Na viagem do Papa à Irlanda, a pergunta não é se ele vai se encontrar com as vítimas, mas o que acontece a seguir

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20 Agosto 2018

"A pergunta que os irlandeses deveriam fazer, portanto, não é se o papa vai se encontrar com as vítimas, mas como essas vítimas vão se sentir sobre a experiência seis meses ou um ano depois - e o que será necessário para garantir que não acabem se sentindo manipulados ou traídos?", escreve John L. Allen Jr., jornalista, em artigo publicado por Crux, 18-08-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o artigo.

Independente de quando o Papa Francisco viesse para a Irlanda, não seria uma viagem fácil. Esta é uma cultura, afinal, dilacerada de norte a sul, que enfrenta o impacto da secularização descontrolada e de alguns dos mais terríveis escândalos de abuso sexual clerical do mundo.

Agora, no entanto, parece um momento particularmente difícil.

Veja alguns dos pontos que estão em voga no período que antecede a chegada de Francisco no próximo sábado de manhã:

  • Um relatório do grande júri da Pensilvânia sobre seis dioceses que encontrou 300 padres com acusações credíveis de abuso e mais de 1.000 vítimas em um período de 70 anos. Entre outras coisas, o relatório levanta questões críticas sobre a atitude do cardeal Donald Wuerl, de Washington, em resposta a alegações de abuso quando ele era bispo de Pittsburgh.
  • Arcebispo Theodore McCarrick se tornou o primeiro príncipe da Igreja a renunciar ao cargo de cardeal em um século, em meio a acusações de má conduta sexual e abuso.
  • No Chile, a polícia e os promotores continuam investir sobre vários escritórios e arquivos da Igreja, mais recentemente a sede nacional de conferências dos bispos, em um esforço para determinar se queixas criminais de encobrimento de abuso poderiam ser apresentadas contra vários oficiais da Igreja.
  • O cardeal Sean O'Malley, visto como o principal reformador em casos de escândalos de abuso dos altos níveis da hierarquia católica e presidente da Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores de Francisco, foi forçado a não participar do Encontro Mundial das Famílias que acontece essa semana em Dublin, para enfrentar acusações de abuso envolvendo o seminário St. John's, em Boston.
  • A mídia irlandesa informou recentemente sobre os esforços no início dos anos 2000 do cardeal italiano Angelo Sodano, então secretário de Estado do Vaticano, para convencer tanto o presidente irlandês quanto o ministro das Relações Exteriores a ajudar a Igreja a lutar contra as demandas para abrir seus arquivos, e indenizá-la em possíveis perdas nos tribunais irlandeses. Até hoje, Sodano continua sendo o decano do Colégio Cardinalício.

Nesse contexto, a pressão sobre Francisco para dizer ou fazer algo expressivo em relação aos escândalos de abuso está aumentando. Uma nova pesquisa divulgada pela Associação dos Padres Católicos da Irlanda descobriu que uma grande maioria dos católicos acredita que seria "negligente e inaceitável" que o papa não se pronunciasse sobre os escândalos de abuso enquanto estivesse aqui.

No último final de semana, um popular padre de West Belfast usou sua homilia dominical para sugerir que o papa deveria cancelar a viagem por completo. Esse padre, Patrick McCafferty, é ele próprio sobrevivente de abuso clerical.

"Eu pediria ao nosso Santo Padre que não viesse para a Irlanda", disse McCafferty. “Eu digo isso como seu filho fiel, que o ama e o defenderia com minha vida. Peço ao papa que não venha por conta da traição, da destruição e da perda total de credibilidade.”

Eu, e meus colegas do Crux, Inés San Martín e Claire Giangravè, estivemos em Belfast nesta semana, onde produzimos uma quantidade considerável de conteúdo, e a pergunta número um que eu ouvi é se o Papa Francisco vai ou não se encontrar com sobreviventes de abuso enquanto ele estiver na Irlanda.

Gentilmente, tentei explicar que, de certa forma, essa não é a pergunta certa. Com certeza, seria desastroso em termos de percepção pública se o papa não encontrasse vítimas, o que é parte da razão pela qual ele provavelmente irá. O arcebispo Eamon Martin, de Armagh, disse na quinta-feira que espera que o Pontífice o faça.

A verdadeira questão não é "ele vai ou não vai?", mas sim que diferença pode fazer se ele o fizer.

Quando tais reuniões ocorreram no passado, as vítimas que participaram muitas vezes ficaram comovidas e se sentiram consoladas imediatamente, mas com o tempo, as reformas que esperavam que acontecessem não se materializaram da maneira imaginada.

Por outro lado, os encontros de Francisco com as vítimas durante sua viagem ao Chile em janeiro parecem ter sido parte de uma cadeia de eventos que o levou a assumir uma postura muito mais agressiva sobre a crise chilena, enviando investigadores, convocando os bispos do país a Roma e emprestando seu apoio às forças de reforma.

A pergunta que os irlandeses deveriam fazer, portanto, não é se o papa vai se encontrar com as vítimas, mas como essas vítimas vão se sentir sobre a experiência seis meses ou um ano depois - e o que será necessário para garantir que não acabem se sentindo manipulados ou traídos?

No entanto, em meio à pressão muito real sobre Francisco, não se deve perder de vista o fato de que, apesar de tudo, muitos católicos irlandeses continuam animados e otimistas com a visita papal.

O sistema ferroviário irlandês, por exemplo, anunciou na quinta-feira que as linhas especiais criadas para transportar peregrinos para Dublin de todo o país já estão esgotadas.

Na noite de quinta-feira, dei uma palestra no Centro Paroquial de St Brigid, em Belfast, diante de uma multidão de cerca de 250 ou 300 pessoas, todos motivados pelo estímulo da visita papal – muito embora a maioria não vá fazer a ir até o sul de Dublin porque não estavam entre os sortudos que conseguiram os ingressos.

Um momento revelador veio quando eu disse à multidão que alguns jornalistas e acadêmicos tinham nos dito antes de chegarmos aqui que os católicos na Irlanda do Norte estavam "bravos" já que o papa não estará indo visitar eles também. É uma suspeita razoável, visto que na última vez que um papa veio para a Irlanda em 1979, ele não pôde ir ao norte por causa das "Perturbações", mas a situação é diferente hoje.

No entanto, quando pedi que levantasse a mão quem naquela sala estava realmente zangado, praticamente ninguém o fez; então perguntei quantos estão "desapontados" e quase todos concordaram. Em outras palavras, eles desejam que o Papa venha, e não estão bravos com ele.

Para Francisco, isso sugere que ele ainda pode ter uma janela de oportunidade para realizar um encontro com os irlandeses do norte- mas, dadas todas as pressões, essa é uma janela que provavelmente não permanecerá aberta para sempre.

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