Coronavírus. Que a lição fique inscrita indelevelmente: precisamos uns dos outros

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26 Março 2020

Estamos aprendendo como é perigoso quando líderes sem noção alienam e humilham a experiência e o serviço dedicado.

A reportagem é publicada por National Catholic Reporter, 24-03-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Chegamos ao ponto da luta contra o coronavírus, esse inimigo terrível e invisível, que escancara a verdade de que os evangelistas da autossuficiência e do excesso libertário se curvam diante de um deus falso. Que a lição fique indelevelmente inscrita nas mentes das gerações que em breve passarão para posições de liderança. Precisamos uns dos outros.

Estamos aprendendo muito neste momento de profunda provação. Estamos chegando rapidamente a um entendimento de que os fatos importam, assim como o caráter e a empatia nos nossos líderes. O governo, ficou claro em poucas semanas, é a única entidade capaz de responder a uma ameaça nacional. E o sucesso dessa resposta depende do respeito pelas funções cotidianas do governo, pelas burocracias essenciais que são alvos fáceis de zombaria, até que fique claro que elas são a chave para combater uma ameaça como a pandemia do coronavírus.

Uma série de sermões feitos pelo Rev. Dr. Martin Luther King Jr. contém a seguinte frase: “Nada em todo o mundo é mais perigoso do que a ignorância sincera e a estupidez consciente”. Recentemente, recebemos uma enorme demonstração de cada uma dessas coisas, exceto que, neste caso, a estupidez nem pode ser categorizada como consciente. É maliciosa.

Estamos aprendendo como é perigoso quando líderes sem noção alienam e humilham a experiência e o serviço dedicado. O fato de o presidente Donald Trump insistir em rotular a pandemia de “vírus chinês” simplesmente camufla o racismo com a ignorância.

A cortina foi aberta, e o que se revelou não é um mágico, mas sim um velho vacilante que gastou o seu suprimento de explosivos e disfarces. A má gestão por parte de Trump da crise do coronavírus até este momento é mais do que desajeitada. Desde o desmantelamento anterior da equipe de saúde global da Casa Branca, até a dispensa de alertas precoces feitos por especialistas, até as persistentes – e completamente falsas – garantias de que o vírus desapareceria milagrosamente, a inconsciência deste governo é espantosa. Ela constitui um desrespeito arrogante e insensível ao bem-estar dos outros e uma profunda violação da confiança pública.

Os briefings diários da Casa Branca tornaram-se uma espécie de arte performática de dar medo, em que os especialistas têm que contestar desajeitadamente as inverdades e as fantasias que Trump perpetua. Isso levou o Dr. Anthony Fauci, chefe do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (graças à formação jesuíta da Regis High School em Nova York e do College of Holy Cross em Worcester, Massachusetts) a finalmente reconhecer a sua frustração ao ouvir o presidente fornecer informações incorretas. “Mas eu não posso pular na frente do microfone e empurrá-lo”, disse ele a um entrevistador.

A ignorância e a estupidez não são apenas a província dos líderes civis. Elas existem em abundância em círculos religiosos, por exemplo, entre extremistas evangélicos, que ignoram evidências contrárias habilmente detalhadas e que convidam as congregações a se reunir. Essas duas características também foram exibidas em um grau de tirar o fôlego na comunidade católica pelo editor da revista First Things, R. R. Reno, e pelo irreprimível cardeal Raymond Burke.

Quem pode adivinhar a motivação de Reno para seguir a sacrossanta rota contrária e insistir para que as igrejas permaneçam abertas e realizem ritos? Por outro lado, estamos acostumados às excentricidades do bom cardeal, a maioria das quais, dada o seu atual afastamento de qualquer posição de poder, podem ser ignoradas. Mas seu encorajamento à sua decidida base de admiradores e outros que encontram algum consolo em suas formulações tradicionalistas é absolutamente perigoso no momento atual.

A recente leitura do Evangelho dominical sobre a cura do cego é adequada às nossas circunstâncias hoje. A moral da história não diz respeito aos legalistas da época que queriam impedir a cura no sábado, mas à desconsideração por parte de Jesus em relação aos rigores da lei quando se trata de ajudar o outro. Esse é o mandato para hoje, e, se a nossa fé não pode reconhecer isso ou não está à altura dessa tarefa, então talvez algo tenha faltado em todos aqueles momentos em que nos reunimos na igreja.

Não é uma pequena ironia que, à medida que a campanha do senador Bernie Sanders parece estar rumando à saída, o partido que gosta de zombar da sua visão social e econômica está se tornando socialista a um nível que faria um marxista corar. À medida que as possíveis consequências da pandemia se tornavam mais claras, o Congresso aprovou rapidamente dois projetos de lei para aliviar os efeitos. O primeiro destina 8,3 bilhões de dólares para medidas de combate ao vírus. O segundo é uma medida de 100 bilhões de dólares que expande as licenças-saúde e médicas para alguns trabalhadores, fornece testes gratuitos para o vírus para qualquer pessoa e estende os programas de seguro-desemprego e de assistência alimentar.

No momento em que este texto está sendo escrito, um terceiro projeto de lei, mais ambicioso, um pacote de quase 2 trilhões de dólares, está parado no Senado, enquanto os democratas buscam maiores garantias de responsabilização sobre o modo como esse dinheiro será gastos e debatem as condições de socorro às empresas, assim como a consideração dos trabalhadores perante as empresas. O pacote incluiria pagamentos diretos para a maioria dos estadunidenses, bem como uma ajuda para pequenas empresas.

Após o 11 de setembro, dissemos muitas vezes que o mundo havia mudado. Na pior das hipóteses, na verdade, ele não mudou tanto. Não mudou quando respondemos à violência com ainda mais violência; não mudou quando o que nos disseram que podíamos fazer era ir às compras.

Esta é uma ameaça ainda mais disseminada e potencialmente devastadora. Ela nos impediu de seguir no mesmo caminho e está forçando perguntas muito mais fundamentais sobre quem somos e o que nos tornaremos, sobre o que significa crer e o que as nossas comunidades de fé significam em um tempo de longo confinamento e quarentena.

O modo como responderemos a essas perguntas determinará a nossa direção no futuro. Se nos despojarmos suficientemente das nossas diferenças no momento em que o medo não governar mais as nossas abordagens uns em relação aos outros, talvez possamos reunir a humildade que é estranha à religião da autossuficiência. Isso será essencial se quisermos fazer investimentos mais profundos na humanidade comum que estamos sendo forçados a reconhecer.

 

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