Viganò pode ter dificultado a obtenção da verdade sobre McCarrick

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13 Março 2019

Presumivelmente, quando o arcebispo italiano Carlo Maria Viganò divulgou a sua já famosa declaração em agosto passado, afirmando que o Papa Francisco estava envolvido no encobrimento das más condutas do ex-cardeal e agora ex-padre Theodore McCarrick, ele queria chocar o sistema para que se chegasse à verdade.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 12-03-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

De acordo com a lei das consequências não intencionais, entretanto, está ficando cada vez mais claro que a bomba de Viganò, na verdade, pode ter dificultado, e não facilitado, estabelecer exatamente o que o Vaticano sabia, e quando, sobre a saga McCarrick.

(A advertência “presumivelmente” é obrigatória, uma vez que existem inúmeras teorias sobre as reais motivações de Viganò ao lançar o seu j’accuse, e o fato de encontrar a verdade não aparece especialmente como prioridade em algumas delas.)

Em suma, há bispos por aí – e eu sei disso, porque falei com vários – que apoiam uma investigação abrangente sobre o caso McCarrick, especialmente no Vaticano, mas que agora hesitam em dizer isso publicamente por medo de serem associados a Viganò e àquela que é vista como a cruzada ideológica contra Francisco que ele representa.

Apenas como uma breve recapitulação, uma acusação inicial de abuso sexual de um menor contra McCarrick resultou em sua suspensão do ministério público em junho. Um mês depois, o Papa Francisco aceitou a renúncia de McCarrick do Colégio dos Cardeais.

Depois, veio a missiva de 11 páginas de Viganò no fim de agosto, programada para coincidir com a visita de Francisco à Irlanda para o Encontro Mundial das Famílias. No rastro dessa carta, quase 40 bispos católicos, quase todos estadunidenses, emitiram declarações ou fizeram comentários a repórteres sugerindo que as acusações na carta deviam ser levadas a sério, sendo que alguns acrescentaram testemunhos pessoais sobre o caráter e a credibilidade de Viganò.

Dom Robert Morlino, bispo de Madison, Wisconsin, por exemplo, disse: “Durante seu mandato como núncio apostólico, eu conheci o arcebispo Viganò tanto profissional quanto pessoalmente (...) Continuo profundamente convencido da sua honestidade, lealdade e amor pela Igreja, e da sua integridade impecável (...) Os critérios para acusações credíveis estão mais do que satisfeitos, e uma investigação, de acordo com os procedimentos canônicos, certamente pode ser necessária”.

Não escapava à atenção de ninguém que a maioria dos bispos que se pronunciavam favoravelmente sobre Viganò e pediam uma investigação sobre suas acusações eram percebidos como conservadores com sérias reservas em relação a muitos aspectos do papado de Francisco, como o cardeal estadunidense Raymond Burke e o bispo Athanasius Schneider, do Cazaquistão.

No mês seguinte, a liderança da Conferência dos Bispos dos EUA foi a Roma para propor uma visita apostólica promovida pelo Vaticano relacionada ao caso McCarrick, ou seja, uma investigação com o apoio do papa. Francisco recusou essa proposta, iniciando sondagens locais nas quatro dioceses em que McCarrick atuou: Nova York; Metuchen, New Jersey; Newark; e Washington.

Enquanto essas revisões estão em andamento, a maioria dos observadores está cética de que elas chegarão às respostas desejadas, já que explicar quem impulsionou McCarrick a subir na carreira e quem pode ter olhado para o outro lado em relação a seus erros é, em última análise, uma questão para Roma.

Em outubro, um comunicado vaticano indicou que Francisco havia ordenado uma revisão dos arquivos vaticanos sobre o caso McCarrick “a fim de apurar todos os fatos relevantes, situando-os no seu contexto histórico e avaliando-os com objetividade”.

Na época, parecia que o Vaticano estava se preparando para anunciar más notícias, já que a declaração acrescentava: “Poderão surgir escolhas que não foram coerentes com a abordagem atual a tais questões”.

Até o momento, no entanto, não se ofereceu nenhuma divulgação pública sobre os resultados dessa revisão (naturalmente, é improvável que exista qualquer “arma fumegante” nos arquivos, provando que uma determinada autoridade realmente sabia que McCarrick estava abusando de menores e tenha optado por esconder isso, mas, no mínimo, seria útil saber se oportunidades foram perdidas e sob a supervisão de quem).

Em torno dos bebedouros romanos, alguns acreditam que o silêncio sobre McCarrick se deve ao fato de que o resultado poderia manchar o legado de São João Paulo II e alguns de seus principais assessores, incluindo o cardeal Stanislaw Dziwisz, secretário pessoal do pontífice, e o cardeal Angelo Sodano, secretário de Estado de João Paulo II. Os dois homens estavam no poder enquanto McCarrick subia na carreira e ambos ainda estão vivos.

Outros acreditam que as reticências em relação a McCarrick se devem a preocupações de que possa haver algum mérito nas acusações de Viganò – se não que Francisco estava diretamente ciente das acusações de abuso e as ignorou, ao menos que ele optou por não perseguir vigorosamente os rumores.

De qualquer forma, já se passaram mais de cinco meses desde que o Vaticano prometeu uma revisão de seus arquivos, e nada foi relatado. Uma questão óbvia é por que os bispos estadunidense, seja pública ou privadamente, ou ambos, não estão sendo mais vigorosos ao exigir que o Vaticano entregue algo, já que eles são os mais expostos ao retrocesso pastoral em torno do fato de não se fazer isso.

Uma resposta é a seguinte: os bispos em toda parte, incluindo os EUA, hesitam em fazer qualquer coisa que o chefe e sua equipe possam considerar como desleal. Até agora, ser visto como um aliado de Viganò é considerado pelos aliados de Francisco virtualmente como um pecado contra o Espírito Santo, e, a menos que um bispo esteja vivendo debaixo de uma rocha, ele entendeu o recado.

Daí a imensa ironia da situação.

Carlo Maria Viganò, que há mais de uma década aspira a ser o grande “dedo-duro” vaticano – primeiro durante seu mandato no governo do Estado da Cidade do Vaticano sobre supostas irregularidades financeiras e, mais tarde, sobre Francisco e McCarrick –, na verdade, pode ter feito mais do que qualquer outra pessoa, virtualmente, para assegurar que os “cochichos” que os bispos possam estar fazendo, especialmente nos EUA, permaneçam em silêncio.

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