EUA: é o dinheiro quem molda a narrativa católica

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26 Outubro 2019

"A Igreja Católica nos Estados Unidos está à venda".

A constatação é do editorial de National Catholic Reporter, 25-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Segundo o editorial, "a Conferência Episcopal perdeu sua voz e o seu lugar como ator na sociedade em geral. Quem entrou nessa brecha como os principais transmissores dessa versão norte-americana do catolicismo? Principalmente homens poderosos, indubitavelmente bem-intencionados no seu amor pela Igreja e em sua visão particular de como ela deve parecer e funcionar. O acesso à riqueza é o vínculo comum".

Timothy Busch, fundador da Busch Firm, especializado em planejamento imobiliário de alto patrimônio líquido, direito tributário e litígios corporativos, de longe, o mais ambicioso e loquaz dos evangelistas do catolicismo orientado pelo mercado, declara: "A evangelização do nosso país está sendo feita por fundações privadas, ONGs católicas, como o Instituto Napa e a Legatus”. Essas organizações sem fins lucrativos, argumentou, são “aquilo que está fazendo a diferença na Igreja norte-americana e a razão pela qual somos tão vibrantes e o resto do mundo não é vibrante (...) Eles têm acesso a um capital que a Igreja não tem”.

Eis o editorial.

A Igreja Católica nos Estados Unidos está à venda.

Em silenciosos investimentos ao longo de um período de décadas, empresários ricos e abastadas organizações sem fins lucrativos substituíram elementos da vida eclesial que antes eram a província das organizações oficiais da Igreja.

As lideranças da Igreja têm assistido como indivíduos e grupos com recursos substanciais se tornaram a voz da Igreja na praça pública, moldando uma narrativa católica para a cultura mais ampla.

Coletivamente, os esforços dos novos empreendedores eclesiais resultaram em estruturas, muitas delas à direita da extrema direita do espectro, que desafiam a autoridade e a voz dos bispos dos EUA. Em alguns exemplos recentes, indivíduos e grupos influentes também abraçaram e amplificaram os críticos mais duros do Papa Francisco.

A maior parte desses desdobramentos ocorreu através do setor sem fins lucrativos, um fenômeno peculiarmente norte-americano que explodiu durante o último meio século em termos do número de organizações, da quantia de dinheiro que eles são capazes de atrair e da influência política que eles exercem agora tanto dentro quanto fora da Igreja.

Seguindo o dinheiro

A nossa cobertura sobre isso começou há cinco anos, com reportagens sobre um congresso do Instituto Napa. Mais recentemente, o NCR acompanhou o crescimento do dinheiro e a sua influência na vida católica, começando por uma análise abrangente das consideráveis quantias que os Cavaleiros de Colombo doaram para think tanks e organizações de notícias e das generosas doações que eles fizeram a lideranças da Igreja e projetos eclesiais que se conformam a uma ideologia política conservadora.

Através de uma investigação e análise detalhadas de documentos fiscais públicos e relatórios de eventos, o NCR demonstrou que esses gastos fornecem a indivíduos e outras organizações um acesso aos níveis mais altos da liderança da Igreja e proporcionam a outras pessoas uma voz excessivamente forte sobre os assuntos eclesiais.

Meios de comunicação como a EWTN, o Ethics and Public Policy Center, a First Things, a direitista Federalist Society (uma espécie de observatório para juristas conservadores), o Becket Fund for Religious Freedom e o libertário Instituto Acton foram beneficiados pelo financiamento dos Cavaleiros de Colombo e de outros católicos ricos que construíram com sucesso uma história católica para consumo público.

A história é simples e direta, sectária, definida pelas escolhas binárias das guerras culturais em curso e por uma versão santificada da economia libertária que vem travestida com paramentos católicos espalhafatosos.

É uma mistura puramente estadunidense. O traje é uma imitação pomposa da coisa real. A narrativa é uma vergonha quando vista contra os nossos textos sagrados e a riqueza da tradição católica de justiça social.

O que estamos testemunhando não é o resultado de um programa, pelo menos de nenhum programa abertamente declarado ou descrito. É, antes, o resultado de uma oportunidade inteligente e criativamente explorada. E os próprios bispos, especialmente aqueles que violaram a confiança da comunidade nos últimos 30-40 anos, são os principais culpados por oferecer essa oportunidade.

Dizemos de antemão que o que está sendo feito não é ilegal nem imoral. Não há nada inerentemente errado no fato de alguém apoiar fortes convicções com dinheiro. Pessoas com recursos significativos costumam ser os meios de sobrevivência para aqueles, como nós, que vivem no mundo sem fins lucrativos com isenção de impostos. Afinal, o Vaticano II pediu que os leigos levassem a Igreja ao mundo.

Vácuo de liderança

Mas as nossas reportagens detalham algo bastante extraordinário que vem se desenvolvendo há décadas, possibilitado pelo mecanismo sem fins lucrativos nos EUA e pelo vácuo de liderança que existe agora no episcopado norte-americano.

Várias forças criaram esse vácuo. A primeira foi um documento emitido pessoalmente pelo Papa João Paulo II em 1998. Intitulado Apostolos suos, visava a restringir severamente a autoridade e o papel magisterial das Conferências Episcopais.

Outra é o escândalo em curso dos abusos sexuais clericais. Ele se tornou um escândalo global em que os bispos de todo o mundo se engajaram em um acobertamento sistemático de horrendos abusos de crianças e jovens. À medida que antigos padrões de abuso e de encobrimento continuam sendo revelados, isso tem esvaziado a credibilidade dos bispos como grupo.

Uma falta de liderança também era inerente ao caráter dos bispos nomeados durante os 35 anos dos papados de João Paulo II e Bento XVI. Ficou claro logo após a eleição de João Paulo II em 1978 – enquanto a Congregação para a Doutrina da Fé sob sua direção arrastava uma série de ilustres teólogos para o disciplinamento e o silenciamento – que seus candidatos preferidos ao episcopado seriam submissos, sem levantar perguntas nem o mínimo desafio à autoridade. Décadas de nomeações de homens que geralmente se conformavam com essas preferências e resistiam a qualquer coisa que pudesse ser interpretada como dissidência resultaram em uma Conferência Episcopal aquiescente com todos os desejos de Roma.

Com o Vaticano exercendo um controle sem precedentes sobre os bispos estadunidenses, a Conferência Episcopal se voltou para dentro, suas reuniões foram dominadas por longas discussões sobre a liturgia, a linguagem das orações e a promulgação de juramentos de lealdade para agentes de pastoral e teólogos. A Conferência Episcopal perdeu sua voz e o seu lugar como ator na sociedade em geral.

Quem é quem

Quem entrou nessa brecha como os principais transmissores dessa versão norte-americana do catolicismo?

Principalmente homens poderosos, indubitavelmente bem-intencionados no seu amor pela Igreja e em sua visão particular de como ela deve parecer e funcionar. O acesso à riqueza é o vínculo comum. Uma amostra dos mais reconhecíveis:

- o Cavaleiro Supremo Carl Anderson, agente político que já trabalhou para o senador Jesse Helms e o presidente Ronald Reagan, chefia agora uma organização cujos membros fornecem recursos extraordinários e tempo pessoal para causas de caridade nos EUA e em todo o mundo. Milhões de dólares arrecadados por Cavaleiros de Colombo comuns nas paróquias e através das agências de seguros do grupo vão para esses esforços. Mas Anderson também tem o poder de designar os destinatários da generosidade dos Cavaleiros, permitindo que ele doe milhões para dioceses seletas e gaste milhões em projetos vaticanos, em meios de comunicação, em think tanks e até em organizações sem fins lucrativos não religiosas que promovem ideologias políticas e eclesiais conservadoras.

- Timothy Busch, fundador da Busch Firm, especializado em planejamento imobiliário de alto patrimônio líquido, direito tributário e litígios corporativos. Ele também possui extensas participações empresariais e imobiliárias, incluindo hotéis e resorts, e é o principal doador da Escola de Negócios Busch da Universidade Católica dos EUA. Ele é cofundador do Instituto Napa. A atração principal do congresso mais recente do instituto foi o cardeal Raymond Burke, entre os líderes da oposição a Francisco. A senadora Lindsey Graham (republicana da Carolina do Sul) também foi convidada e liderou um incontestável almoço-comício republicano.

- Frank Hanna III, outro advogado, banqueiro mercantil e filantropo, que defende “o rejuvenescimento do pensamento correto sobre as virtudes do capitalismo”. Seu livro de 2008 intitula-se “What Your Money Means (and How to Use It Well)” [O que o seu dinheiro significa (e como usá-lo bem)]. Ele é membro ativo do Regnum Christi, o braço leigo dos Legionários de Cristo, fundado pelo desonrado Marcial Maciel Degollado. Hanna faz doações ao Instituto Acton, que valoriza muito, e acredita que a prosperidade espiritual, e não material, é o maior desafio do mundo. Entre as afiliações listadas em seu site, estão a EWTN, o Ethics and Public Policy Center, o American Enterprise Institute e o Instituto Napa.

- Sean Fieler foi descrito como um “financiador ideologicamente motivado” em um perfil de 2015 publicado pela Inside Philanthropy. A manchete o descreveu como “O investidor que promove valores conservadores”. Ele dirige a Fundação Chiaroscuro, da qual é o principal doador. A lista de beneficiários das doações do fundo contém alguns nomes conhecidos: o Becket Fund for Religious Liberty, uma organização jurídica que apresentou objeções contra o mandato de contracepção do Affordable Care Act, apesar de importantes instituições católicas, incluindo a Catholic Health Association, terem aprovado as exceções fornecidas para organizações religiosas; a Escola de Negócios Busch da Universidade Católica dos EUA; o Ethics and Public Policy Center; e a First Things, uma publicação que publicou fortes críticas a Francisco.

- Thomas Monaghan, fundador da Domino's Pizza e ex-proprietário do Detroit Tigers, também é fundador da Legatus, uma organização para líderes empresariais católicos, com requisitos de associação que garantem que apenas aqueles que possuem bens significativos possam se candidatar. Ele também é o fundador da Universidade Ave Maria e de uma comunidade construída para esse fim, a cidade Ave Maria, perto de Naples, na Flórida. Busch citou Monaghan e Legatus entre os principais evangelizadores católicos do país.

As nossas reportagens, por mais extensas que sejam, só começam a mapear as profundas fontes de financiamento que se infiltram no tecido da vida paroquial, que influenciam programas como o FOCO (Fellowship of Catholic University Students [Associação de Estudantes da Universidade Católica]), nos campi universitários.

O dinheiro alimenta os meios de comunicação e a produção de materiais catequéticos, e compra a presença de bispos e cardeais para legitimar os eventos da direita católica. Os membros da hierarquia estão abundantemente presentes em todos os coquetéis e jantares, e nas negociações políticas nem tão sutis.

O registro é extenso e crescente. E continuaremos relatando o fenômeno. A comunidade católica merece saber o que está motivando e moldando grande parte das mensagens sobre a Igreja nos EUA.

“Primeiro a Igreja”

Busch é, de longe, o mais ambicioso e loquaz dos evangelistas do catolicismo orientado pelo mercado. Em um momento não programado de um de seus eventos, ele declarou: “A evangelização do nosso país está sendo feita por fundações privadas, ONGs católicas, como o Instituto Napa e a Legatus”. Essas organizações sem fins lucrativos, argumentou ele, são “aquilo que está fazendo a diferença na Igreja norte-americana e a razão pela qual somos tão vibrantes e o resto do mundo não é vibrante (...) Eles têm acesso a um capital que a Igreja não tem”.

Sobre a Escola de Negócios da Universidade Católica dos EUA, ele disse que foi um presente de quase 50 milhões de dólares – 15 milhões dele mesmo – que havia “reenergizado” a universidade e “tornado ela grande de novo” [“made it great again”, expressão que lembra o slogan de campanha de Trump, “Make America Great Again”].

Além disso, ele se orgulhou do fato de que a universidade seria o “púlpito de ensino” não apenas dos bispos católicos, mas também do Vaticano, “especialmente sobre a questão e os assuntos dos negócios”.

No mesmo encontro, um cardeal ligado historicamente ao ensino da justiça social da Igreja foi descrito por Busch como um representante de uma visão a ser levada em consideração.

Alguém que liga os pontos e percebe o que está acontecendo na Igreja postula a sugestão compreensível de que o necessário é uma infusão de dinheiro a partir da esquerda. Mas isso criaria apenas uma espécie de jogo sangrento para os mais ricos.

Nova visão da Igreja

O corretivo essencial está em algo muito mais profundo do que uma competição – trata-se de uma nova visão da Igreja, que Francisco viveu em sua terra natal e pela qual agora pleiteia contra uma grande resistência. A questão central é: como é que nós, católicos comuns, avançamos para nos tornar uma Igreja dos e para os pobres?

Nós sugerimos que o primeiro passo seja entender o que está acontecendo, entender que a própria ideia de cultura católica está sendo espremida em um marco estreito, no qual Deus se conforma às normas e ambições estadunidenses.

Embora possa não haver nada inerentemente ilegal ou imoral em relação a esse desdobramento na Igreja Católica dos EUA, isso não é desprovido de consequências. Levando à sua conclusão lógica, torna-se um esforço no qual figuras poderosas com acesso à riqueza usam todos os meios para racionalizar uma Igreja envolta na bandeira estadunidense e na qual o touro de Wall Street reside confortavelmente em meio às demais estátuas.

A conclusão é um ressurgimento do clericalismo dos leigos. Não será uma Igreja dos pobres, mas sim uma Igreja dos autossuficientes.

Bispos, tomem nota. E, depois, deem o ousado passo de arrancar a placa “Vende-se”.

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