Para além de Morales, a Igreja de Wojtyla abençoou Pinochet

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14 Julho 2015

Ah, se ainda estivesse por aqui João Paulo II, o papa magno século XX, hoje santo. A direita católica italiana reagiu com páginas de horror diante daquele crucifixo "blasfemo", Cristo pregado na foice e no martelo, que o presidente boliviano Evo Morales deu de presente ao pontífice argentino. Pouco importa se, naquelas regiões, o símbolo comunista ainda significa luta pelo trabalho, pelo pão de cada dia e pela terra (coincidentemente, as mesmas exigências de Francisco) e não a morte atroz nos gulags. Não, o essencial é descartar a primeira foto de Bergoglio diante do presente nada mais do que kitsch, aquela com o rosto perplexo, e debruçar-se, ao contrário, sobre o sorriso papal da sequência seguinte, uma verdadeira ofensa a todos os cristãos mártires do comunismo.

A reportagem é de Fabrizio D'Esposito, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 13-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Foi esse, no jornal italiano Il Giornale, o lamento de Renato Farina, membro do Comunhão e Libertação: "Wojtyla teria removido Jesus daquele martelo, tenho certeza disso, e o teria beijado e feito Morales beijá-lo". Uma pena, porém, que São João Paulo II não manifestou a mesma energia imaginada por Farina quando se tratou de ir ao Chile de Pinochet, o pior ditador fascista daquele continente.

Era 1987, e o papa polonês, grande defensor do anticomunismo, se assomou da sacada presidencial de Santiago junto com o general sanguinário. Uma mancha vergonhosa no seu papado. Uma imagem que permanece ainda hoje na memória depois de quase 30 anos.

O presidente Morales certamente poderia ter poupado aquele presente (em todos os casos, inspirado em uma obra do padre Luis Espinal, jesuíta assassinado pelos paramilitares e considerado o Romero boliviano), mas a macabra contabilidade dos cristãos martirizados pelos regimes comunistas ainda é uma leitura muito parcial e instrumental.

Justamente na América do Sul, a Igreja dos anos 1980 foi a margem decisiva para a estratégia estadunidense dos golpes de Estado antissocialistas. Ao preço de milhares e milhares de vítimas. São estes, talvez, mortos de segunda categoria, para a direita católica que odeia o crucifixo de Morales?

Os integralistas italianos deveriam reler as cartas que um desesperado Roberto Calvi, antes de ser "suicidado", escreveu à Santa Sé: "Prodigalizei-me na América Latina em todos os sentidos, chegando até a me ocupar do fornecimento de navios militares e de outros materiais bélicos a fim de favorecer aqueles que eficazmente podiam combater o avanço de forças comunistas bem organizadas. Graças a essas intervenções, hoje, a Igreja pode se orgulhar da sua presença de autoridade em países como a Argentina, a Colômbia etc.".

Goste-se ou não daquele crucifixo de Morales, ele representa uma Igreja não conivente com os ditadores como Pinochet, o general chileno que hoje apodrece no inferno.

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