Chile. “João Paulo II nomeou bispos com pouca liberdade para interpretar a doutrina da Igreja”. Artigo de Jorge Costadoat

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23 Maio 2018

"Esperamos que a nova geração de bispos termine de 'ordenar a casa' e ponha a Igreja a serviço do mundo"

O artigo é de Jorge Costadoat publicado por Religión Digital, 22-5-2018. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Pelos anos sessenta e setenta Paulo VI nomeou para o Chile uma geração de bispos excepcionais. João Paulo II, a partir dos anos oitenta, no Chile e no resto da América Latina, nomeou bispos com pouca liberdade para interpretar a doutrina da Igreja, doutrina que em caso como Veritatis splendor significou um retrocesso; foram homens sem as luzes da geração anterior, medrosos, estritamente fiéis ao governo do Papa.

Os bispos chilenos de Paulo VI fizeram frente à ditadura de Pinochet. O cardeal Raúl Silva Henríquez criou o Vicariato da Solidariedade que acolheu e defendeu as vítimas de violações de direitos humanos. Sob a inspiração da Conferência Episcopal de Medellín (1968) e depois da Conferência de Puebla (1979), e da Teologia da Libertação, a Igreja Chilena hostilizada e perseguida, especialmente as comunidades eclesiais de base, experimentou um fervor evangélico e profético extraordinário.

Nestes mesmos anos, não obstante, começou a se fortalecer o catolicismo conservador, discordante das vozes oficiais. Tinha a seu favor Pinochet e o cardeal Sodano, o núncio apostólico. Também tinha o vento favorável ao entrevistado de Messori, em Informe sobre la fé, o cardeal Ratzinger, o principal intérprete do Concílio nos últimos cinquenta anos e feroz censor dos teólogos da libertação.

O que explica em grande medida as proporções do problema da Igreja chilena atual, é que este fortalecimento do catolicismo conservador se concentrou na agrupação sacerdotal muito poderosa criada por um pároco, o sacerdote Fernando Karadima, um homem intelectualmente limitado, porém encantador da elite.

Este gerou em torno da sua pessoa uma verdadeira seita de jovens frágeis psicologicamente que foram abusados sexual e espiritualmente. Não sem o consentimento de Sodano, que tinha um escritório privado na paróquia de Karadima, desse grupo foram nomeados bispos Juan Barros, que chegou a se constituir no “pomo da discórdia”, Andrés Arteaga, Tomislav Koljatic e Horacio Valenzuela.

O caso estourou em 2010. O novo arcebispo de Santiago, o cardeal Francisco Javier Errázuriz, removeu o pároco de suas funções. Porém o fez depois das vítimas de Karadima, James Hamilton, Juan Carlos Cruz e Andrés Murillo, rogarem-lhe justiça desde 2003. No ano de 2011, o novo arcebispo, Ricardo Ezzati, depois de investigar a situação, sancionou o pároco, impedindo-lhe de exercer publicamente o sacerdócio e a direção espiritual. Paralelamente o caso foi apresentado diante dos tribunais de justiça, os quais, depois de julgarem Karadima culpado, o absolveram pela prescrição dos delitos.

No anos seguintes, se desvelaram numerosos casos de abusos sexuais do clero, abusos de pederastia e pedofilia. Alguns terminaram com sentenças civis (há sacerdotes presos), outros com sentenças canônicas (restringidos das suas funções sacerdotais) e, enfim, alguns quantos ainda estão sendo investigados. O panorama é desolador. O clero e quase todas as agrupações religiosas de homens, tiveram casos de abusos e acusações (incluindo nós, os jesuítas).

O Papa Francisco depois de errar mais de duas vezes a respeito de Juan Barros, repudiado pela diocese de Osorno, decidiu se informar a fundo e tomar medidas drásticas. Enviou ao Chile o bispo de Malta Charles Scicluna e Jordi Bertomeu, da Congregação para a Doutrina da Fé, para investigarem. O resultado dessa indagação fez o Papa concluir que havia sido mal informado.

Quem o informou mal? Não sabemos. Porém, ou ele não fez caso a Francisco Javier Errázuriz, membro da “conselho dos Nove” (um de seus mais próximos colaboradores), nem ao núncio Ivo Scapolo, que pela proximidade e cargos deveriam ter feito, ou esses, ou um desses, inclinaram a balança para o lado de Barros. Ezzati, por outro lado, tem outros “pecados”, porém se sabe que se opôs à nomeação do bispo de Osorno.

Hoje, depois da renúncia de todo o episcopado chileno, parece se fechar um capítulo e se abrir outro. Será alguém melhor?

A situação é inaudita. A carta que o Papa entregou em privado aos bispos para discernir com eles o futuro da Igreja chilena, é comovedora. Este documento revela o impacto que produziram em Francisco os gravíssimos abusos sexuais e psicológicos e de consciência, de maiores e menores; e por sua vez, estremece aos católicos pelo tipo de imoralidades cometidas pelos bispos e mandos em trabalhos de encobrimento de tais abusos e delitos.

O documento, em uma parte, esboça um verdadeiro programa de futura reforma da Igreja chilena e, por outra, confirma a comissão de irregularidades tão graves como destruir arquivos, isto é, eliminação de provas. Qualquer um pode imaginar que o relatório de 2400 páginas que o investigador Charles Scicluna entregou ao Pontífice é assustador.

O que vem? Supomos que Francisco acolherá a renúncia de vários bispos. Quantos? É quase certo que sairão da conferência os quatro discípulos espirituais de Karadima. Ademais, todos os que já haviam renunciado por idade. São quatro. Alguém mais? Não sabemos. Isso é, no futuro imediato terá que se nomear, pelo menos, a oito bispos e a um nono pela sede vacante da diocese de Valdivia.

O que vem? Ignoramos se os bispos que fiquem e os novos estarão à altura das exigência que o Papa lhes colocou no documento comentado. Francisco pede a todos para trabalhar por uma Igreja profética que saiba “colocar a Cristo no centro” de seu coração e de sua ação. Uma Igreja profética como a dos bispos de Paulo VI que se orientou pela opção pelos pobres e encarou as violações dos direitos humanos, e não como a que veio depois, a da hierarquia que, nas palavras de Francisco, “deixou de olhar e apontar ao Senhor para se olhar e se ocupar de si mesma”.

Aqui que surge uma pergunta inquietante: estarão capacitados os bispos que ficarem para empreender uma conversão desta magnitude? Capitularão esses a sua aliança de classe com a elite em um país injusto como o Chile? Há entre esses bispos muitos conservadores e inclusive alguns que, antes de serem sacerdotes, trabalharam como advogados nas dependências da ditadura.

Se o Papa Francisco quer realmente fazer as mudanças que seu giro pastoral requer, terá que colocar os meio para que suas palavras não caiam em letra morta. Deverá aceitar a renúncia de vários bispos mais. Terá que desnivelar a conferência episcopal. A Igreja Chilena pretendeu operar com duas pastorais ao mesmo tempo: uma para os setores altos, acomodados e religiosamente de tendência pré-conciliar; e outra inspirada pelas conferências de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida que, como quatro martelos sobre o mesmo prego, ratificaram uma opção preferencial pelos pobres.

Outra pergunta: Há gente que possa ser nomeada que cumpram essas condições para assumir o lugar dos que saiam? Na carta do Papa há uma queixa contra os seminários. Os seminários do período do “inverno eclesial” de João Paulo II ressacralizaram o clero. Esse tipo de clero, conclui a Comissão Real sobre os abusos de menores na Austrália (2017), gera relações humanas assimétricas e inapropriadas.

O papa Francisco delineia um programa e põe os fundamentos para esperar algo melhor. De imediato, recorda que Deus atua no santo Povo de Deus e que neste povo há uma fé e uma energia extraordinária. Se os futuros bispos não se nutrem e aprendem do Povo de Deus em quem reside a fé da Igreja, creio eu, voltaremos ao mesmo.

É imperioso, portanto, dar participação aos fiéis na organização da sua Igreja. Diz Francisco com essas palavras: “Permitam-me a insistência, urge gerar dinâmicas eclesiais capazes de promover a participação e missão compartilhada de todos os integrantes da comunidade eclesial”, deixado de lado a “psicologia das elites”. Participarão em algum instância os leigos na eleição dos próximos bispos?

É a hora dos leigos. Esperamos que a nova geração de bispos termine de “ordenar a casa” e ponha a Igreja a serviço do mundo. O façam ou não o façam, já agora os católicos, padres e fiéis deveriam assumir um rol protagonista. Urge criar algo novo. Necessita-se uma Igreja de comunidades (segundo Pagola). Se necessitam comunidades de todo tipo que exijam respeito e participação, capaz de representar com respeito suas diferenças à autoridade e de rebelar-se contra os atropelos. É imperiosa mais criatividade, mais solidariedade com o próximo, mais participação das mulheres, em uma palavra, mais Evangelho.

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