandemia tão grande, nem nas sociedades mais ricas, mas no modo de detectar o problema. De ter uma informação oportuna, rápida, que nos permita atuar de maneira adequada. Além disso, nos toma em um momento em que tudo está delineado para um tipo de visão da saúde, tanto da saúde assistencial, de consultório, como a do hospital, a pública. Está pensado em pessoas, em casos individuais, e não naquilo que gera esses casos individuais. Então, o paradigma da determinação social está ausente ou incompleto e isso cria um vazio de conhecimento que é vital, que é chave para poder responder de uma maneira adequada.

Finalmente, há uma ausência de políticas de equidade e uma falta de articulação com as organizações sociais. Não temos uma visão participativa da resposta à emergência. Temos um sistema vertical institucionalizado onde há uma inteligência limitada da saúde, uma velha vigilância epidemiológica.

Por que há uma bússola equivocada nos sistemas de saúde pública?

Há uma concepção dominante do que é a saúde, que no melhor dos casos se parece como o que a Organização Mundial da Saúde define: “a saúde não é a ausência de doença, mas a condição de completo bem-estar físico, mental, etc.”. Apesar desse léxico, na hora dos fatos nas estruturas institucionais e na forma como se ensina a saúde pública nas universidades, trabalhamos com o que eu chamo de bússola cartesiana. Trata-se daquela ilusão de conhecimento que o paradigma positivista nos traz, que acredita que a realidade de saúde é uma realidade de fragmentos, de partes que se relacionam entre si, como os fatores de risco ou causalidade de doença que se relacionam com alguns efeitos. A bússola cartesiana constrói isto com os dados empíricos da realidade, sem os conectar, sem produzir análises em um contexto de uma sociedade baseada na acumulação de riquezas e na exclusão social sistemática.

Estas pandemias, que eu chamo do século XXI, ocorrem em sociedades onde as condições para a geração de novos vírus se dão em contextos de extrativismo agrícola ou do trabalho com animais em grande escala, em cidades neoliberais feitas à medida do grande capital e não conforme o bem viver das maiorias. Ocorrem em sociedades que estão profundamente segregadas em classes sociais. Há bairros caóticos, de subproletariado, de trabalhadores, de classe média, bairros suntuosos. E há estruturas de mobilidade, padrões de trabalho que são próprios desses modos de viver distintos das classes sociais. E é nesses modos de viver que aparecem as vulnerabilidades, que nos tornam suscetíveis ao vírus e a transmiti-lo. A mesa está servida: um vírus que se origina nestes espaços pode ser transmitido velozmente.

Sociedades imunologicamente mais vulneráveis e propagação do vírus em sociedades mais desenvolvidas, não é um paradoxo?

Lidamos com uma civilização e um sistema capitalista do século XXI, a quarta revolução industrial. Isto significa consequências dramáticas na expansão de uma série de processos destrutivos da vida humana e padrões de desamparo que são marcados por uma sociedade de classes. Esse metabolismo que sempre existiu entre a sociedade e a natureza, por exemplo em uma sociedade camponesa agroecológica ou em uma sociedade ancestral indígena dos Andes, é diferente em uma sociedade onde vai se expandindo um metabolismo altamente destrutivo, que está deixando a vida do planeta por um fio.

Quando se converte a tecnologia, que é um bem comum, em uma aceleração da acumulação e do enriquecimento, deixa de ter efeitos protetores. De um recurso para a vida, passa a ser um recurso para a deterioração dos ecossistemas e as formas humanas.

Então, pela dupla via, as reações epidêmicas vão se tornando cada vez mais perigosas, porque há uma natureza que se torna agressiva e, por outro lado, amplia-se a miséria, a exclusão social e o desespero migratório que geram padrões de vida que não contam com os suportes e as defesas adequadas. E que, por fim, se encarnam nos corpos, nas mentes, não apenas por meio das doenças virais, mas também das vetoriais, como a dengue, a zika, o câncer, a obesidade. Essas pandemias não são visíveis porque não geram pânico, apesar de matarem inclusive mais.

Como está a situação no Equador?

Fiz parte de equipes técnicas e como epidemiologista participo nos meios de comunicação por minha visão crítica. Discordo da visão e o modelo deste governo no Equador, no entanto, para defender o público, a única ferramenta para enfrentar uma pandemia é com uma forte organização do público, preciso ser franco em algumas coisas. Por um lado, não esconder que houve debilidades, mas fazer com que essas debilidades não sejam entendidas como as de um país pequeno, pobre. Embora a letalidade seja alta, não tem nada a ver com a gravidade dos indicadores de outras sociedades, inclusive da norte-americana, graças ao descuido e a incompetência de seu governo. No caso do Equador, estamos falando de 200 mortos por milhão, que é muito mais baixo que nos Estados Unidos e comparável ao Chile. Nos Países Baixos, temos 856 mortos por milhão. Se tomarmos esses indicadores desconectados dentro do modelo da bússola cartesiana, começaremos a ter uma cartografia equivocada das comparações.

Quando se olha com cuidado os setores do litoral, com uma oligarquia como a de Guayaquil, caíram em uma desorganização na pandemia, em que não se pode fazer uma quarentena tão rápida porque há 200.000 pessoas dessa cidade pujante que precisam sair para trabalhar. Tenho que escolher entre morrer pelo vírus ou morrer na rua e isso não é um fenômeno do Equador, acontece no sul da Itália, no Rio de Janeiro. Os trabalhadores do sistema de saúde estão dando a vida. Outro mito que caiu é que a privatização é o único caminho de um sistema de saúde. O que aprendemos é que a única coisa que nos salva de uma pandemia é um forte sistema de saúde não privatizado.

O estado de exceção, a quarentena e a distância social...

Este estado de exceção possui três leituras: política, econômica e epidemiológica. Politicamente é complicado, requer medidas drásticas, a presença da força pública. Economicamente, o estado de exceção é a única maneira de parar a maquinaria do capitalismo da quarta revolução industrial destrutiva, até que se possa organizar uma resposta coletiva e institucional adequada. É preciso parar as migrações, é preciso parar as soluções que o sistema construiu para poder sobreviver, parar com a opulência do 1% da população. Que a saída desta pandemia não seja a que Naomi Klein destaca, em “A Doutrina do Choque”, aproveitar-se do medo para se enriquecer mais, aumentar a desigualdade e a vulnerabilidade epidemiológica.

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