McCarrick, o primeiro pedido (não sanção) de Bento em 2007

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12 Setembro 2018

Aquela de Bento XVI contra Theodore McCarrick não foi uma "sanção”, nem uma ordem formal: foi um pedido, uma recomendação respeitada provavelmente comunicada ao interessado em nome do Papa já no final de 2007. McCarrick levou um ano antes a atender ao pedido do Papa Ratzinger e deixar o seminário Redemptoris Mater, em Washington, mas nunca levou a sério o pedido para manter um "perfil discreto" e se aposentar para viver em oração. Certamente, o Núncio Pietro Sambi, personalidade sanguínea e fiel executor da vontade papal e exemplo de diplomata obediente, fez várias tentativas antes de convencer McCarrick, porém sem jamais conseguir sua adesão à vontade do Papa. Isso é o que emerge do relato de uma nova fonte que teve conhecimento direto dos eventos que ocorreram entre 2007 e 2011 em Washington.

A reportagem é de Salvatore Cernuzio e Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 10-09-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

O affaire Viganò, que trouxe à luz a subestimação e a má gestão do caso McCarrick durante os últimos vinte anos, está lentamente deixando claros seus contornos: é evidente que o ex-núncio para os Estados Unidos citou datas e documentos em sua posse (ou que passaram sob seus olhos) sobre os quais não há nenhuma razão para duvidar. Mas agora é igualmente evidente - e isto está provado - que o autor do "comunicado" foi seletivo em suas memórias. De fato, quando Viganò organiza suas memórias, estas aparecem formuladas de forma unilateral para prejudicar Francisco, descarregando sobre ele toda responsabilidade, mesmo ao custo de mostrar São João Paulo II como um Papa incapaz de entender e de tomar decisões já no ano 2000, ou de justificar a falta de sanções contra McCarrick de parte do papa Ratzinger por causa de seu caráter suave.

Que o aparato de acusação do memorial do ex-núncio seja fortemente viciado nesse sentido, através do recurso a meias verdades e de uma astuta dosagem de omissões, é um dado de realidade. Dois exemplos entre os mais flagrantes: de acordo com o comunicado de Viganò teriam existido "sanções” de Bento XVI contra o cardeal EUA, que depois teriam sido tiradas após a eleição de Francisco. Tendo sido demonstrada a falsidade da suposição (McCarrick não mudou de vida, senão por um breve período de tempo, inicialmente fingindo mudar sua vida, e, depois, continuou a viajar e até se reuniu várias vezes em Roma com o Papa Ratzinger), eis que Viganò foi obrigado a se corrigir: as sanções de Bento XVI teriam existido sim, mas McCarrick não as obedeceu e o papa não as fez respeitar. No entanto, tudo nos leva a considerar que não se tratasse de sanções e que, portanto, Francisco não tenha tirado absolutamente nada.

O segundo exemplo relaciona-se com o famoso primeiro fugaz encontro do então núncio nos Estados Unidos com o novo Papa, em 21 de junho de 2013: Viganò escreve que Francisco nem sequer o deixou se apresentar e se mostrou agressivo no seu confronto. Mesmo sobre isso, porém, o bispo não se lembra bem e é desmentido pelas imagens da televisão. A pergunta é: mas se Viganò tem lembranças imprecisas e unilateralmente dirigidas contra o atual Pontífice nos dois casos acima mencionados, pode ser considerado totalmente confiável quando relata a conversa que teve com Francisco durante a primeira audiência, em 23 de junho de 2013? As palavras usadas foram realmente aquelas que Viganò relata, ou, como nos dois casos mencionados acima, o ex-núncio forçou o tom?

Voltemos ao pedido de Bento XVI. Em seu "comunicado” Viganò data o evento, hipoteticamente, em 2009-2010, devido ao fato de que, por não ter tido conhecimento dele na qualidade de Delegado para as representações pontifícias, presume que tais decisões tenham sido tomadas (com um atraso inexplicável) somente depois de sua transferência da Secretaria de Estado para o ‘Governatorato’. Na realidade, uma nova testemunha - que pediu anonimato - revela ao Vatican Insider que a primeira comunicação a McCarrick com o convite para deixar o seminário Redemptoris Mater e a recomendação de viver retirado em oração, ocorreu em dezembro de 2007. "Posso assegurar que isso ocorreu em dezembro de 2007. O então núncio para os Estados Unidos, o arcebispo Pietro Sambi, transmitiu ao Cardeal McCarrick a disposição que lhe foi comunicada por Roma, pelo então Prefeito da Congregação para os bispos, o Cardeal Giovanni Battista Re".

Atenção às datas: estamos no final de 2007, dois anos e meio depois da eleição de Bento XVI. Naquele momento, dando crédito à reconstrução do "comunicado” do ex-núncio, no Vaticano um ano antes havia chegado a Memória de acusação do ex-padre Gregory Littleton, transmitida na Secretaria de Estado pelo núncio Sambi. Se a fonte estadunidense consultada pelo Vatican Insider que teve conhecimento direto dos fatos lembra com precisão, devemos supor que o pedido-recomendação do Papa Ratzinger tenha sido transmitido pela primeira vez a McCarrick após caso Littlelton, mas antes da publicação online do “Statement for Pope Benedict XVI about the pattern of sexual abuse crisis in the United States”, de Richard Sipe, em que também há referência aos comportamentos impróprios e aos abusos de McCarrick com os seminaristas, datado de 23 de abril de 2008.

Em 2007, McCarrick residia há mais de um no Seminário Redemptoris Mater em Washington, pertencente ao Caminho neocatecumenal, mas de propriedade da diocese. Havia se mudado em julho de 2006, um mês após a conclusão das obras para a realização desse enorme complexo mais similar a um campus que a um instituto diocesano, construído por decisão do próprio cardeal. Desde o projeto inicial do Redemptoris Mater, que foi construído em uma propriedade anteriormente pertencente à ordem dos Irmãos das Escolas Cristãs (Lassalistas), estava prevista uma ala reservada exclusivamente para o cardeal, onde ele poderia morar, fazer suas refeições e dormir. Uma área separada do resto do seminário, acessível apenas através de um código eletrônico pessoal. Em resumo, McCarrick não frequentava a vida do seminário nem tinha contato com os seminaristas.

Vale à pena ressaltar, além disso, outro aspecto pouco enfatizado nos noticiários destes últimos dias: não parecem existir denúncias formais ou indicações informais, boatos ou suspeitas - pelo menos por quanto sabemos até agora – que atestem ou até mesmo façam intuir comportamentos inapropriados de McCarrick durante seu episcopado em Washington e nos anos seguintes à sua aposentadoria. Não só não parecem ter sido relatados abusos em seminaristas, mas nem mesmo assédios ou gestos impróprios. O que não deveria ser surpreendente: é altamente provável que o arcebispo recém-nomeado de Washington, logo nomeado cardeal, tivesse percebido a enorme visibilidade que o novo encargo comportava, bem como a proximidade com o poder político e à Casa Branca, que o colocava certamente sob observação. Além disso, como evidenciado por este artigo do Washington Post, o cardeal molestador na época era considerado pela opinião pública como um campeão de "tolerância zero” contra os abusos de menores. A partir dos testemunhos até agora recolhidos sobre a atitude de McCarrick depois de ter deixado a direção da diocese, só emerge que o cardeal resultava uma presença "incômoda”, não facilmente administrável.

Vamos retornar à indicação do núncio, transmitida por via oral a McCarrick no final de 2007. Uma indicação diretamente rastreável à vontade de Bento XVI e transmitida por ele com toda a probabilidade para o secretário de Estado Bertone, ou diretamente ao Prefeito dos bispos, o cardeal Re. Se o Papa Ratzinger decidiu comunicar a McCarrick esse pedido, isso significa – obviamente - que estava ciente das acusações contra o cardeal, mesmo preferindo uma forma de reação branda, motivada pelo fato de que o ex-arcebispo de Washington já estava idoso e aposentado, além do fato de que as denúncias e as indicações referentes a ele se referiam ao passado e não diziam respeito a denúncias de abusos em menores. Bento, então, escolheu esse caminho suave e não demasiado restritivo para McCarrick porque "não queria um escândalo público", conforme relatado pelo National Catholic Register, citando uma fonte próxima ao Papa emérito.

No mais, que Bento tivesse sido avisado dos problemas do cardeal pode ser inferido a partir do fato de que, em 2006, havia aceitado a demissão por limite de idade do cardeal arcebispo, que havia completado 75 anos no ano anterior, embora estivesse em boas condições de saúde e se pensasse que poderia permanecer pelo menos mais um ano no cargo. O fato de que, em 2007, Viganò, na época Delegado para as Representações Pontifícias, não tivesse recebido nenhuma nota escrita ou qualquer indicação (se isso tivesse acontecido, seria declarado em seu comunicado, e ele não teria indicado uma data suposta e posterior) atesta a natureza reservada, pessoal e confidencial da recomendação de Bento XVI.

O que aconteceu então? Passaram-se vários meses antes que o cardeal se decidisse a abandonar as dependências do seminário. Tanto que o próprio Sambi teria pedido ajuda a alguns de seus colaboradores mais próximos para convencer McCarrick a sair e se retirar para a vida privada. O núncio, com as pessoas a quem se dirigiu, não teria feito nenhum aceno explícito a abusos de seminaristas, mas teria sim aludido a “graves acusações”. Somente após o final do verão de 2008, o cardeal iniciou a mudança para a paróquia de St. Thomas. Para aqueles que, dentro ou fora do seminário Redemptoris Mater, perguntassem a ele os motivos para a transferência, McCarrick respondia laconicamente: "Roma me pediu para deixar o seminário", sem fornecer maiores detalhes.

Outro detalhe não deve ser ignorado: a visita de Bento XVI aos Estados Unidos, em abril de 2008, que incluiu as cidades de Washington e Nova York. No encontro com os bispos do país, ocorrido no Santuário Nacional da Imaculada Conceição, em Washington, em 16 de abril, ele está presente na primeira fila entre os cardeais.

O que aconteceu entre o final de 2007 e 27 de julho de 2011, data da morte do núncio Sambi? Em seu "comunicado”Viganò escreve que "o Papa Bento infligiu a McCarrick as citadas sanções canônicas que foram comunicadas a ele pelo Núncio Apostólico nos Estados Unidos, Pietro Sambi. Mons. Jean-François Lantheaume então primeiro Conselheiro da Nunciatura em Washington e Encarregado de Negócios após a morte inesperada do Núncio Sambi em Baltimore, referiu-me quando cheguei a Washington - e ele está pronto a dar testemunho – a respeito de um conversa turbulenta, de mais de uma hora, do Núncio Sambi com o Card. McCarrick convocado na Nunciatura, "a voz do Núncio – contou-me Mons. Lantheaume - podia ser ouvida até no corredor." Essas palavras de Viganò demonstram que as intervenções de Sambi em relação a McCarrick foram mais de uma, e ocorreram em diferentes períodos.

Deve-se ressaltar de fato que monsenhor Lantheaume - que já deixou o serviço diplomático da Santa Sé - chegou à nunciatura em Washington não antes da metade de 2010 (aparece pela primeira vez em serviço em Washington no Anuário Pontifício de 2011). Como relata um fato a que teria assistido pessoalmente, de acordo com a nova fonte estadunidense devemos supor que os encontros entre Sambi e McCarrick tenham sido mais do que um e que o núncio em algum momento tenha perdido as estribeiras por causa da falta de obediência do cardeal, em nada disposto a mudar de vida diante daquele que evidentemente permanecia como um pedido do Pontífice e não uma ordem taxativa, e muito menos uma verdadeira sanção canônica.

Não se deve esquecer que desde a primeira comunicação, no final de 2007, até o final do pontificado de Ratzinger, passaram-se mais de cinco anos. Anos durante os quais McCarrick continuou a participar de eventos públicos, a viajar para Roma, a se encontrar com o próprio Bento XVI. Além disso, resulta confirmado que, enquanto Sambi parece insistir, e até mesmo descontrolar-se, levantando a voz diante do cardeal, no período transcorrido por Vigano como núncio para os Estados Unidos durante o pontificado de Francisco (novembro de 2011 - fevereiro de 2013), ele nos relata no "comunicado” ter falado apenas uma vez com McCarrick para transmitir-lhe novamente as recomendações de Bento XVI. Não parece ter insistido, muito pelo contrário. Ele elogiou publicamente McCarrick, como aconteceu em maio de 2012. Em suma, Viganò parece ter em relação ao cardeal molestador uma atitude mais positiva do que aquela de Sambi.

Finalmente, olhando para o contexto mais amplo da operação político-midiática posta em prática no dia em que Francisco celebrava o Encontro Mundial das Famílias, em Dublin, vários dos partidários de Viganò hoje tendem a não enfatizar o clamoroso pedido de renúncia apresentado pelo ex-núncio. Pedido que demonstra por parte de quem o formulou e de quem o subscreveu, e depois publicamente o apoiou, uma concepção singular da natureza da Igreja, reduzida a uma corporation como outra qualquer, com seu CEO submetido ao voto de desconfiança dos acionistas.

É interessante notar como, justamente neste ponto, da frente conservadora estadunidense tenha se levantado a voz de um influente ideólogo da era Trump e do soberanismo, Steve Bannon, certamente não suspeito de nutrir simpatia pelo Papa Francisco. Bannon declarou à Reuters: "A questão não poderia ser mais séria. Não podem existir dossiês, cartas e acusações. O Papa, através de uma cadeia ininterrupta, é o Vigário de Cristo na terra. Você não pode simplesmente se sentar ali e dizer-lhe: ‘Eu acho que você deveria se demitir’". Palavras católicas, que não ecoaram nas declarações dos bispos norte-americanos que se manifestaram imediatamente após a publicação do "comunicado” de Viganò para apoiar a credibilidade do ex-núncio.

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