A renúncia de Dom Robert Finn é um momento amargo porém necessário

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07 Maio 2015

"A renúncia do Robert Finn como bispo da Diocese de Kansas City-St. Joseph, Missouri, EUA, é um momento amargo porém necessário de ajustes para os líderes da Igreja Católica caso desejam começar a lidar seriamente para reconquistar a confiança de suas comunidades, há muito tempo traída", avalia o editorial de National Catholic Reporter, publicado no dia 04-05-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Segundo o editorial, "Finn se tornou o caso paradigmático da vontade da Igreja em responsabilizar os bispos".

Eis o editorial.

A renúncia do Robert Finn como bispo da Diocese de Kansas City-St. Joseph, Missouri, EUA, é um momento amargo porém necessário de ajustes para os líderes da Igreja Católica caso desejam começar a lidar seriamente para reconquistar a confiança de suas comunidades, há muito tempo traída

Deixemos claro que este momento é apenas um começo. Finn foi removido por causa justa, segundo nos disseram. Finn foi condenado criminalmente por não informar às autoridades civis sobre o Shawn Ratigan, sacerdote que se declarou culpado por possuir e produzir pornografia infantil. Ratigan foi sentenciado a 50 anos de prisão.

Finn também violou a Carta para a Proteção de Crianças e Adolescentes, mais conhecida como “Carta de Dallas”, que os próprios bispos americanos escreveram para orientar a resposta da Igreja à violação às crianças pelo clero.

A Carta de Dallas é a ferramenta mais clara que os bispos podem usar para garantir aos católicos profundamente céticos, sem mencionar o público geral, de que eles romperam com as práticas desprezíveis do passado, quando acobertavam predadores sexuais. A Carta de Dallas é um documento imperfeito, porém é o único ponto de referência que os bispos possuem para medir a integridade deles sobre o assunto. É por isso que Finn se tornou o caso paradigmático da vontade da Igreja em responsabilizar os bispos.

Pode parecer injusto que Finn tenha recebido este papel. Os bispos e cardeais que deveriam ter sido processados por acobertar crimes maiores e mais horríveis do que aqueles ignorados por Finn evitaram, através de tecnicalidades jurídicas, tal escrutínio e se aposentaram tranquilamente de seus cargos.

Os bispos que supervisionavam a crise eximiram-se de ter qualquer responsabilidade no escândalo. Uma tentativa descarada de contornar as evidências reveladoras de que eles haviam, há muito tempo, ignorado a situação das crianças vítimas de abusos, ao mesmo tempo em que se engajavam em esquemas elaborados para ocultar comportamentos horrendos de milhares de sacerdotes. Qualquer falta de equidade aqui é o resultado, nada mais nada menos, da cultura clerical que, primeiro, buscava proteger a si mesma e os seus privilégios.

Somente quando forçados pelos processos jurídicos e pela pressão pública é que os bispos dignaram-se a considerar as feridas profundas infligidas nos mais vulneráveis da família católica.

O exemplo de Finn mostra como é fácil para aqueles com poder de autoridade ignorarem até mesmo os passos mais básicos de prevenção. A Igreja fez grandes avanços em tais áreas, exigindo os antecedentes, educando tanto os ministros adultos como as crianças adequadamente em relação aos limites desejados e criando ambientes seguros para os menores. No entanto, o recente “Relatório Anual sobre a Implementação da Carta para a Proteção de Crianças e Adolescentes” deixa claro que uma diligência contínua é essencial – a qual está carecendo em alguns lugares ainda.

“Embora um progresso substantivo tenha sido feito, não devemos concluir que o abuso sexual de menores seja um problema do passado, que foi adequadamente resolvido”, escreveu Francesco Cesareo, presidente do Conselho de Revisão Nacional [órgão que assessora os bispos americanos]. Cesareo alerta contra a “flexibilização dos princípios da Carta de Dallas”, referindo-se a exemplos de frouxidão em algumas dioceses em fazer valer os padrões estabelecidos. Qualquer bispo que pensa que pode relaxar sobre esta questão deve olhar atentamente para Kansas City.

Cesareo também observa que a Diocese de Lincoln, no estado do Nebraska, e cinco eparquias se recusaram a cooperar com os procedimentos de auditorias.

Finn renunciou, e nos foi dito que ele assim o fez por causa da maneira como lidou em um caso de abuso sexual. Porém, não sabemos exatamente o que aconteceu. Não sabemos, pois não há procedimentos estabelecidos para se destituir um bispo que falha ao lidar com casos de abusos sexuais. Se existissem tais procedimentos, todas as provisões da Carta de Dallas poderiam ser aplicadas, e a Diocese de Lincoln ou iria cooperar ou o seu bispo teria sido punido.

Disseram-nos que, sob os auspícios da comissão do Papa Francisco para tratar dos casos de abuso sexual, estão sendo pensados alguns procedimentos para essa finalidade; e, no mês passado, nos foi dito que o Conselho dos Cardeais trouxe à pauta a questão da responsabilização dos bispos. Porém, nada de concreto vimos acontecer ainda. Até que tenhamos visto procedimentos reais por escrito e casos concretos de processos contra os bispos infratores, permaneceremos céticos.

O Conselho dos Cardeais precisa ouvir Teresa White, vítima de abusos sexuais que fez parte de um acordo, em 2008, junto à Diocese de Kansas City-St. Joseph.

Ela disse, em 21 de abril – dia da renúncia de Finn –, que é importante conhecer o processo que o levou a renunciar. “Eu quero uma responsabilização plena. Não quero uma responsabilização parcial”, declarou. “Eu não quero mais ações que não resultam em nada. Quero, sim, que eles se responsabilizem em proteger as crianças e os jovens”.

Durante 30 anos, ouvimos estes mesmos sentimentos expressos por tantas outras vítimas. Já passou da hora de Igreja ter um processo claramente delineado para responsabilizar os bispos por suas ações e omissões na condução da problemática dos abusos sexuais em suas dioceses.

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