EUA. Amadorismo na Conferência dos Bispos

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16 Novembro 2018

Sempre fico feliz em participar da reunião da Conferência dos Bispos em Baltimore, em novembro. Vejo de perto os debates que determinam a forma e a direção da Igreja nos EUA, visito amigos e colegas da imprensa religiosa e os bolinhos de siri são deliciosos. Este ano, os bolinhos estavam deliciosos e foi bom rever amigos e colegas, mas o que eu testemunhei na Conferência dos Bispos dos EUA foi muito amadorismo.

A reportagem é de Michael Sean Winters, publicada por National Catholic Reporter, 15-11-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

No dia 12 de novembro, o cardeal Daniel DiNardo, Presidente da Conferência, expressou sua decepção ao anunciar a decisão do Vaticano de adiar a votação em propostas concretas para enfrentar a crise de abuso sexual do clero. No coffee break, os bispos estavam furiosos, queixando-se de que Roma puxou seu tapete. Até mesmo os bispos mais entusiasmados com o Papa Francisco ficaram angustiados, preocupados que ele não entendesse os holofotes da mídia em que os bispos estavam trabalhando.

Mas, quando os bispos começaram a discutir as propostas, no dia 13 de novembro, logo ficou óbvio que eram mal concebidas e cairiam por terra sem qualquer ajuda de Roma. Criar outra comissão de supervisão, com custos consideráveis e ainda mais burocracia, para monitorar 200 bispos, sendo que muito poucos provavelmente não quebraram seus votos celibatários, não me pareceu muito prático quando começaram a discutir o assunto. A comissão proposta informaria acusações ao núncio, mas isso já acontece e ninguém se preocupou em perguntar a ele se queria uma comissão para ajudá-lo no trabalho. Os padrões de conduta pareciam vagos e mal estruturados. Tudo parecia amador.

Entendo a necessidade de envolver os leigos. Mas mesmo assim parecia muito fraco. Quero que os bispos façam mais do que simplesmente fixar normas para monitorar o abuso sexual. O acobertamento do abuso é um sintoma de uma cultura clerical, que começou no século XVI para resolver problemas-chave, sobreviveu e chegou aos anos saudáveis. Mas, assim como os reformadores no Concílio de Trento não pagaram ninguém para fazer seu trabalho, os bispos hoje não podem terceirizar a conversão necessária para tornar essa cultura saudável. Eles devem fazer o seu trabalho também.

Foi muito engraçado ver um grupo de reforma liberal e um observador conservador pedirem aos bispos para se vestir diferente, como se isso não pudesse ser desconsiderado — com razão — como um golpe bobo de RP na melhor das hipóteses e como uma tentativa fraudulenta de conversão na pior.

Sentia-se muita raiva do ex-cardeal Theodore McCarrick, juntamente com justificável indignação de que alguém que viveu uma vida dupla por tanto tempo e cujos supostos atos criminosos duraram tanto tempo poderia crescer tanto na hierarquia. Mas, francamente, olhando ao redor da sala, em quase todos os lugares havia a evidência das nomeações ao episcopado frequentemente malfeitas que assombravam os reinados dos papas João Paulo II e Bento XVI.

McCarrick pode ter atacado seminaristas, mas o arcebispo de São Francisco, Salvatore Cordileone, atacou a homofobia de algumas pessoas ao chamar a atenção para um estudo — uso o termo de forma vaga — realizado pelo padre Paul Sullins, ex-professor da Universidade Católica da América, que afirmava demonstrar uma ligação entre a homossexualidade no clero e abuso sexual. O estudo não faz sentido.

Anteriormente, só tinha ouvido Sullins distorcer a doutrina social católica, mas aparentemente ele está disposto a ir procurar dados para um caso sociológico tendencioso — e construir um bode expiatório fácil. Cordileone comprou a ideia.

McCarrick pode ter vivido uma dupla vida, mas o que fazer com a piedade do bispo Joseph Strickland, de Tyler, Texas, que falou de forma comovente sobre a vocação de um bispo cristão antes de passar para um protesto realizado por Michael Voris, cheio de ódio, e Church Militant, em que os convidados foram recebidos com convites a todos os clérigos homossexuais a renunciar e glorificando o arcebispo Carlo Maria Viganò como "herói". Strickland deve conseguir sentir o ódio venenoso que exala daquela multidão de fanáticos contra os homossexuais.

Meu velho amigo de seminário, o bispo Michael Olson, de Fort Worth, Texas, falou com emoção na voz, responsabilizando os irmãos bispos por nem mesmo terem desconvidado McCarrick de futuras reuniões. O Papa exigiu que McCarrick vivesse em um monastério muito distante. Mas o bispo Robert Finn, anteriormente da Diocese de Kansas City-St. Joseph, estava sentado bem ali. As alegações contra McCarrick não foram provadas em tribunal nem em julgamento eclesial, mas Finn é um criminoso condenado. Por que Olson queria tanto atacar McCarrick e não Finn? Fiquei feliz quando Olson disse a eles para repudiarem e ignorarem o pedido de Viganò de renúncia do Papa, mas por que não repudiar todo o seu "testemunho"?

DiNardo deve sair da presidência da conferência. Não houve nenhuma liderança antes nem durante a reunião. Em 2002, em Dallas, o arcebispo de Atlanta, Wilton Gregory, foi presidente da conferência e soube interagir com o público, consultando extensivamente os irmãos bispos. Gregory é um líder nato e explicou incansavelmente o que estava acontecendo para a imprensa que tinham que comunicar as decisões de Dallas para o mundo. DiNardo sequer apareceu na coletiva de imprensa do dia 14 de novembro para tirar dúvidas, e havia muitas.

O prelado que chegou mais perto de abordar o problema foi o cardeal Joseph Tobin, de Newark, Nova Jersey. No dia 13 de novembro, ele disse que sentia que os bispos tinham perdido a credibilidade em seu próprio ministério e ao ouvir os outros bispos, e essa pergunta foi feita a ele enquanto ele aguardava para falar. Por piores e mais vergonhosos que tenham sido os acontecimentos do verão, o que é que havia antes se sua credibilidade pode ser perdida tão rapidamente?

Acho que esta é a pergunta que o Papa quer que eles se perguntem: Onde está sua credibilidade como bispo? Acho que o Santo Padre sabe que sempre vai haver pervertidos, mas o que foi de casos isolados de um comportamento horrível a uma crise foi a cultura clerical que procurou se proteger em vez de proteger as crianças, que se preocupou mais com o escândalo em si do que em ter prejudicado as crianças. É isso que tem de mudar. Sempre haverá sacerdotes, professores, líderes do grupo de escoteiros que tentar abusar sexualmente de uma criança. A questão é como ministros do Evangelho devem responder? E, ainda que sempre haja ministros ignorantes ou cruéis, como se forma uma cultura cujos padrões de comportamentos cruéis de acobertamento de crimes ficaram tão difundidos?

Neste sentido, o Papa Francisco vai ter que explicar o comportamento de seu antecessor, o Papa João Paulo II. Ele criou os padrões que se tornaram regra por se recusar a se reunir com as vítimas e negar as acusações não ouvidas. Ele chegou perto do impossível para laicizar pedófilos criminosos e, para ser franco, promoveu McCarrick não uma nem duas, mas três vezes. São João Paulo era um homem místico e santo, e não duvido que seus assessores esconderam dele informações importantes. Santo ele era, mas era "o Grande"? Quando não foi capaz de ver além do que os assessores deixaram obscuro?

E se McCarrick teve de entregar o chapéu vermelho, certamente há dois outros chapéus vermelhos que deveriam ser aposentados: os do cardeal italiano Angelo Sodano e do cardeal polonês Stanislaw Dziwisz, respectivamente, antigo Secretário de Estado e secretário pessoal de João Paulo II. Eles sabiam. Eles tinham que saber. E não só de McCarrick.

Em poucos meses, os presidentes das conferências dos bispos do mundo todo vão se reunir no Vaticano para discutir a questão do abuso sexual do clero. O Santo Padre tem poucos meses para preparar uma reunião de consequências singulares. Ele deve consultar os bispos que não só compreendem o problema, mas podem demonstrar alguma competência e sabedoria na elaboração de propostas para enfrentá-lo.

Até lá, já terá acontecido a retirada dos bispos dos EUA e vamos ver qual foi o seu efeito. Suspeito que para alguns deles, os que acreditam que já resolveram todos os enigmas da revelação e para os quais já se completou a redução da religião à ética, daí a legalismos e, por fim, à política, será mesmo preciso cair do cavalo. Longe de mim presumir qualquer coisa.

Talvez o Espírito Santo os inspire à conversão de formas novas e profundas. Esperamos que sim. Na verdade, no final da reunião dos bispos em Baltimore, a esperança era realmente a única coisa a que podíamos nos agarrar. Talvez essa seja a lição que o Papa queria que aprendêssemos.

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