Proteção dos menores e Justiça às vítimas. Entrevista com Hans Zollner

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14 Novembro 2018

Hans Zollner, membro da comissão para a prevenção de abusos de menores do Vaticano e especialista no tema, acredita que a Espanha pode fazer muito mais nessa questão.

A entrevista é de Daniel Verdú, publicada por El País, 13-11-2018. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

O jesuíta Hans Zollner é um dos principais especialistas em prevenção e tratamento de casos de abusos de menores por parte do clero. Homem de máxima confiança do Papa nesse assunto, psicólogo, presidente da Child Protection Center na Universidade Gregoriana e membro da comissão que Francisco criou para tratar a questão que se tornou em um assunto principal deste pontificado. Prova disso é a histórica reunião convocada para fevereiro no Vaticano com todos os presidentes das conferências episcopais do mundo. Zollner, que recentemente liderou o projeto de criação de um mestrado para a prevenção de abusos, não põe panos quentes: alguns países avançaram muito e outro, como Espanha, podem fazer “muito mais”.

Eis a entrevista

Os abusos são a principal fonte de descrédito da Igreja atual. Quanto tempo crês que tardará para resolver essa crise?

Em alguns países estamos em ponto bom para trabalhar a proteção dos menores e dar justiça às vítimas. Em outros, por razões culturais e políticas, a questão ainda não chegou ao nível de ser algo evidente na discussão pública. A Igreja deve se interessar por esse assunto durante muito tempo.

Quais são os países mais avançados?

Nos Estados Unidos, Canadá e Austrália fala-se disso há 35 anos. Na Irlanda faz 20 anos, na Alemanha há nove. E nesses países, donde houve uma atenção maior, a Igreja também tomou mais seriamente a assunção de medidas para a prevenção e chegam menos denúncias.

A Espanha tomou as medidas necessárias?

Não conheço bem a situação. Estive lá há três anos e começamos uma mesa de trabalho em Salamanca, onde estava representada toda a variedade da Igreja. Agora já está se movimentando alguma coisa, mas falta muito a ser feito.

A respeito de países com a Alemanha, o último a prestar contas com o seu passado, em que ponto se encontra?

Na classificação geral, os anglo-saxões e os centro-europeus estão mais avançados. E os outros países europeus, pelo menos, tomaram consciência. Sei que a Igreja espanhola se comprometeu em algumas dioceses. Mas vejo que a Conferência Episcopal tem muito a fazer.

Criaram uma comissão sem vítimas, sem especialistas independentes, não existem políticos e a preside alguém acusado de encobrimento pelas vítimas. É uma comissão ou um lifting?

A Conferência Episcopal Alemã também criou uma comissão que se ocupou do tema. Foi um passo adiante. Então os bispos eram os responsáveis em 2010. E há três anos pediram um grupo de especialistas independentes, uma investigação do que ocorreu. O resultado foi apresentado há sete semanas. Leva tempo, mas vai acompanhado da tomada de consciência da sociedade.

E da Igreja.

Claro, a linguagem para falar da sexualidade é importante. E a capacidade de admitir erros, ainda que se perda credibilidade e te faça ficar mal.

Você diz que a Conferência Episcopal Espanhola (CEE) poderia fazer mais. O que deveria fazer?

Dar justiça às vítimas e fazer todo o possível para que não haja mais abusos no contexto eclesial. Fazer um trabalho de intervenção, prevenção e acolhida às vítimas. Vejo que é necessário dar passos como fizeram os franceses, uma comissão que tratará todas as denúncias e trabalhará com as vítimas para escutar sua voz. A Igreja espanhola tem muitas instituições de caridade, sociais, educativas... E a formação do pessoal que trabalha com os jovens é fundamental.

O responsável das finanças da CEE diz que o número de abusos da Igreja espanhola é irrelevante.

Não conheço os casos. Não sei a quem se refere. Mas sabemos pela Congregação para a Doutrina da Fé que as denúncias vêm de todos os países. Assim, não é que não haja. Não sei o que considera uma referência para comparar. Ademais, sempre digo que não podemos fazer comparação com outros ambientes. Um abuso cometido por um sacerdote tem um peso mais grave, representa a confiança em Deus. E essa confiança se destrói, é mais grave.

É importante obrigar os bispos a fazer denúncias à Justiça?

A linha da Igreja é que se siga a legislação do país onde se está. Na Espanha não é obrigatório, como na Itália. Porém não há uma obrigação legal somente, mas também moral. Em alguns países como a França sim existe. Eu distinguiria entre um abuso que se acontece no presente, onde sim, creio que deveria ser feito de tudo para que haja justiça nos tribunais. Porém, se falamos, como normalmente é em 95% dos casos, de abusos cometidos há mais de 25 anos, tem que poder respeitar se a vítima não quer ir à polícia. Muitas vezes não quer porque seria difícil verificar os fatos ante um tribunal sobre algo que passou há tanto tempo. Tem que valorizar como se respeita a vontade da vítima e a necessidade de justiça.

Mas onde é obrigatória há menos casos.

Não diria tanto. Ademais, depende da fiabilidade do sistema judicial. Em países onde a polícia ou o sistema judicial é corrupto, é difícil implantar essa lei.

Não é o caso da Espanha, onde talvez seria de ajuda.

Sim, se pode introduzir e fala-lo. Porém será, segundo muitos especialistas, importante salvaguardar o direito da vítima de decidir se quer ou não denunciar. Se devem ponderar as medidas.

Porém nas linhas guia de 2011, do papa Bento XVI, se reconhecia essa obrigatoriedade.

Sim, de colaborar com as autoridades civis.

Isso ainda não se faz sempre na Espanha.

Não conheço bem. Eu acredito que sim... mas é necessário que se faça.

O governo anunciou que cancelará a prescrição do delito para abusadores de menores. Acredita que é útil?

Aqui também há uma grande discussão. Por que somente esses crimes? Na Alemanha não acontece e o ministro da Justiça se pronunciou contra. O único delito imprescritível é o assassinato. O sistema judicial de prescrição tem um sentido. Se pode discutir uma prolongação, claro. A Igreja de fato, tem o direito de levantar essa prescrição em alguns casos. Assim poderia regular.

O que devemos esperar do encontro dos bispos em fevereiro que falará sobre abusos?

Espero que trate a questão da responsabilidade e da transparência, seja do bispo ou do provincial. Também da colaboração com o Estado. Em resumo, qual é a responsabilidade de cada um.

Sair sem medidas concretas poderia ser visto como um mero ato propagandístico?

Espero que hajam coisas concretas. Porém não pensemos que isso se resolverá como um milagre de um dia para o outro. Necessitamos uma legislação, uma atenção às linhas guia e trabalhar para uma mudança cultural. E isso levará tempo. Assim que para mim o principal é que passos se seguiriam depois do encontro.

Os conservadores da Igreja dizem que há uma relação entre o alto número de homossexuais que estão não Igreja e os abusos.

A questão é abuso de poder. E o Papa o fez presente na Carta ao Povo de Deus. É o núcleo. Ser homossexual ou heterossexual não leva ao abuso. E isso dizem todos os psiquiatras, psicólogos ou terapeutas como eu. Tampouco o celibato. A pergunta principal é como vive as relações com as outras pessoas. Não são todos os sacerdotes que abusam de meninos que se declaram homossexuais. Antigamente somente havia relações com homens, e isso explica uma parte desse fenômeno.

O próprio Papa foi acusado de encobrir abusos. Ninguém é intocável nesse assunto?

O Papa, de certa forma, aceitou as críticas que lhe fizeram. E isso vai na linha de tudo o que vimos faz 13 meses, com o #MeToo. Os deuses de Hollywood e do esporte, que eram intocáveis até esse momento, mesmo que as pessoas soubessem que existiam os abusos, de repente foram tocadas. O mesmo passou com o ex-cardeal McCarrick e o arcebispo de Adelaide, na Austrália.

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