Coronavírus: a ética começa com o reconhecimento das nossas limitações

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26 Março 2020

Esta pandemia nos confronta com os limites da nossa saúde física, dos nossos recursos e do nosso conhecimento. Também pode nos lembrar do que é possível por meio da graça e do amor dos outros e especialmente de Deus.

O comentário é do jesuíta estadunidense Kevin W. Wildes, ex-reitor da Loyola University New Orleans. O artigo foi publicado em America, 24-03-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A pandemia da Covid-19 nos dá, na tradição judaico-cristã, uma oportunidade para relembrar que somos criaturas finitas. Os Estados Unidos têm uma cultura do “poder fazer” que nos levou à Lua, mas podemos ficar impacientes e esperar que as coisas ocorram instantaneamente.

O coronavírus nos coloca frente a frente com a realidade de que temos limitações. Temos um número limitado de leitos hospitalares. Nosso pessoal de saúde é limitado, e o nosso conhecimento, também.

Nossa capacidade de enfrentar a realidade será testada nas linhas de frente, onde os heroicos trabalhadores da saúde enfrentam seus próprios riscos à saúde ao lidarem com a falta de suprimentos e as longas horas de trabalho.

Os estadunidenses não gostam de falar sobre limites. Isso vai contra a nossa mitologia nacional. Mas sempre limitamos os cuidados de saúde ao excluir pessoas do sistema. Antes da aprovação do Affordable Care Act, mais de 44 milhões de estadunidenses não tinham seguro-saúde; mesmo agora esse número é superior a 25 milhões.

Ao enfrentar o coronavírus, precisamos reconhecer outro tipo de limitação: não temos um suprimento ilimitado de respiradores que auxiliam os pacientes mais graves a respirar. Como relata o New York Times, os líderes médicos do Estado de Washington, que tiveram a primeira onda de diagnósticos da Covid-19, “começaram silenciosamente a preparar uma sombria estratégia de triagem que avaliará fatores como idade, saúde e probabilidade de sobrevivência para determinar quem terá acesso a cuidados completos e quem receberá meramente um atendimento de conforto, com a expectativa de que morram”.

“Racionamento” é uma palavra assustadora, mas precisaremos de diretrizes éticas claras sobre como os recursos médicos devem ser alocados. Todo hospital credenciado nos Estados Unidos deve ter um modo formalizado de abordar as questões éticas que surgem quando há escassez de recursos ou de equipe, mas suas diretrizes podem precisar ser atualizadas para levar em consideração os desafios específicos da pandemia do coronavírus.

Os cuidados devem ser dados primeiro às pessoas mais doentes ou àquelas com melhores perspectivas de recuperação? Eles devem ir para quem ter maiores chances? Podemos tirar recursos, como um respirador, de um paciente para ajudar outro?

Ao debater essas questões, também faríamos bem em seguir uma tradição que permita aos pacientes recusar tratamentos médicos que considerem inapropriados. Uma distinção entre meios ordinários e extraordinários se baseia nas escolhas dos pacientes sobre o modo como eles gostariam de viver. Assim, um paciente pode recusar os elementos mais básicos da vida humana, como alimentação ou hidratação. A sabedoria dessa tradição não deve desaparecer em tempos de pandemia.

Essas não são questões fáceis de responder, mas precisamos ser claros sobre as diretrizes que usamos para ajudar os socorristas a fazerem seu trabalho. Não devemos tomar essas decisões no calor dos eventos. Precisamos ser claros, de forma pública, sobre as nossas diretrizes, e essas diretrizes devem ser definidas pelos profissionais da saúde que estão nas linhas de frente.

Essa pandemia também nos lembra que não vivemos sozinhos. Somos seres humanos e vivemos em comunidades uns com os outros. Como nação, devemos ter uma preocupação pelo bem comum. Com muita frequência, pensamos nos cuidados de saúde como se fossem qualquer outro produto de consumo que compramos, quando, ao contrário, os cuidados de saúde estão construídos sobre um modelo de conhecimento sustentado por investimentos e infraestrutura públicos.

Thomas Daschle, ex-senador da Dakota do Sul, William Frist, ex-senador do Tennessee, e Andrew von Eschenbach, ex-comissário da Food and Drug Administration, redigiram uma declaração, recentemente publicada no jornal Roll Call, que destaca a dimensão comunitária dos cuidados de saúde e defende um maior investimento nas infraestruturas de saúde pública dos EUA.

“Estima-se que precisamos de 4,5 bilhões de dólares a mais por ano para preencher a lacuna entre o que gastamos atualmente com saúde pública e o que precisaríamos para garantir que todas as comunidades em todo o país sejam atendidas por um forte sistema de saúde pública”, escrevem.

Esta pandemia nos lembra que a saúde não se limita apenas ao paciente individual. Ela tem a ver com a comunidade. Os EUA não estão enfrentando essa realidade. Nosso sistema de saúde deveria refletir a solidariedade comunitária e os valores éticos cristãos profundamente arraigados.

Nesta pandemia, temos visto exemplos dos extremos do comportamento humano na sociedade. Houve histórias de pessoas acumulando produtos de limpeza e brigando por alimentos nos supermercados. Ao mesmo tempo, vimos exemplos heroicos de médicos, enfermeiros e profissionais da saúde, junto com a equipe de casas de repouso e de vida assistida, arriscando suas vidas cuidando de algumas das pessoas mais vulneráveis. Ambos revelam tendências contrárias dentro do coração humano.

Estamos testemunhando tanto o egoísmo quanto a graça na nossa sociedade, revelando a nossa finitude e os nossos limites. Esta pandemia nos confronta com os limites da nossa saúde física, dos nossos recursos e do nosso conhecimento. Também pode nos lembrar do que é possível por meio da graça e do amor dos outros e especialmente de Deus.

Ao longo de tudo isso, somos lembrados, mais uma vez, de que a Sexta-feira Santa não é o fim da história humana, mas sim um prelúdio teológico para o Domingo de Páscoa e a Ressurreição.

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