Abusos e clericalismo: dúvidas sobre a nomeação de McCarrick

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15 Setembro 2018

No diálogo com os jesuítas na Irlanda, Francisco voltou a falar sobre a origem dos abusos sexuais, identificando-a no clericalismo. “O elitismo, o clericalismo – disse o papa – favorecem todas as formas de abuso. E o abuso sexual não é o primeiro. O primeiro é o abuso de poder e de consciência”. Palavras que se aplicam perfeitamente ao caso de Theodore McCarrick, o cardeal molestador de seminaristas e abusador de jovens, que Francisco puniu fortemente, obrigando-o a se retirar a uma casa, removendo-lhe a púrpura após o surgimento de uma denúncia de abuso de um menor.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 14-09-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Esse caso que põe em discussão os mecanismos das nomeações episcopais nos últimos 30 anos, como revelam novos detalhes sobre as influentes oposições à nomeação a Washington do wojtyliano liberal McCarrick no ano 2000: entre elas, deve-se incluir a do cardeal John Joseph O’Connor, outro purpurado wojtyliano, que morreu aos 80 anos como arcebispo de Nova York.

Os grupos político-midiáticos e os jornalistas que colaboraram com o ex-núncio Carlo Maria Viganò para escrever, ajustar e, depois, divulgar o “comunicado” com o clamoroso pedido de renúncia do pontífice insistem em dizer há semanas que o problema na Igreja não são os abusos de menores, mas sim a homossexualidade.

A afirmação é repetida pelos partidários explícitos e ocultos de Viganò e é apoiada por muitos “influenciadores” da blogosfera conservadora, especialmente italiana, ativos há meses na implacável campanha contra a participação do jesuíta James Martin no Encontro Mundial das Famílias em Dublin.

Mas é realmente assim? Realmente a raiz, a origem do problema dos abusos se origina na homossexualidade dos padres? As estatísticas nos dizem que uma parte consistente das violências contra menores tem adolescentes do sexo masculino como vítimas. Não é um mistério que existiram no passado e existem hoje “lobbies gays” que agem como grupelhos.

O Papa Francisco, no rastro dos documentos mais recentes da Santa Sé, lembrou aos bispos que não deixem entrar nos seminários pessoas com tendências homossexuais enraizadas. Dito isso, resta a pergunta: têm razão aqueles que hoje se esforçam para minimizar os abusos de menores – como se fosse um problema secundário – para concentrar tudo na homossexualidade?

Um olhar sem preconceitos para o triste caso de McCarrick mostra exatamente o contrário. Apesar de os “editores” de Viganò tentarem reduzir tudo à orientação e à prática sexual do bispo molestador, os testemunhos dos ex-seminaristas da Diocese de Metuchen e Newark descrevem uma história bem diferente.

De fato, também no caso McCarrick, o problema é o clericalismo, o abuso de poder e de consciência, que vem antes do abuso sexual e é cometido por pessoas – sacerdotes ou bispos – que nunca podem ser considerados do mesmo modo que suas vítimas, sobre as quais exercem uma influência e, muitas vezes, uma forma sutil ou evidente de chantagem.

Isso aparece com toda a evidência no caso das crianças e dos jovens. Mas também pode acontecer com pessoas adultas mais ou menos vulneráveis, sem, com isso, querer colocar as duas situações no mesmo nível.

O desastre McCarrick – excluindo resultados que ainda não surgiram em relação à sua inegável habilidade como coletor de dinheiro que certamente não deixava indiferentes os seus altos contatos vaticanos desde os anos 1990 – é um caso evidente de abusos psicológicos, abusos de poder, de consciência e sexuais. Tratado por muito tempo apenas como um caso de prática homossexual.

Não, McCarrick não tinha relações homossexuais. Ele molestava e abusava seminaristas em nome do seu poder episcopal, fazendo com que eles entendessem que o fato de ir à praia com ele e de se submeter às suas atenções era uma passagem obrigatória para ser mais bem conhecido por ele e para chegar à ordenação sacerdotal.

Já foi revelado que, nos Estados Unidos, houve, entre outros, um opositor de muita autoridade à promoção de McCarrick a Washington. Trata-se do cardeal John Joseph O’Connor, arcebispo de Nova York de 1984 a março de 2000, quando morreu ainda no cargo, três meses após ter completado 80 anos de idade por causa de um tumor no cérebro.

O’Connor, que chegou à Big Apple depois da partida de McCarrick, tinha acesso às informações dos arquivos da diocese onde o futuro cardeal molestador vivera e trabalhara por muito tempo. E é possível que ele tivesse alguma noção dos hábitos do arcebispo da vizinha Diocese de Newark.

O’Connor foi consultado sobre o “fornecimento” da Diocese de Washington, apesar de estar gravemente doente? É difícil de levantar a hipótese contrária. A questão é se, ao manifestar essa sua oposição – pode-se supor, sob a forma de uma carta confidencial, como ocorre nesses casos –, O’Connor fez menção explícita ao problema dos abusos sexuais de McCarrick contra os seminaristas. Ou se ele, diplomaticamente, limitou-se a dar a entender que havia boas razões para não o promover, mas sem explicitá-las.

A nomeação de McCarrick foi publicada seis meses e meio após a morte de O’Connor, ocorrida no dia 3 de maio de 2000, quando o arcebispo de Washington até aquele momento no cargo, o cardeal James Aloysius Hickey, já tinha completado 80 anos de idade.

O ex-núncio Viganò lembrou que o então prefeito da Congregação para os Bispos, Giovanni Battista Re, se opusera à nomeação porque McCarrick seria apenas o 14º na lista dos candidatos.

Havia, talvez, suspeitas sobre os abusos dele na origem dessas dúvidas e oposições? Mais uma vez, Viganò joga toda a responsabilidade pela promoção de McCarrick sobre o secretário de Estado Angelo Sodano, quando se sabe muito bem que, naquela época, todo o poder em relação às nomeações certamente não estava nas suas mãos.

De fato, o ex-núncio, em seu dossiê, acaba vendendo João Paulo II como um doente incapaz de entender e de querer, nada menos do que cinco anos antes da sua morte. Uma evidente falsificação da realidade.

Mas o que chama ainda mais a atenção, na reconstrução oferecida por Viganò, entre as dezenas de personagens que ele elenca, acusando-os de acobertamentos (sem fornecer provas), como já foi observado por muitos, é a ausência do nome de Stanislao Dziwisz, secretário particular do Papa Wojtyla, na época ex-bispo (ele seria promovido a arcebispo de Cracóvia em 2005 e elevado ao cardinalato em 2006).

É preciso apurar se a opinião negativa de O’Connor, o homem mais próximo do Papa Wojtyla nos Estados Unidos, chegou ao seu destino. E, se sim, como McCarrick fez para convencer “o apartamento” (termo usado na época para indicar o círculo muito próximo do pontífice) que os rumores sobre ele eram apenas calúnias?

Por fim, outro detalhe referente não à nomeação, mas sim à renúncia de McCarrick. Como vimos, o antecessor, Hickey, permaneceu no cargo até seus 80 anos, enquanto o sucessor, Donald Wuerl, está prestes a completar 78 anos. O que aconteceu com McCarrick? De acordo com informações obtidas pelo Vatican Insider, o cardeal molestador, ao completar 75 anos, no dia 7 de julho de 2005, depois de ter apresentado a renúncia ritual, teria obtido uma prorrogação de dois anos, como, aliás, ocorria habitualmente, pelo menos para os cardeais arcebispos com boa saúde.

Entre outras coisas, tendo chegado a Washington já com 70 anos, McCarrick, quando completou a idade canônica da renúncia, liderara a diocese por apenas quatro anos e meio. No entanto, o purpurado não completou os dois anos de prorrogação. Bento XVI aceitou sua renúncia e o removeu do cargo no dia 16 de maio de 2006, oito meses depois daquele aniversário.

É possível que essa decisão esteja ligada ao surgimento das denúncias que levaram às indenizações nas dioceses de Metuchen e Newark? O que é certo é que, no ano seguinte, em 2007, McCarrick recebeu o primeiro “pedido” (requisição, e não sanção canônica) do papa, que lhe foi transmitido pelo núncio Pietro Sambi, que o convidou a deixar o seminário e a levar uma vida retirada de oração.

Como se sabe, também nesse ponto, a memória de Viganò demonstrou-se falaz: o purpurado molestador continuou levando a vida de antes, continuou viajando ao Vaticano e não levou em consideração a recomendação do Papa Ratzinger durante os cinco anos seguintes do seu pontificado.

O próprio ex-núncio que hoje pede a renúncia de Francisco (isto é, do papa que removeu a púrpura de McCarrick) encontrou-se e celebrou várias vezes com o cardeal abusador, elogiando-o também em público.

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