''A Cúria não esquece. Um anti-Francisco chegará.'' Entrevista com Vito Mancuso

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05 Setembro 2018

Sexo, dinheiro e sangue. Desses três elementos que os mestres do jornalismo do século XX indicavam como fator propulsor para cada aventura editorial, pelo menos dois – sexo e dinheiro – são as questões que mantêm a Igreja pregada à sua consciência periclitante, à verdade oficial exausta e precária, à miséria parcial do seu clero, aos venenos dos seus corvos.

A reportagem é de Antonello Caporale, publicada em Il Fatto Quotidiano, 04-09-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Vito Mancuso é o teólogo italiano que, com mais clareza e severidade, observa e investiga a realidade católica.

“A salvação da Igreja passa pelas mulheres, pela energia que elas conservam e não são postas em condição de liberar, e pela abolição do voto de castidade, que já é insustentável.”

Eis a entrevista.

Pensava-se que o Papa Francisco poderia salvar a Igreja.

Esperava-se a palingênese, e foi grande a admiração pela subversão também simbólica: acima de tudo, a escolha de se chamar Francisco, a recusa a vestir os paramentos papais, a dormir no vistoso apartamento a ele destinado, a viajar nos sedans como chefe de Estado. A expectativa se encheu de esperança. Depois, a esperança foi mantida em vida pela sugestão. Por fim, prevaleceu o princípio de realidade.

Deixamos Ratzinger com os corvos que circulavam por aí, encontramos Bergoglio envenenado pelas acusações de Dom Viganò. Um escândalo eterno.

Estávamos acostumados a um papa que não precisava de esclarecimentos, meias admissões e meias voltas atrás. Agora, cinco anos depois, o efeito-recuo. Francisco não mostra mais que tem a força para libertar a Igreja do seu mal: uma hierarquia egocêntrica e de poder esmagador, um clero que está enterrando a sua missão entre mil porcarias.

O papa não agrada mais?

Sua voz torna-se incerta, seus anos passam, e até o seu rosto está menos luminoso. A missão permanece aquela. O caminho perde atrito.

Francisco também cairá?

A Cúria não esquece que esse papa exerceu seu magistério atacando o clericalismo. Se eu tivesse que apostar, diria que sim: um anti-Francisco é previsível no futuro próximo.

A sua figura também permanecerá enredada por esse clima tão sombrio, tão traiçoeiro?

Não são um, nem dois, nem três casos. Mas os abusos contra menores são contados às centenas ou, melhor, aos milhares. A esse quadro feito de perversões, acrescenta-se uma realidade não menos terrível e conhecida: quantos padres têm amantes estáveis? Quantos deixam o sacerdócio, depois, para uma vida de casal? Quantos, portanto, vivem em pecado?

O voto de castidade, por isso, é insustentável.

É o princípio de realidade que impõe que a Igreja viva o novo tempo decretando a ruptura.

Talvez o temor de um novo cisma inquiete.

Em 1965, quando se anunciou o princípio da liberdade religiosa, a Igreja sofreu o abandono dos lefebvrianos. Mas, quando se caminha juntos, envolvendo o povo da Igreja, o preço é menos salgado do que a inércia atual.

Igreja sem povo.

No Ocidente já é assim. Na minha Bolonha, encontramo-nos na missa em 25 pessoas no domingo, dentro de muros majestosos. Eu pergunto: e daqui a 10 anos quem ainda vai pôr o pé? A fé se transmite principalmente na família. Mas as novas famílias não conhecem a Igreja, não a reconhecem mais.

O bispo da Filadélfia pediu para não fazer o Sínodo sobre os jovens.

O que dizemos a eles? Não somos mais credíveis. A Igreja é como um iogurte vencido. Está fora do tempo. Lembro-me das extraordinárias palavras do cardeal Martini: a Igreja está pelo menos 200 anos atrás. Era verdade. Continua sendo verdade.

Com um problema a mais: nem o papa que se chama Francisco, que recusa todos os privilégios, que fala ao povo, consegue não se sujar pelo escândalo. Lembra a fase do declínio de Ratzinger?

Aquele foi um papado aristocrático. Bento XVI não buscava o aplauso popular, não se importava com isso, absolutamente não lhe interessava. E, quando entendeu que não tinha as forças para continuar, saiu. Francisco, por sua vez, foi chamado para dizer a verdade, até mesmo a mais crua, seguindo o ensinamento de Jesus. Ele não viu que a multidão ao seu redor diminuía lentamente enquanto as suas palavras se tornavam mais duras? Ele não perguntou aos seus apóstolos: vocês também querem ir embora? E Pedro respondeu: Senhor, a quem iremos?

Parece que a verdade, por outro lado, se afasta do caminho de Francisco, torna-se até hostil.

Digamo-lo, porque o maior pecado é a hipocrisia. Todos nós sabíamos das porcarias no ventre doente da Igreja. Era tão vasta e crônica a doença que ninguém pode se isentar. As coisas más sempre vêm à tona, e quem paga a conta são os muitos párocos bons, trabalhadores, comprometidos com a transmissão da fé e com o desvendamento do mistério de Deus. Porque a Igreja tem a missão da oração, da reflexão, de avançar no mistério.

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