Balanço da viagem do Papa à Irlanda: quem ganhou e quem perdeu

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29 Agosto 2018

Agora que a poeira do turbilhão da visita de 32 horas do Papa Francisco à Irlanda no fim de semana começou a baixar, é hora de recuar e tirar algumas conclusões provisórias sobre como o Pontífice se saiu, bem como quem mais ganhou e perdeu com a experiência.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 28-08-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.
Verdadeiro sucesso

Em certo nível, é fácil supor que qualquer papa em viagem à Irlanda tem certa vantagem. É um país onde o catolicismo estruturou a cultura por séculos e onde Igreja e Estado são profundamente interligados até hoje.

Porém, a Irlanda que cumprimentou Francisco gentilmente em 2018 está a milhas de distâncias do lugar que ficou louco por João Paulo II em 1979, em que mais de metade da população cobriu o papa polonês de agrados.

Hoje, a Irlanda é um Estado laico (ou, pelo menos, em vias rápidas de laicização) onde o divórcio, a contracepção, o casamento homossexual e o aborto são legais, pelo resultado dos referendos populares em que a maioria dos cidadãos irlandeses desafiou a Igreja. É também um país profundamente marcado por escândalos de abuso sexual infantil no catolicismo, que tornou o sentimento de raiva por esses escândalos praticamente uma característica que define a vida nacional.

De qualquer forma, portanto, o trabalho de Francisco não seria fácil. Ainda mais com o período que antecedeu a visita, em que houve um escândalo de abuso depois do outro, colocando o dedo em antigas feridas, e podemos concluir que a montanha que ele teve que subir foi realmente íngreme.

Nesse contexto, o consenso geral era que Francisco superou as expectativas no geral.

As multidões não eram gigantes, mas estavam genuinamente entusiasmadas, e a maioria culpava mais o tempo frio e chuvoso e o clima de medo induzido por avisos na mídia do fechamento de estradas, longas caminhadas e horror generalizado pela participação inferior ao que era previsto.

No geral, a "mágica de Francisco" também aconteceu na Irlanda, principalmente sua icônica visita, no sábado, a um centro para pessoas sem-teto de Dublin coordenada pelos Capuchinhos Franciscanos. As pessoas assistiram o pontífice projetar humildade e prazer genuíno ao cumprimentar os excluídos da sociedade.

Também o viram improvisar um rito arrependimento no domingo após o encontro com vítimas de abuso, na noite anterior, querendo acreditar que aquele ainda podia ser o Papa que faz com que tudo fique bem.

No entanto, não se pode dizer que a viagem foi um sucesso total, porque ele foi perseguido no final pela carta de um antigo embaixador papal nos Estados Unidos que acusou Francisco de acobertar escândalos envolvendo o ex-cardeal Theodore McCarrick e de não ter tomado ações concretas na responsabilização dos bispos exigida por muitos sobreviventes irlandeses.

No final, a melhor avaliação é que a viagem foi melhor do que se poderia imaginar usando a sensatez, mas não tão boa quanto se poderia ter sonhado.

Vencedores e perdedores

Além do Papa, para não mencionar uma Igreja da Irlanda um tanto ameaçada, precisando de um chacoalhão, parecia haver dois vencedores que ficaram valorizados com a visita do Papa.

Um é o arcebispo de Dublin, Diarmuid Martin, que vai levar muito crédito por organizar um Encontro Mundial das Famílias de sucesso e também a viagem papal, e que aproveitou a ocasião para se posicionar novamente como um agente de mudança e reformador dos escândalos de abuso sexual clerical.

Se o cargo de prefeito da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores do cardeal de Boston Sean O'Malley está ameaçado, tanto pelos escândalos de abuso no seminário St. John, em Boston, como pela controvérsia de uma carta a respeito de McCarrick, que um de seus assessores recebeu mas que O'Malley diz nunca ter visto, Martin, de 73 anos, poderia surgir para muitos observadores como um substituto enviado por algum escritório de casting de Hollywood.

(Talvez Martin tenha sugerido que estava disponível quando disse a repórteres no domingo, antes da abertura do Encontro, que a comissão de O'Malley não "está atacando" nos lugares certos e sugerir que o Papa precisa de uma equipe mais forte.)

Outro vencedor é o primeiro-ministro irlandês Leo Varadkar, que é abertamente gay e usou o discurso de abertura a Francisco, no sábado, para lançar as bases de uma "nova aliança entre Igreja e Estado para o século XXI".

Parte disso, pelo que sugeriu Varadkar, é um novo espírito de sinceridade, que ele exemplificou chamando a atenção do Papa publicamente sobre sua atuação diante dos escândalos de abuso sexual.

"No lugar do perdão, da compaixão e da caridade cristã, muitas vezes, houve julgamento, austeridade e crueldade. Particularmente em relação às mulheres, às crianças e aos que estão à margem", afirmou.

"Os asilos de Madalena, abrigos para mães e bebês, escolas industriais, adoções ilegais e abuso clerical são manchas para o Estado, a sociedade e também para a Igreja. As pessoas que foram mantidas em cantos escuros com portas fechadas, gritos por ajuda que não foram ouvidos. Essas feridas ainda estão abertas, e não há muito a fazer para trazer justiça, verdade e cura para as vítimas e sobreviventes", disse Varadkar.

"Santo Padre, pedimos que seu cargo e influência sejam usados para garantir que isso será feito na Irlanda e em todo o mundo."
Foi uma forma deferente e respeitosa de envolver a liderança religiosa e, ao mesmo tempo, honesta e sem medo. Um comentador irlandês descreveu a reação do público da seguinte forma: "A visita papal pode ou não ser lembrada como o momento em que Francisco nos conquistou, mas definitivamente vai ficar como o momento em que Varadkar ganhou nosso coração."

Em relação aos perdedores, o primeiro pode ser a comunidade LGBT - não por nada que tenha feito ou deixado de fazer, mas pelas circunstâncias.

Seis meses atrás, muitos teriam apostado grandes quantias na ideia de que o tratamento da Igreja à comunidade LGBT e seu lugar na sociedade irlandesa, ainda fortemente condicionada pelo catolicismo, seria a questão norteadora do Encontro Mundial das Famílias em Dublin ou, pelo menos, uma parte considerável do subtexto.

Apesar de algumas discussões em paralelo, a realidade é que o período pré-evento - o escândalo McCarrick, o relatório da Suprema Corte da Pensilvânia, as revelações no Chile e crescentes pressões sobre vários altos funcionários da Igreja em relação a seus cargos - fez os escândalos de abuso sexual no clero serem praticamente a única lente com que a mídia e o resto do mundo avaliaram a viagem.

Outro perdedor, pelo menos em termos de atenção, foi o debate sobre o documento sobre a família Amoris Laetitia, publicado em 2016 por Francisco, e sua abertura cautelosa à comunhão para católicos divorciados e recasados no civil.

Oficialmente, todo o Encontro Mundial das Famílias foi organizado em torno de Amoris Laetitia e, informalmente, havia a esperança de que o evento representasse um ponto de virada em que a reação positiva ao documento venceria.

Por outro lado, os adversários queriam demonstrar que há um profundo e duradouro desconforto com o documento, não apenas dentro do clero, mas também na base popular. Um evento conservador organizado a poucos metros do encontro fez críticas ao documento.

No entanto, por causa do foco na crise de abuso sexual, bem como o cansaço geral do mundo católico com todo o tumulto, o debate sobre Amoris foi basicamente uma nota de rodapé em Dublin - um termo carregado, certamente, nas discussões do documento, uma vez que sua disposição mais controversa surgiu na possível nota de rodapé papal mais comentada da história, mas, ainda assim, é verdade.

Claro, a maioria dos católicos que foi ver o Papa no Croke Park, em Dublin, no sábado à noite no festival de famílias, ou que foi ao Phoenix Park, no domingo à tarde, para o encerramento oficial do encontro, não estava pensando dessa forma.

Eles estavam muito felizes de ver o Papa, satisfeitos pela experiência de compartilhar sua fé com outros católicos igualmente entusiasmados não apenas de outras partes da Irlanda, mas do mundo todo. Para essas pessoas, eles são os verdadeiros vencedores, independentemente de quem mais se beneficiou - e provavelmente também não estão dispostas a pensar muito sobre quem pode ter perdido.

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