A pandemia de Coronavírus (Covid-19) e o pandemônio na economia internacional

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10 Março 2020

"O surto de coronavírus já é muitas vezes maior do que o surto de SARS (Síndrome respiratória aguda grave) que adoeceu 8.098 pessoas e matou 774 antes de ser contida. Além do mais o impacto na economia real é muito maior", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 09-03-2020.

Eis o artigo.

“Historicamente, as tragédias às vezes levaram a mudanças importantes. Os mercados em que os animais vivos são vendidos e abatidos devem ser proibidos não apenas na China, mas em todo o mundo” - Peter Singer e Paola Cavalieri (02/03/2020)

O mundo está de ponta-cabeça. A pandemia subindo e a economia internacional caindo. O número de mortes pelo coronavírus bateu o recorde de alta no dia 08 de março e os mercados financeiros e o preço do petróleo apresentaram recordes de baixa na segunda-feira, dia 09 de março. Um minúsculo vírus mudou o eixo da economia internacional, que já não estava muito sã. O ano de 2020 começou com a epidemia de Coronavírus na China e o surto da nova doença que parecia um fantasma, se materializou em uma ameaça global sem precedentes.

O denominado Covid-19 está ligado às práticas alimentares existentes nos chamados “mercados úmidos”. A partir do Mercado Huanan, o vírus se espalhou rapidamente na cidade de Wuhan, capital da província de Hubei, na China central. Em pouco tempo, até o início de março, o número de pessoas infectadas ultrapassou 80 mil e o número de mortes ultrapassou 3 mil fatalidades no país asiático. A partir da segunda metade de fevereiro, o ritmo as novas infecções e as novas mortes diminuíram na China, mas aumentaram no resto do mundo. O dia 08 de março de 2020 bateu o recorde de mortes provocadas pelo coronavírus.

É claro que a situação atual é bem diferente da Gripe Espanhola, que ocorreu em 1918, durou apenas alguns meses, mas matou entre 50 e 100 milhões de pessoas em todo o mundo (quando a população mundial era menos de 2 bilhões de habitantes). Os níveis de conhecimentos médicos e a capacidade de governança em um quadro de emergência é hoje em dia muitas vezes superior do que na época do fim da Primeira Guerra Mundial. Mesmo considerando as diferenças de tempo e dimensão, a crise atual é séria e não está claro como será o seu desenrolar ao longo do ano. Mas o pânico está crescendo.

 

Embora a Organização Mundial de Saúde (OMS) não tenha identificado (ainda) o surto de coronavírus como uma situação de pandemia (existe uma hesitação e uma demora da OMS), os números mostram que a difusão do Covid-19 e seus efeitos configuram uma ameaça concreta à saúde da população mundial (e também uma ameaça à economia, como veremos mais à frente). Já são mais de 104 países e territórios (e dois navios de cruzeiro) atingidos pela doença que já infectou cerca de 110 mil pessoas e matou mais de 3.800 infectados. Conforme mostra o gráfico a cima.

O surto de coronavírus já é muitas vezes maior do que o surto de SARS (Síndrome respiratória aguda grave) que adoeceu 8.098 pessoas e matou 774 antes de ser contida. Além do mais o impacto na economia real é muito maior.

O epicentro da pandemia está na China que já contabiliza mais de 80 mil casos e mais de 3 mil mortes. Mas depois de um crescimento exponencial em janeiro e fevereiro, houve medidas drásticas de quarentena e a China conseguiu reduzir e estabilizar o número de novos infectados e novas mortes. Mas o drama continua como no caso do hotel usado para quarentena de coronavírus que desabou e matou mais de 10 pessoas. O número de casos baixou da casa dos milhares em fevereiro (cerca de 3 mil em média), para a casa das dezenas no início de março. E o número de mortes saiu da casa de centenas para dezenas no mesmo período.

Porém, após a desaceleração na China, o número de mortes passou a subir no resto do mundo, sendo que no dia 08 de março bateu o recorde de 228 mortes no mundo, com 133 óbitos na Itália, 49 óbitos no Irã, 28 óbitos na China e o restante espalhado por mais 10 países, inclusive o Egito que apresentou a primeira morte na África por conta do coronavírus. Este pico ocorrido no dia 08 de março é preocupante, pois representa um aumento diário de mais de 5% e indica que não se vê o controle da doença no horizonte próximo.

Mas enquanto o surto diminuiu na China e avança lentamente na ASEAN, o Covid-19 se espalhou para mais de 109 países e territórios do mundo. A Coreia do Sul encontrava-se em segundo lugar no ranking das infecções até o dia 07/03, com mais de 7 mil casos, embora apresente “apenas” 50 mortes (uma taxa de letalidade baixa). O início da difusão do surto ocorreu especialmente entre a seita evangélica coreana Shincheonji, ou, Igreja de Jesus, o Templo do Tabernáculo do Testemunho. O fundador, Lee Man-hee chegou a pedir desculpas para a população da Coreia do Sul.

A Itália é o outro país que passa por um surto preocupante, sendo o centro da difusão da pandemia na Europa. Somente no dia 08/03 houve 1.492 casos. A Itália tem também o maior número de mortes (366 óbitos) depois da China (3.098 óbitos). No fim de semana, o governo colocou mais de 16 milhões de italianos em quarentena. E as notificações já chegaram ao Vaticano. Vários turistas que passaram pela Itália trouxeram o Covid-19 para o Brasil e para a América Latina. A situação é crítica especialmente no norte da península italiana.

O Irã também preocupa, pois é o quarto pais com mais infectados (6.566 casos) e o terceiro em mortes (194 óbitos), sendo o país com mais alta letalidade. O início do surto de coronavírus foi confuso e pleno de desinformações. O chefe da força-tarefa do Irã contra o coronavírus, Iraj Harirchi, foi infectado pela doença. Diversos deputados também foram atingidos pelo surto, que atingiu fortemente a cidade de Qom (popular centro teológico) e a capital Teerã. Entre os dias 06 e 08 de março foram mais de 3 mil pessoas infectadas, com o número de mortes chegando quase a 200 e subindo rapidamente. O Irã tende a ser um dos países mais impactados pelo surto do coronavírus, pelo baixo preço do petróleo e a crise econômica internacional.

Num segundo bloco de países onde o coronavírus avança aparecem, em 08/03, na França, com 1.209 casos e 19 mortes; Alemanha com 1.040 casos (e, surpreendentemente, nenhuma morte); Espanha com 674 casos e 17 mortes; Japão com 502 casos e 41 mortes; Suíça com 337 casos e 69 mortes; Reino Unido com 273 casos e 64 mortes e Holanda com 265 casos e 77 mortes.

A situação dos EUA é preocupante, pois além de ser o 3º país mais populoso do mundo, tem relações comerciais, culturais e turísticas muito fortes com a China, a Europa e o resto do mundo, além de estar sujeito a um crescimento muito profundo e rápido do surto. São mais de 500 casos em 33 estados. Além do mais, o presidente Donald Trump tem dado declarações populistas e desencontradas e está mais preocupado com a sua reeleição do que em salvar vidas. No dia 08/03 os EUA ultrapassaram o Japão, tornando-se o 8º país em número de casos (550 infectados) e o 5º em número de mortes (21 óbitos), sendo que o estado de Nova Iorque declarou emergência diante do surto de Covid-19, que triplicou, em todo o país, nos últimos 3 dias.

Entre os grandes países, mesmo com números baixos até aqui, cabe destacar a Índia que já sofre com problemas de poluição do ar e com saneamento básico e que teria muitas dificuldades para lidar com um surto de coronavírus. A quantidade de casos na ALC e na África é relativamente pequeno, mas a situação do Egito preocupa com 49 casos e uma morte. Na América do Sul, além do Brasil, se destaca o Equador e a Argentina que apresentou a primeira morte pelo coronavírus no continente.

No Brasil, o último informe do Ministério da Saúde (em 08/03) indica 25 casos, sendo 20 importados (por turistas de classe e média e alta) e 4 por transmissão local. A maioria das notificações estão em São Paulo, com 16 casos, seguido do Rio de Janeiro com 3 casos, Bahia com 2 e Alagoas, Espírito Santo, Minas Gerais e Distrito Federal com 1 caso cada. Não houve nenhuma morte até aqui.

O fato inquestionável é que o Covid-19 já representa uma pandemia que afeta a maioria dos países e tem causado uma situação de morbidade muito grande. O geneticista chinês Jin Li, da Fudan University in Shanghai, disse que o surto for a da China pode crescer 10 vezes em 19 dias (isto dá cerca de 13% ao dia).

No mês de fevereiro o número de casos globais de Covid-19 passou de 15,6 mil para 86,6 mil e o número de fatalidades passou de 304 para 2,98 mil óbitos, em 29 dias. Isto quer dizer que o número de casos aumentou, em média, 6,3% ao dia, enquanto o número de mortes, em média, foi de 8,2% ao dia. Nos primeiros 8 dias do mês de março, o surto diminuiu o ritmo na China, mas aumentou no resto do mundo.

Numa projeção simples podemos ter um cenário da dimensão do surto no final do atual semestre. Se os casos de infecção e de morte continuarem crescendo em torno de 3,5% ao dia (como tem ocorrido na última semana) o número de casos em 30 de junho de 2020 chegaria a 5,6 milhões e o número de mortes chegaria a 193 mil. Se o surto diminuir o ritmo para 2% ao dia, mesmo assim o número de casos chegaria a 1 milhão e o número de mortes chegaria a quase 34 mil no final de junho de 2020. Qualquer que seja o cenário, haverá um grave problema global de saúde pública.

Mas se a pandemia não for controlada e mantiver o ritmo atual até o final do ano os números ficam assustadores, podendo atingir 3,1 bilhões de pessoas até 31 de dezembro de 2020, com 108,5 milhões de mortes (no ritmo de 3,5% ao dia), ou 37,2 milhões de casos com 1,28 milhão de mortes (no ritmo de 2% ao dia), conforme mostra a tabela abaixo. Estes cenários, improváveis, se vierem a ocorrer, gerariam uma catástrofe bíblica até o final do ano.

Para conter a propagação do coronavírus, uma das primeiras medidas adotadas pelo governo da China foi a restrição de mobilidade nas cidades que estão no centro da epidemia. Em 23 de janeiro foram limitadas entradas e saídas de pessoas de Wuhan, onde vivem 11 milhões de habitantes, com o fechamento de estações de trem, de ônibus e do aeroporto local. A circulação de veículos privados também foi restringida. Posteriormente, estas medidas forma ampliadas para toda a província e outras regiões. Mais de 700 milhões de chineses, quase metade da população do país, passaram a ter restrições de mobilidade ou ficaram em quarentena. Houve fechamento de escolas e todas as atividades que envolviam aglomeração de pessoas foram canceladas. Muitas fábricas foram fechadas e – como a China é a “fábrica do mundo” – a redução da oferta de produtos afetou as cadeias globais de produção e consumo. O resultado é uma redução do PIB (que ainda está sendo contabilizada) e uma redução de 17,2% nas exportações, segundo a Alfândega chinesa.

A crise da China se irradiou para o mundo afetando, de imediato, os mercados financeiros. Nos EUA, embora o Banco Central (FED) tenha reduzido a taxa básica de juros em 0,5 ponto, o índice Dow Jones da Bolsa de Nova Iorque caiu do máximo de 29.551,40, no dia 12/02/2020, para 25.864,78, no dia 06/03/2020, uma queda de 12,5% no período.

No Brasil, o Ibovespa, que atingiu 119,527,63, no dia 23/01 caiu para 97.996,77 no dia 06/03/2020, uma variação negativa de 18%. Neste mesmo dia, o dólar no Brasil atingiu o valor máximo da era do Real, valendo R$ 4,63. Aumentou a fuga de capitais e o crescimento econômico que já foi baixo em 2019 (“Pibinho” de 1,1%), pode ter desempenho ainda pior em 2020, trazendo mais desesperança para os milhões de desempregados e subempregados brasileiros. O Brasil é uma potência econômica cada vez mais submergente.

A realidade é que vários países estão em situação crítica como a Itália – considerado um país frágil economicamente – está com suas atividades turísticas interrompidas, os esportes ocorrendo sem a presença das torcidas e a economia já indicando sinais de recessão. Na Premier League, no Reino Unido, os jogadores foram proibidos de apertar as mãos no início das partidas. Na Champion League, o jogo Atalanta e Valência será realizado com portões fechados para evitar aglomeração. O GP do Bahrein, marcado para 15/03, será, pela primeira vez, disputado com portões fechados. Diversas competições esportivas estão ameaçadas e podem ser adiadas ou canceladas. No Japão é grande a possibilidade das Olimpíadas 2020 serem adiadas, afetando o esporte e a economia em todo o mundo.

O site Bloomberg, especializado em economia, já falava em perdas de trilhões de dólares no corrente ano. Segundo a Unctad, a queda no fluxo de investimento estrangeiro pode ser de 15% no mundo. A economia internacional pode entrar em recessão no primeiro semestre de 2020 e, se o surto de coronavírus não for controlado, a recessão pode continuar por mais tempo.

Mas, a situação internacional que já era crítica até o dia 08 de março (Dia Internacional da Mulher), ficou pior a partir da disputa entre a Rússia e a Arábia Saudita que fez o preço do petróleo cair violentamente no domingo (o preço do barril WTI chegou a ficar abaixo de US$ 30), provocando um terremoto nos mercados financeiros na segunda-feira, dia 09 de março. Os mercados asiáticos fecharam com grande tombo na segunda-feira e os mercados europeus amanheceram em queda. Isto deve provocar um contágio com os mercados ocidentais, que devem ter grandes perdas ao longo desta segunda-feira caótica.

O economista Nouriel Roubini (28/02/2020) considera que estamos diante de uma crise nas dimensões da crise financeira de 2008/09 ou pior. Ele diz: “O Banco Central Europeu e o Banco do Japão já estão em território negativo. É claro que eles poderiam reduzir ainda mais as taxas de depósitos a prazo para estimular empréstimos, mas isso não ajudaria os mercados por mais do que uma semana. Essa crise é um choque de oferta que você não pode combater com política monetária ou fiscal”. Desta forma, pode-se colocar a questão sobre o que adiantaria medidas de estímulo monetária e fiscal se as fábricas, lojas e o esporte e o turismo estão de portas fechadas ou em quarentena?

Portanto, a perspectiva imediata é de continuidade da pandemia do Covid-19 e um grande pandemônio na economia global. Os cenários são incertos, mas embora haja esperança que surja uma vacina eficaz e que o surto seja controlado no médio prazo, as próximas semanas devem ser agitadas.

Evidentemente, a turbulência atual é potencializada por mais de dez anos de perdição de superendividamento, consumo excessivo, ativos superestimados e excesso de indulgência geral. A forma como o mundo saiu da crise de 2008/09 criou as condições de gestação da crise de 2020, agravado pelo Covid-19.

Assim, se a propagação do coronavírus continuar, na proporção atual, por vários meses, os custos na saúde, na economia e nas condições de vida da população mundial serão terríveis. O mundo poderá ter uma crise social sem precedentes se não houver um esforço coletivo e se não forem aceleradas e aprofundadas as medidas de contenção das duas doenças vitais: uma na área da saúde e outra na área da economia.

 

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