Caso Karadima: encobrimentos, conivências, cumplicidades

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29 Abril 2018

O Papa Francisco prepara o encontro com os bispos chilenos, o quarto em 15 meses. Dias atrás, ele teve uma longa conversa com o núncio, Dom Ivo Scapolo.

A reportagem é de Luis Badilla e Francesco Gagliano, publicada por Il Sismografo, 27-04-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No artigo anterior, destacamos aquilo que, na nossa opinião, será realmente importante na nova fase que se abre para a Igreja chilena com o encontro que será realizado no Vaticano entre seus bispos e o Papa Francisco (14 a 17 de maio).

Enfatizamos dois conceitos, duas palavras, dois desafios, sobre as quais, depois, também quis insistir Dom Santiago Silva, presidente do episcopado chileno: comunidade eclesial e conversão.

É certo que a grande maioria dos 32 bispos que devem participar do encontro de maio está ciente do que está em jogo, além da sabedoria dos caminhos indicados pelo papa, na carta do dia 8 de abril passado, para sair da situação.

Essa comunhão eclesial, dilacerada, e uma comunidade eclesial que goza de pouca popularidade só podem ser reconstituídas se se enfrentar com coragem a verdade de muitas passagens que, nos últimos anos, foram tratadas e aparentemente superadas com mentiras, desenvolturas sem escrúpulos e, acima de tudo, alterando sua realidade com abusos de poder que causaram traumas nunca realmente curados.

Um primeiro obstáculo, fundamental, que é preciso superar definitivamente diz respeito ao “caso Fernando Karadima”, que poluiu a vida dessa Igreja sul-americana há muitos anos. Esse caso não diz respeito apenas à conduta desse sacerdote – que já emergiu com clareza no processo civil (encerrado sem sentença, por prescrição) e no canônico (que terminou com condenações pesadas e encerrado definitivamente em 21 de junho de 2011) –, mas também à fraternidade de Karadima, a “Pia União Sacerdotal”, dissolvida em 2012 por decisão do cardeal Ricardo Ezzati, arcebispo de Santiago, após as condenações emitidas contra o sacerdote.

Karadima – quando substituiu o idoso pároco de “El Bosque”, Pe. Alejandro Huneeus Cox, padre muito rico e proprietário pessoal de vários edifícios da paróquia – imediatamente assumiu a liderança da Pia União, que se tornou o foco de seu poder religioso, pastoral, eclesial, cultural e político.

A partir dessa verdadeira fortaleza, o Pe. Karadima, com ar autoritário e explorando suas capacidades (bom orador, grande intuição na descoberta de vocações sacerdotais, grandes capacidades teatrais em se fazer ver e retratar como homem piedoso), construiu um centro de poder em cuja órbita foram atraídos outros “poderosos”: arcebispos da capital, bispos, núncios apostólicos, superiores de institutos religiosos, instituições da Igreja diocesana.

Mas, desde o início, havia sombras sobre a obra do “brilhante e carismático padre Karadima”. Ainda no distante 1955, de acordo com denúncias assinadas e apresentadas à Justiça chilena em 2010, Fernando Karadima, que então tinha 25 anos, usou seu poder para abusar de um menor que fazia a Primeira Comunhão (Colégio The Grange).

Essa longa e obscura história de Karadima, encoberto e protegido por inúmeros cardeais, arcebispos e bispos chilenos, custou à Igreja local (e, em concreto, à sua atual hierarquia) um preço muito alto, nada comparável a outras situações semelhantes: de acordo com uma pesquisa, Cerc-Mori, de quinta-feira, 26, 71% dos chilenos rejeita categoricamente o comportamento da Igreja diante de inúmeros casos de abusos sexuais cometidos por membros do clero (seriam pelo menos 80 os sacerdotes acusados ou denunciados por esses crimes).

Certamente, não são o caso Karadima e os 57 sacerdotes que seriam vocações descobertas pelo padre a causa da crise e do declínio da Igreja Católica chilena, mas são seguramente um dos fatores mais determinantes. Ao lado da insensatez com que o episcopado chileno tratou o fenômeno da pedofilia entre os membros do clero, talvez para proteger Karadima, deve-se registrar uma notável mediocridade dos bispos nomeados nos últimos 30 anos, muitas vezes considerados “os melhores” não por serem bons e por estarem preparados, mas por serem fiéis às corjas vaticanas, atentas em manter sua própria influência sobre essa e outras conferências episcopais.

O declínio da Igreja chilena encontra seus principais líderes entre os membros da nomenklatura vaticana desde os tempos em que Angelo Sodano foi, primeiro, núncio no Chile (1977-1988), depois secretário do então Conselho para os Assuntos Públicos da Igreja e, por fim, secretário de Estado (1988-2006).

Nas atuais circunstâncias, cabe a ele, apesar de seus 90 anos, a primeira e mais séria autocrítica. A essa autocrítica, se deveriam associar, depois, com coragem, as de mais da metade dos atuais bispos do país sul-americano, muitos aposentados, mas que ainda têm uma notável influência no governo real e atual da Igreja local.

Nessa perspectiva, é claro, como demonstram numerosas passagens da história da Igreja chilena desde os anos 1980, que o caso Karadima – com todo o grave acréscimo de encobrimentos, conivências e cumplicidades episcopais – teve o mesmo efeito para o país que o escândalo Maciel sobre a Igreja universal. Também naquele caso, as péssimas políticas de ocultamento voltaram-se a encobrir os abusos do fundador e chefe dos Legionários de Cristo, apesar de chegarem, de várias partes, denúncias e testemunhas autorizadas dos horrendos crimes do padre mexicano.

Com o papa, portanto, todos os bispos chilenos e não apenas os quatro que saíram da Pia União Sacerdotal de Karadima deverão esclarecer para sempre, definitivamente, com transparência e honestidade, o caso Karadima e tudo o que aconteceu durante décadas ao redor do seu poder. A Igreja chilena é capaz de fazer isso, pode restaurar seu valor, relevância e importância, e o Papa Francisco poderia ser decisivo nesse sentido.

Francisco trabalha intensamente há muitos dias na preparação do seu encontro com os 32 bispos do Chile. Na semana passada, em Santa Marta, ele recebeu por muito tempo o núncio apostólico no Chile, Dom Ivo Scapolo, destinado a encerrar em breve, para sempre, o seu serviço diplomático. Esse imenso trabalho do papa deveria marcar o ponto de virada do catolicismo chileno, para o bem de todos.

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