Tentando entender as acusações contra o Papa Francisco no caso de McCarrick

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28 Agosto 2018

Durante a visita de 32 horas do Papa Francisco à Irlanda no domingo, o tempo frio e chuvoso inquestionavelmente atrapalhou o evento. Os representantes esperavam que cerca de meio milhão de pessoas comparecessem ao Phoenix Park em Dublin para a Missa de conclusão, por exemplo, mas no fim o Vaticano confirmou que o público total foi de 300 mil pessoas.

A reportagem é de John L. Allen Jr., jornalista, publicada por Crux, 27-08-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Mesmo assim, as tempestades meteorológicas que Francisco enfrentou não se comparam com as tempestades metafóricas que aconteceram no domingo, em parte por causa de seu comportamento em relação à crise de abusos sexuais no clero, mas mais especificamente relacionada com uma declaração surpreendente de um ex-núncio papal nos Estados Unidos de que Francisco teria suspendido restrições impostas ao Cardeal Theodore McCarrick colocadas pelo Papa emérito Bento XVI, mesmo tendo sido informado dos casos de má-conduta de McCarrick em junho de 2013.

A bordo do avião papal no domingo, Francisco basicamente pediu aos repórteres que julgassem essas acusações por si mesmos – sugerindo claramente que, se assim o fizessem, as acusações desabariam sobre seu próprio peso.

Supondo que os jornalistas aceitassem a proposta do pontífice, até agora temos apenas a palavra desse ex-núncio, o arcebispo italiano Carlo Maria Viganò, dizendo que informou Francisco pessoalmente, no dia 23 de junho de 2013, sobre as sanções impostas a McCarrick por Bento XVI.

Diversas vezes no domingo fui pressionado por colegas e pessoas comuns para responder a uma única questão: “O quanto deveríamos levar isso a sério?”

Aqui está minha resposta final: Levem a sério, mas com um grande pé atrás.

Ninguém pode simplesmente jogar fora a acusação, principalmente por nunca antes um ex-núncio papal ter acusado um papa de ser cúmplice em algo que se configuraria, se verdade, num crime de encobrimento.

Para ser claro, não se trata de algum anônimo alegando ter enviado uma carta ao papa. Viganò foi o homem do papa nos Estados Unidos por cinco anos, e, durante esse tempo, certamente tinha a permissão e a oportunidade para informar o que ele bem entendesse ao Vaticano.

Além disso, existe uma dimensão simbólica da situação. Francisco foi acusado de não levar em consideração uma alegação de abuso, e, se não houver um esforço verdadeiro e transparente para se chegar à verdade, o discurso do pontífice na Irlanda sobre ser “firme e decisivo na busca pela verdade e pela justiça” pode soar vazio.

Por outro lado, há ao menos quatro razões pelas quais se deve manter um pé atrás.

Para começar, o relato de 11 páginas que Viganò divulgou aos repórteres provavelmente rebaixa sua própria credibilidade em tópicos fundamentais. A carta contém acusações de espécies de transgressões ou comportamentos duvidosos contra não menos que 32 sacerdotes, e, na maioria dos casos, o próprio Viganò constata que suas afirmações são baseadas em nada mais do que suposições e/ou ligação de pontos.

Quando alguém dispara acusações de forma tão sutil, é difícil saber o quanto a sério as devemos levar.

Em segundo lugar, Viganò tem um histórico.

Ele foi participante chave no escândalo do “Vatileaks” envolvendo o Papa emérito Bento XVI, que girou em torno de documentos confidenciais que foram roubados ou vazados à imprensa por um funcionário do papa. Entre esses documentos, havia duas cartas de Viganò dirigidas a Bento XVI e ao cardeal Tarcisio Bertone, o então Secretário de Estado do Vaticano, protestando contra sua nomeação iminente para núncio do Vaticano nos Estados Unidos, uma vez que queria permanecer no Governo da Cidade-Estado do Vaticano e continuar combatendo a corrupção financeira.

Assim como agora, as cartas contêm um misto de detalhes factuais com sugestões e teorias da conspiração, e ele se mostrou com dificuldades - em alguns casos, praticamente incapacitado - de separar o joio do trigo.

Em terceiro lugar, Viganò indiscutivelmente rebaixou sua credibilidade por não lidar com suas próprias responsabilidades em relação ao caso de abuso.

De acordo com um memorando de 2014, tornado público a primeira vez em 2016, Viganò, como núncio, anulou uma investigação - chegando a pedir a destruição da prova em questão - sobre o então Arcebispo John Nienstedt de St. Paul e Mineápolis, que estava sendo investigado por má-conduta com seminaristas e por encobrir casos de abuso sexual. Em 2015, Nienstedt deixou a direção da arquidiocese. Ao nem sequer tentar explicar suas ações no caso de Nienstedt, Viganò deixou em aberto sérios pontos de interrogação.

Em quarto lugar, deve ser difícil para tantos observadores escapar da impressão de que tudo isso foi orquestrado com motivações políticas em mente.

Na carta sobre McCarrick, Viganò claramente revela um viés político geralmente conservador, entre outras coisas nos seus frequentes comentários desdenhosos sobre padres e bispos que ele crê serem excessivamente “pro-gay” - como em uma declaração sem escrúpulos sobre o cardeal italiano Francesco Coccopalmerio e sobre o Arcebispo Vincenzo Paglia: “pertencem à corrente homossexual em virtude de subverter a doutrina Católica com o homossexualismo.”

Também há a dúvida de por que os relatos de Viganò apareceram hoje, justamente no dia em que Francisco estava lutando para resolver os casos de abuso na Irlanda. Somando tudo isso, a divulgação do relato parece ter sido apenas com intuito de atacar alguns como uma manobra orquestrada.

(Como nota de rodapé, se isso foi de fato orquestrado, só pode ter sido por uma orquestra desafinada. Se Viganò tivesse se limitado a uma rápida carta de uma página, focando exclusivamente em acusar Francisco, sua posição de ex-núncio teria garantido um eco maior. Do jeito que coisas foram feitas, é extremamente difícil para muitas pessoas saber o que exatamente pensar sobre o relato.)

“Creio que a carta fala por si mesma, e vocês têm capacidade jornalística o suficiente para chegar a conclusões”, disse o Papa Francisco aos repórteres no domingo.

O tempo dirá quais conclusões chegaremos de fato, mas, num ponto de partida lúcido de momento, provavelmente aqui mistura-se uma curiosidade genuína com um ceticismo saudável.

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