O Vaticano sob um golpe hollywoodiano

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30 Agosto 2018

"Também é uma questão de poder. As velhas posições de poder não existem mais. Quando um padre modesto do Laos é escolhido para ser cardeal, inclusive com os privilégios para escolher o próximo Papa, ao invés de um bispo de uma cidade grande e rica, a velha balança de poder é jogada fora. A Igreja já está num outro lugar. A maioria dos cardeais do futuro conclave já foram escolhidos por Francisco, para que, depois dele, seu sucessor seja Francisco II", escreve Francesco Sisci, sinólogo italiano, professor da Renmin University of China, em artigo publicado por Settimana News, 29-08-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o artigo.

Era uma vez, quando tramas eram tramas, e lutas aconteciam com capas e facas, se colocava veneno na sopa ou no chá de ervas antes de dormir. Ou havia o barulho dos punhais nos corredores. Ou ainda, uma insurreição da população e ele, em seu traje branco, era expulso para Avignon ou para um mosteiro eremita nas montanhas, como Celestino V no século 13, o século de Dante, o Papa do gran rifiuto, a grande abdicação, o único na história milenar do papado até o episódio de Bento XVI, cinco anos atrás.

Essas eram as histórias do Vaticano, e depois do quase todo-poderoso Estado Papal. Agora, as histórias são coreografadas, planejadas, e coordenadas como em um filme de Hollywood, com divulgação da mídia em todos os idiomas. O tempora, o mores; é o costume do tempo, no fim das contas.

Atualmente, o desenrolar da trama é o que segue, começando alguns anos atrás, quando Bento XVI ainda não tinha renunciado.

Muitos dos segredos de suas câmaras sagradas vazaram. O mordomo foi declarado culpado, mas talvez ele não tenha sido o único. O Papa Bento XVI renunciou, e outro Papa, Francisco, foi eleito, mesmo que seu nome tenha surpreendido a Cúria e muitas pessoas poderosas.

E então, muitas coisas aconteceram. Um cardeal rompeu o voto de silêncio em uma conversa com o Papa. Outro cardeal foi forçado a renunciar após um escândalo de abuso sexual. Um núncio, a voz e a mente do Papa no exterior, divulgou segredos de meias-verdades e pediu ao Papa que renunciasse; escritores liberais acusaram a Igreja Católica de ser um sindicato criminoso.

Você pode preencher as lacunas como quiser, como em um conto de espionagem fantasioso e angustiante. Ou você pode se valer de elementos da realidade. Bem-vindo à nova teoria da conspiração do século 21, que se parece muito com aquelas da Idade Média.

Para focar nos acontecimentos mais recentes, olhando os noticiários, se parece com um filme hollywoodiano sobre escândalo corporativo onde o vilão, se sentindo contrariado, pede ao seu chefe que se demita, pois ele "também sabia". Pode soar como desrespeito ou loucura tratar da Santa Igreja de 2000 anos de idade desse modo, mas é assim que soam as palavras do arcebispo conservador Carlo Maria Viganò, que alega que o Papa Francisco sabia e encobriu o escândalo de abuso sexual que está ruindo em pedaços a Igreja Católica mundialmente.

Ex-núncio do Vaticano nos Estados Unidos, Viganò, numa longa carta a Francisco, publicada domingo em alguns dos maiores canais conservadores e antagônicos americanos, trouxe o árduo problema do abuso de crianças na Igreja Católica para um estágio completamente novo. Viganò, pela primeira vez desde que o problema foi levantado há cerca de quinze anos atrás, envolveu o Papa no escândalo, aberta e diretamente, alegando que o pontífice sabia dos trespasses e dos crimes do Cardeal Theodore McCarrick com crianças e seminaristas. Fazendo isso, ele forneceu a prova que faltava de que esses não eram incidentes isolados, mas que a Igreja inteira, inclusive seu líder, o Papa, estava envolvido.

As alegações vieram justamente durante a visita de Francisco à Irlanda, onde ele, em um santuário, clamava pelo "perdão do Senhor" pelos escândalos.

Enquanto o Papa rezava por perdão, Viganò pedia sua renúncia: "Nesse momento extremamente dramático para a Igreja, ele deve reconhecer seus erros e, mantendo o proclamado princípio de tolerância zero, Papa Francisco deve ser o primeiro a dar um bom exemplo aos Cardeais e aos Bispos que acobertaram os abusos de McCarrick e renunciar juntamente de todos eles".

Viganò declara que ele, pessoalmente, denunciou McCarrick ao Papa Francisco e que, durante todo esse tempo, Francisco não fez nada em relação ao caso. Viganò também esteve envolvido num escândalo passado do Vaticano que, supostamente, teria sido decisivo para a renúncia do Papa Bento XVI.

Todo esse drama - a pontualidade, a cobertura de imprensa, a publicidade - faz com que pareça que a Igreja Católica se tornou americana, como nunca na história. Os Estados Unidos, de fato, dominam os compromissos da Igreja Católica de maneira indiscutível.

Isso não acontece por que os EUA são a maior força atual, nem por causa da quantia nas doações dos católicos americanos para os fiéis ao redor do mundo, mas porque os problemas provindos da Igreja Católica Americana se tornaram o assunto principal da Igreja universal.

O exemplo óbvio é o escândalo de abuso sexual de crianças, mas também podemos citar as controvérsias sobre a Amoris Laetitia, trabalho pelo qual o Papa tentou mudar a atitude da Igreja em relação ao casamento e sacramentos.

Esses assuntos têm ditado os compromissos da Igreja nos últimos anos, e por causa da natureza dessa ferida no seu corpo e da descrença profunda que isso gerou, levará muito mais tempo, possivelmente décadas, para sará-la e superá-la.

Desse modo, enquanto os EUA têm uma influência gigantesca no ‘mundo Igreja Católica’, parece estar surgindo um distanciamento entre Roma e o país norte-americano. Massimo Faggioli argumentou recentemente que Roma parece incapaz de se comunicar efetivamente com os Estados Unidos, e há uma diferença cultural considerável entre os dois.

Isso deve ser porque, como a Igreja Católica Americana nos disse, "Nós, americanos, costumávamos obedecer a tudo o que Roma dizia e nunca contrariávamos. Agora, também queremos uma voz". Esse parece ser o plano de fundo da análise de David Gibson.

Mas estaria o Papa Francisco interessado em intervir, como sugere Gibson? Papa Francisco procura converter pessoas, não as dispensar. Ele quer leigos envolvidos com a Igreja, não um novo clericalismo que substitua o antigo.

Podemos considerar sua reforma da Cúria como um exemplo disso. Papa Francisco não se movimentou com planos ou projetos. Ele mudou as coisas e alterou os cargos, motivado pela reza e pela meditação, sempre pensando que tinha o dever de alinhar a Igreja com Jesus e assim ele a transformaria, como disse Antonio Spadaro numa coletiva recente em Roma.

Mas tudo isso traz alguns problemas pela frente. Se os Estados Unidos com sua voz e interesses dominam Roma, mas Roma não consegue se comunicar com os Estados Unidos, isso cria uma situação muito desequilibrada que pode virar toda a Igreja de cabeça para baixo.

O outro problema é ainda maior. O Papa está fazendo incursões na Ásia pela primeira vez em toda a história, e a Igreja Católica está expandindo sua causa na África. Mas esses lugares têm pouco, ou não têm, interesse nas controvérsias do abuso de crianças ou de ética sexual. Como poderiam estes interesses viver lado a lado? Eles não irão se chocar?

Em seguida, implícito nisso, há uma série de outros problemas. O abuso de crianças e a ética sexual são problemas difíceis para católicos e protestantes nos Estados Unidos e na Europa. Eles movimentam políticas, e revivem velhas tensões entre católicos e protestantes. Se o Papa administrar mal a situação, muitos católicos abandonarão sua fé. Se ele administrar bem, pelo contrário, poderá abrir caminhos para uma boa reconciliação cristã.

Mas em outros lugares, a competição é com os muçulmanos, ou com os budistas, ou com os hindus, ou mesmo com regimes opressivos. Isso é, se os Estados Unidos querem uma voz em Roma e isso trazer compromissos legítimos e importantes para Roma, esses compromissos estarão indo ao contrário do que Igreja está enfrentando em outras partes do mundo. E isso terá um impacto importante nesses lugares. As sensibilidades sobre a Ásia e a África são muito diferentes para Roma e para os Estados Unidos.

Para manter a Igreja unida, a ideia não é apenas a necessidade de resolver os escândalos de abuso sexual, mas se afastar de uma Igreja que talvez esteja demasiadamente absorvida pelas partes inferiores do corpo e ir em direção a uma Igreja que alcance os não-católicos e os pobres. Sobre os compromissos, alguns na Igreja não gostam de um Papa preocupado com imigrantes ou com a paz, eles preferem mantê-lo concentrado em sexo.

Também é uma questão de poder. As velhas posições de poder não existem mais. Quando um padre modesto do Laos é escolhido para ser cardeal, inclusive com os privilégios para escolher o próximo Papa, ao invés de um bispo de uma cidade grande e rica, a velha balança de poder é jogada fora. A Igreja já está num outro lugar. A maioria dos cardeais do futuro conclave já foram escolhidos por Francisco, para que, depois dele, seu sucessor seja Francisco II.

E o golpe é ilógico. Você não gosta do Papa? Faça como o arcebispo Lefebvre nos anos 70, ou como muitos antes dele, estabeleça sua própria ordem sagrada e seus próprios padres e parta com eles de Roma.

Mas pedir a renúncia do Papa num artigo de jornal?! Isso nunca aconteceu em 2000 anos de história - você não pode ser conservador e querer inovar tanto a tradição ao mesmo tempo. Não podem acontecer ambas as coisas; não funciona. Se você insiste em agir contra o Papa, pegue seu veneno, ou seu punhal… e entre na fila.

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