Ex-enviado papal para os EUA convida o Papa a se demitir, dizendo que ele sabia de McCarrick

Revista ihu on-line

Missões jesuíticas. Mundos que se revelam e se transformam

Edição: 530

Leia mais

Nietzsche. Da moral de rebanho à reconstrução genealógica do pensar

Edição: 529

Leia mais

China, nova potência mundial – Contradições e lógicas que vêm transformando o país

Edição: 528

Leia mais

Mais Lidos

  • 'A esquerda foi singularmente incapaz e burra nessas eleições'. Entrevista com Jessé Souza

    LER MAIS
  • Aonde quer chegar Dias Toffoli?

    LER MAIS
  • Ouça mais Racionais e pague melhor os seus funcionários

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

27 Agosto 2018

Poucas horas depois de o Papa Francisco condenar os "repugnantes crimes” de abuso sexual cometidos pelo clero durante a viagem de dois dias à Irlanda, correram notícias nos Estados Unidos de que um antigo embaixador do Papa no país estaria acusando Francisco de ter conhecimento sobre as alegações de abuso contra o ex-cardeal Theodore McCarrick e não ter tomado providências.

A reportagem é publicada por Crux Staff, 26-08-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Mais ainda, o arcebispo italiano Carlo Maria Viganò afirma que Francisco na verdade revogou as punições impostas a McCarrick pelo Papa Emérito Bento XVI no final dos anos 2000, apesar de Viganò ter pessoalmente informado Francisco, em junho de 2013, sobre McCarrick e as acusações de má conduta e abuso.

A notícia foi publicada em primeira mão pelo experiente jornalista católico Edward Pentin, do National Catholic Register, em conjunto com outra agência de notícias conservadora, o LifeSiteNews.

O CBS News falou com Viganò por telefone no domingo, que confirmou que escreveu a declaração e disse que estava falando agora "para combater a grave situação na Igreja, para protegê-la e também para impedir futuros abusos". Ele disse à produtora do CBS News Anna Matranga que era neutro e estava expondo os fatos.

Numa declaração de 11 páginas publicada no sábado, Viganò, de 77 anos, pediu que o Papa Francisco renunciasse. Pentin disponibilizou o texto da declaração aqui [em inglês]. 

"Neste momento extremamente dramático para a Igreja, ele deve reconhecer seus erros e, seguindo o proclamado princípio da tolerância zero, o Papa Francisco deve ser o primeiro a dar um bom exemplo para os cardeais e bispos que acobertaram os abusos cometidos por McCarrick e renunciar junto com todos eles", escreveu.

Viganò foi Núncio Papal dos Estados Unidos de outubro de 2011 a abril de 2016, atuando com os papas Bento XVI e Francisco.

Na declaração, Viganò disse que se encontrou com o recém-eleito Papa Francisco em 23 de junho de 2013 para discutir sobre McCarrick, ex-arcebispo de Newark e Washington D.C., que renunciou no mês passado devido a acusações de ter abusado sexualmente de seminaristas e de um coroinha.

Viganò relatou ter dito a Francisco, sobre as alegações: "Santo Padre, não sei se o senhor conhece o cardeal McCarrick, mas se perguntar para a Congregação dos Bispos há um dossiê enorme sobre ele. Ele corrompeu gerações de seminaristas e sacerdotes e o Papa Bento XVI ordenou que ele se retirasse para viver uma vida de oração e penitência".

A referência é à Congregação dos Bispos do Vaticano, responsável por ajudar o Papa a supervisionar os bispos do mundo todo.

Viganò deu detalhes sobre a penitência que diz ter sido imposta por Bento XVI.

"O cardeal deveria deixar o seminário em que morava", escreveu Viganò. "Ele também foi proibido de celebrar [a missa] em público, participar de reuniões públicas, dar palestras, viajar, tendo a obrigação de se dedicar a uma vida de oração e penitência."

Viganò diz que não sabe exatamente quando essas medidas foram decretadas, mas que ocorreram entre 2009 e 2010.

Também segundo Viganò, as tentativas anteriores de outros enviados do Papa para os Estados Unidos de chamar a atenção de Roma para as acusações contra McCarrick foram obstruídas na Secretaria de Estado do Vaticano, culpando os cardeais italianos Angelo Sodano e Tarcisio Bertone - Secretários de Estado dos papas João Paulo II e Bento XVI, respectivamente.

Viganò também afirma que o cardeal de Washington, D.C., Donald Wuerl, sabia das acusações contra McCarrick, alegando que "Eu mesmo toquei no assunto com o cardeal Wuerl em várias ocasiões" e que "o cardeal mente descaradamente".

Em uma entrevista recente, Wuerl afirmou vigorosamente que não sabia das acusações de abuso contra McCarrick nem das medidas conciliatórias por má conduta com seminaristas nas dioceses de Metuchen e Newark, em Nova Jersey.

"O tempo todo em que [McCarrick] estava aqui e certamente todo o tempo em que estive aqui, nunca houve qualquer notícia sobre isso", disse Wuerl. "Ninguém nunca me procurou e disse que tal pessoa fez isso comigo. Ninguém. Ninguém."

Na declaração ao Catholic News Agency, o porta-voz do cardeal Ed McFadden disse: "o cardeal Wuerl não recebeu documentação nem informação da Santa Sé específica sobre o comportamento do cardeal McCarrick ou qualquer das proibições da sua vida e ministério sugeridas pelo arcebispo Viganò."

Segundo McFadden, o "cardeal Wuerl nega categoricamente que tenha fornecido qualquer informação sobre os motivos da saída do cardeal McCarrick para o seminário Redemptoris Mater".

"O arcebispo Viganò presumiu que Wuerl tinha informações específicas que não tinha", disse o porta-voz.

Em uma nova declaração ao Crux, no domingo, McFadden disse que "apesar do que indica o memorando do arcebispo Viganò, o cardeal Wuerl não recebeu qualquer documentação ou informação durante seu período em Washington sobre quaisquer ações contra o arcebispo McCarrick".

No papado de Francisco, segundo Viganò, as sanções contra McCarrick foram retiradas e o antigo prelado de Washington teve grande influência, fazendo nomeações pessoalmente nos Estados Unidos e no Vaticano. Entre outras coisas, Viganò alega que McCarrick "orquestrou" as nomeações do cardeal Blase Cupich em Chicago e do cardeal Joseph Tobin em Newark.

Apesar dos fortes protestos do memorando, o próprio Viganò foi acusado de má conduta em relação às acusações de abuso sexual.

De acordo com um memorando de 2014, divulgado apenas em 2016, quando era núncio ele revogou uma investigação - chegando a exigir que as provas fossem destruídas - sobre John Nienstedt, então arcebispo de St. Paul e Minneapolis, que estava sendo investigado por conduta imprópria com seminaristas, bem como acobertamento de abuso sexual. Em 2015, Nienstedt demitiu-se do cargo de chefe da arquidiocese.

Não é a primeira vez que Viganò se coloca no papel de delator do Vaticano.

Em 2012, cartas escritas por Viganò para Bento XVI e Bertone estavam no centro do escândalo inicial do Vatileaks, envolvendo documentos confidenciais roubados do escritório do Papa alemão e divulgados para jornalistas por seu assistente pessoal. Nas cartas, Viganò protestava contra a nomeação para ser enviado para os Estados Unidos, alegando que estava sendo punido por tentar limpar a corrupção financeira em sua função anterior, como a segunda principal autoridade do governo de Estado da Cidade do Vaticano.

As acusações foram negadas pelo Vaticano na época, afirmando que advinham "das avaliações errôneas ou de receios com base em provas infundadas, abertamente contraditórias segundo as principais testemunhas".

Em uma série de tweets depois da publicação da declaração de Viganò, a irlandesa vítima de abuso Marie Collins, que estava entre os oito sobreviventes que se reuniram com o Papa Francisco no sábado, durante a visita a Dublin, disse que McCarrick surgiu durante a discussão.

De acordo com Collins, o Papa "disse imediatamente que sabia que o que estava sendo dito era verdade, rejeitou-o e continuou firme na condenação".

"Não sei se o que está na carta [de Viganò] [é] verdade ou não, apenas para relatar o que foi dito", escreveu, acrescentando que se o que o núncio disse é verdade, Francisco "deve ser responsabilizado, assim como qualquer pessoa envolvida em acobertamento".

Em um comunicado no domingo, o bispo de Tyler Joseph Strickland disse que apesar de não saber informações sobre as acusações contra o Papa Francisco e outras pessoas mencionadas na carta de Viganò, ele tem “confiança” neles.

O bispo pediu uma "investigação minuciosa... semelhante às que são realizadas sempre que as alegações são consideradas plausíveis" e disse que qualquer um que seja culpado, em qualquer nível da Igreja, deve ser responsabilizado.

Strickland também pediu que sua declaração seja incluída em todas as missas dominicais da diocese e seja associada à carta de Viganò.

Lucas Heintschel, porta-voz da diocese de Tyler, negou o pedido do Crux para tecer mais comentários no domingo, observando que "Sua Excelência disse tudo o que tinha a dizer por enquanto na declaração que se encontra no site da diocese de Tyler".

"Por favor, reze pelos bispos e sacerdotes", concluiu.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Ex-enviado papal para os EUA convida o Papa a se demitir, dizendo que ele sabia de McCarrick - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV